A eleição para o Governo do Tocantins chega à reta final com um roteiro que poucos imaginavam há poucas semanas. Depois de liderar as pesquisas durante praticamente toda a campanha e terminar o primeiro turno na dianteira, a senadora Professora Dorinha Seabra viu o cenário eleitoral se transformar rapidamente no segundo turno, enquanto o deputado federal Vicentinho Júnior passou a ocupar o espaço político de quem cresce, agrega apoios e chega à fase decisiva com vantagem nos principais levantamentos divulgados após a primeira votação.
Liderança construída na campanha
O resultado do primeiro turno já indicava que a disputa seria mais apertada do que muitos imaginavam. Embora tenha conquistado a primeira colocação com 45,52% dos votos válidos, Dorinha Seabra ficou apenas 13,4 mil votos à frente de Vicentinho Júnior, que alcançou 43,94%. A diferença reduzida demonstrou que, apesar da liderança consolidada nas pesquisas, a senadora não havia conseguido abrir uma vantagem confortável nas urnas.
Durante toda a campanha, Dorinha apostou na força de uma ampla aliança política e na associação com a gestão do governador Wanderlei Barbosa, que chegou ao período eleitoral com índices majoritários de aprovação. Sua candidatura reuniu praticamente toda a máquina política governista, incluindo partidos de grande capilaridade eleitoral e lideranças influentes em diversas regiões do Estado. A narrativa era de continuidade administrativa, estabilidade e manutenção de um modelo de governo que, segundo a campanha, vinha sendo aprovado pela população.
A estratégia de crescimento de Vicentinho
Do outro lado, Vicentinho Júnior apostou numa estratégia distinta. Mesmo sendo um político experiente e integrante do establishment tocantinense, procurou ocupar o espaço da mudança, apresentando-se como alternativa ao grupo que controla o governo estadual. A campanha centrou esforços na ampliação de apoios municipais e na construção de uma rede política capaz de reduzir a vantagem institucional da adversária. O discurso encontrou terreno fértil especialmente após o primeiro turno, quando a disputa deixou de ser pulverizada entre vários candidatos e passou a ser decidida voto a voto.
Mais do que isso, a candidatura tucana conseguiu explorar um sentimento recorrente em disputas de segundo turno: a união de setores políticos que, embora distintos entre si, convergem no objetivo de impedir a vitória do grupo considerado favorito.
As pesquisas e a inversão de tendência
O fato mais relevante da nova fase da campanha foi a mudança brusca na dinâmica dos levantamentos eleitorais. Se antes Dorinha Seabra aparecia na liderança de praticamente todas as pesquisas, o segundo turno revelou uma inversão de tendência.
A primeira pesquisa Quaest após o primeiro turno mostrou Vicentinho Júnior com 49% das intenções de voto, contra 42% de Dorinha. Dias depois, levantamento do Paraná Pesquisas ampliou ainda mais essa vantagem, indicando 56,5% dos votos válidos para o tucano, ante 43,5% da candidata do União Brasil.
A mudança não foi apenas numérica. Ela alterou a percepção política da disputa. Enquanto Dorinha passou a enfrentar questionamentos sobre sua capacidade de converter apoios institucionais em votos efetivos, Vicentinho começou a ser visto como o candidato em ascensão, capaz de atrair eleitores indecisos e lideranças que, até pouco tempo antes, orbitavam em torno do grupo governista.
O papel das adesões políticas
Nesse contexto, as adesões políticas ganharam relevância estratégica. Embora Dorinha tenha mantido o apoio formal do governador Wanderlei Barbosa e do senador Eduardo Gomes, a campanha de Vicentinho passou a registrar aproximações e manifestações de apoio vindas de setores que não estavam originalmente em seu campo político.
Mais do que o peso eleitoral individual dessas lideranças, o impacto simbólico dessas movimentações ajudou a consolidar a sensação de que a candidatura tucana havia assumido uma trajetória de crescimento contínuo. Em campanhas equilibradas, o efeito psicológico das adesões costuma ser tão importante quanto o potencial de transferência direta de votos.
Debates, acusações e confronto direto
Os debates também contribuíram para elevar a temperatura da disputa. Com apenas dois candidatos em cena, o confronto direto passou a ter importância maior do que no primeiro turno. Os encontros foram marcados pela defesa da continuidade administrativa por parte de Dorinha e pela tentativa de Vicentinho de reforçar a narrativa da mudança.
Ao mesmo tempo, a campanha entrou em uma fase de forte enfrentamento político. As acusações mútuas passaram a ocupar espaço significativo no debate público, envolvendo questionamentos sobre trajetórias políticas, alianças partidárias e responsabilidades administrativas. O tom mais agressivo da disputa refletiu a percepção, compartilhada pelos dois grupos, de que a eleição permaneceria aberta até os últimos dias.
A lição de Palmas
É justamente nesse aspecto que a eleição estadual passa a lembrar o que aconteceu na disputa pela Prefeitura de Palmas em 2024.
Naquele pleito, Janad Valcari chegou ao segundo turno como favorita. Ela havia liderado o primeiro turno com ampla vantagem e, durante boa parte da campanha, aparecia à frente dos adversários nas pesquisas. Entretanto, a dinâmica eleitoral mudou nas semanas finais. O então candidato Eduardo Siqueira Campos conseguiu reunir apoios, ampliar sua presença junto ao eleitorado e consolidar os votos dos grupos derrotados no primeiro turno. O resultado foi uma virada considerada histórica na política palmense.
A semelhança entre os dois processos é evidente. Assim como Janad, Dorinha iniciou a disputa decisiva carregando o peso do favoritismo. Assim como Eduardo, Vicentinho passou a ocupar o espaço político do crescimento, da agregação de apoios e da mobilização do eleitorado que buscava uma alternativa ao grupo predominante. Em ambos os casos, a transição entre o primeiro e o segundo turno redefiniu completamente o ambiente eleitoral.
Outro elemento que reforça o paralelo é o histórico recente dos levantamentos eleitorais no Tocantins. Em Palmas, a última pesquisa do Paraná Pesquisas apontava vantagem numérica de Janad Valcari nos votos válidos, mas a vitória acabou ficando com Eduardo Siqueira Campos nas urnas. O episódio transformou-se em referência obrigatória para qualquer análise sobre a reta final das eleições tocantinenses e passou a ser lembrado por observadores políticos sempre que uma disputa apresenta mudança acelerada de cenário.
Embora cada eleição tenha suas particularidades, a experiência da capital reforça a tese de que o favoritismo inicial nem sempre é suficiente para garantir a vitória quando o adversário consegue capturar o sentimento de mudança e ampliar sua base de apoio entre o primeiro e o segundo turno.
Favoritismo mudou de lado?
À vespera da votação, a sensação predominante entre analistas políticos é que o segundo turno para o Governo do Tocantins deixou de ser uma disputa entre uma favorita e um desafiante para se transformar em uma corrida em que o favoritismo aparente mudou de lado.
Se as pesquisas mais recentes estiverem corretas, Vicentinho Júnior entra na reta final com vantagem e com o impulso político de quem conseguiu crescer no momento decisivo da campanha. Já Professora Dorinha Seabra enfrenta o desafio de reverter uma tendência desfavorável justamente quando a eleição entra em sua fase mais decisiva.
O desfecho ainda depende das urnas. Mas, independentemente do resultado, a disputa de 2026 já se consolida como uma das mais imprevisíveis da história política recente do Tocantins, marcada pela rápida mudança de cenário, pela intensa disputa de narrativas e por um paralelo inevitável com a eleição municipal de Palmas que transformou uma favorita em derrotada e um azarão em vencedor.



