*Por Joana Castro
O segundo turno das eleições para o governo do Tocantins em 2026 projeta um dos cenários mais emblemáticos e analíticos da política recente no Estado. A disputa, travada entre a senadora Professora Dorinha e o deputado federal Vicentinho Júnior, ultrapassou a mera contagem do primeiro turno — quando Dorinha obteve 45,52% dos votos válidos contra 43,94% de Vicentinho — e se transformou em um complexo tabuleiro de características estratégicas e alianças de alto impacto.
O panorama atual coloca em confronto direto duas visões distintas de construção de capital eleitoral: de um lado, a consolidação da liderança através da capilaridade territorial e municipalista; do outro, o fortalecimento de uma narrativa ideológica respaldada por figuras de projeção nacional.
A Estratégia de Vicentinho Júnior: Capilaridade e Voto de Base
Ao confirmar o primeiro turno com uma diferença estreita em relação à liderança, a candidatura de Vicentinho Júnior partiu para uma ostensiva inovação de atração de bases locais. A sequência de adesões anunciadas pela campanha reflete um movimento focado em converter estruturas políticas regionais em votos no pleito decisivo.
A migração de prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e deputados estaduais que anteriormente integraram o arco de aliança de Dorinha — como os gestores André Borba (São Salvador) e Clayton Paulo (Nazaré), além de parlamentares como Luciano Oliveira e Moisemar Marinho — demonstra uma reorganização das forças locais.
Somam-se a esse movimento duas adesões estratégicas do ponto de vista de transferência de votos e representatividade:
• Eli Borges: Com um desempenho expressivo de mais de 271 mil votos na disputa ao Senado, sua aliança agrega tração junto a segmentos expressivos do eleitorado conservador e religioso.
• Clã Dimas (Ronaldo Dimas e Tiago Dimas): A chegada do grupo consolida palanque e descoberta em Araguaína e no Bico do Papagaio/Norte do estado, região crucial para a formação de maiorias no Tocantins.
Essa abordagem após a aposta de que a liderança comunitária e municipal é o segundo vetor principal de mobilização eleitoral no turno.
A Estratégia de Professora Dorinha: Identidade Ideológica e Prestígio Nacional
Por sua vez, a senadora Professora Dorinha, que manteve a liderança no primeiro turno, adota uma linha de ação focada na seleção do eleitorado por seleção ideológica. Sua campanha tem buscado intensificar o respaldo de lideranças proeminentes do bolsonarismo e da política nacional.
A presença e a chancela de nomes de alcance nacional visam fortalecer a imagem da candidatura junto ao eleitorado alinhada às pautas conservadoras e de direita. A aposta estratégica de Dorinha fundamenta-se em:
• Nacionalização do debate: Conectar as demandas estaduais a diretrizes e pautas em evidências no cenário federal.
• Mobilização espontânea: Engajar fatias do eleitorado que responderam prioritariamente a alinhamentos ideológicos e partidários de grande visibilidade, independentemente da mediação de lideranças locais.
O Dilema do Eleitor Tocantinense
A encruzilhada posta diante do eleitorado tocantinense sintetiza uma provocação central sobre a dinâmica eleitoral contemporânea:
Qual força exercerá maior peso no resultado final? A capacidade de mobilização direta de prefeitos e vereadores, que operam na linha de frente das demandas municipais, ou o poder de persuasão de alianças nacionais que conectam o estado às grandes disputas ideológicas do país?
Com uma diferença de menos de dois pontos percentuais apurada no primeiro turno, a definição do próximo governador ou governadora do Tocantins dependerá da capacidade de cada campanha em converter suas respetivas alianças em presença real nas urnas. O segundo turno não apenas definirá o comando do Palácio Araguaia, mas também servirá como um divisor de águas sobre o peso do municipalismo versus a influência nacional na política tocantinense.
“É, pois é. É isso aí”. (SWR)



