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InícioArtigo de OpiniãoTraíras e Trairagens: Espécies e espécimes

Traíras e Trairagens: Espécies e espécimes

Trairagem é puramente a técnica usada pelas traíras de aparentar-se de mortas para pegarem suas presas, ou de alguém que abandona a canoa de antigos parceiros para se juntar a antigos rivais de olho no poção dos peixes graúdos, conforme explica o Pai dos Burros.

No sentido de agora, no prumo estão as eleições. Na passarela, a gente vê cardumes inteiros de políticos(as) abandonando antigos companheiros, rumando e remando para juntar e misturar as cores partidárias. Procuram nuanças de coloração de acessos ao poder, e a razão alegada é a governabilidade ou a defesa da democracia.

Mas acolá atrás, o Rei Salomão Wenceslau já dizia: para negociar seis por meia dúzia, vale a pena tirar a prova ‘dos nove fora’ e não confundir a traíra dos rios com a traíra da política: “A primeira, morde para sobreviver bem; a segunda, vive bem mordendo”. E na política não existem adversários, existem inimigos.

Mas, como muitos sabem — e outros fazem de conta que não sabem, lá pra banda da Praça dos Três Poderes — diga-se Vaticano Brasileiro, a afabilidade do Cefalópode, com seus nove cérebros e tentáculos pensantes e carinhosos, franquia soberania à alguns peixes bajuladores graúdos, adota o princípio de favorecer proporcionalmente a fidelidade e o tamanho das bancadas que garantem a governabilidade.

As traíras fieis nestas águas turvas, lamacentas, transformam-se em pescadores e mariscam fieiras e puçás de emendas e remendos que até ateu acredita. Tudo para pururucar Pirarucus nas suas cacimbas eleitorais e dar um adjutório aos jiquis de pobres peixes miúdos.

Em cantos e recantos do Brasil, estas verbas, conforme os “algorítmos da IA”, tomam nomes bem distintos: capivara, termo usado em planilhas de propina para designar grandes quantias de dinheiro vivo; acolá pro lado baiano é acarajé, código famoso usado para entregas de dinheiro em espécie; pixulé e/ou tico-tico viralizaram no diminutivo, viraram propininhas mensais de baixo valor. Porém, tudo tem em comum a geração espontânea, iguaizinhas à das traíras que saem do barro quando a chuva começa a deitar água no chão.

O culpado disso tudo é o Brasil, que dá conta da maior diversidade de peixes do mundo. Somente de traíras d’água, temos: a Traíra-Comum (Hoplias malabaricus), encontrada em todo o território brasileiro; a Traíra Intermediária (Hoplias intermedius), comum no Sudeste e Centro-Oeste; a Traíra-Cazumba (Hoplias cazumba), recentemente descoberta no Nordeste do Maranhão; e a Traíra Brasileira (Hoplias brasiliensis), encontrada no Sudeste do Brasil. Eita! E ainda têm os Trairões: o do Sul (Hoplias lacerdae), que pode ultrapassar um metro de comprimento e chegar aos 20 kg; e o da Amazônia (Hoplias aimará), que atinge impressionantes 1,5m e passa dos 30 kg, sendo considerado um dos peixes de água doce mais agressivos do mundo.

Não fazendo distinção de grandeza, em comum todas as espécies de traíras (e alguns espécimes de autoridades) são indivíduos de instinto treteiro e traiçoeiro. Têm cabeça descalvada de casco duro como a frente de um blindado de guerra; visivelmente cara feia parecida com um réptil pré-histórico misturado com feições de jacaré; boca grande com dentes cônicos afiadíssimos, salientes, longos e distribuídos não apenas nas mandíbulas, mas também no palato (céu da boca) para cortar suas presas; língua áspera igual a uma lixa; e ‘zóios’ salientes e potentes para visão, inclusive noturna, usados para guiá-las durante os ataques certeiros. Qualidades que ajudou a Traíra a não ser um peixe boa-praça.

Se as questões são as fumaças claras e democráticas, não tenha dúvida de que o conclave está sobre a divindade de Poseidon, reencarnado no Trairão, agindo de contínuo em atitude de instinto bondoso — que no fundo justifica: é predicado de intuição de soberania nacional e de projetar-se para o futuro infinito com seu Tridente — ele causa tempestades e terremotos como meio de aumentar seus domínios do outro lado do Vaticano, porque tem traíras e trairagens federal.

E assim, as traíras políticas, num apagão de visão estratégica, a maioria gastando suas energias com redes sociais, disputas partidárias e discussões ideológicas vazias. Tudo acompanhado por eleitores — alguns céticos, outros carnavalescos — assistindo por meio de sonar as traíras cometendo trairagem na frente umas das outras.

Enquanto isso, na linha do tempo deste apagão o mundo discute inteligência artificial, transição energética, cadeias de suprimentos de alta tecnologia que incluem totalmente as terras raras e o seu beneficiamento, mudanças climáticas, aquecimento global e nanotecnologia e muitas outras.  

Portanto, se você estiver nervoso com tudo isso e não nada em nenhum lago eleitoral e não está preso em jiqui algum, vá pescar! Traíras adoram umas minhocas bem gordinhas, garanta a matula ou a mistura do dia. A carne da Traíra é bastante apreciada por seu sabor marcante, e tem grande potencial para a piscicultura, principalmente à medida que os estudos se intensificam, revelando um peixe salubre, uma riqueza até então ignorada. A parte dela foi feita: preparar-se por milhões de anos para enfrentar as mudanças climáticas e o aquecimento global.

Porém, precisamos ter paciência com as traíras, assim como fora alcançado com os pirarucus, ensinando-as a comer rações extrusadas e a diminuir o canibalismo. Ou, quem sabe, promover usos alternativos como o controle biológico, utilizando-as nos açudes e represas — em especial nos reservatórios das UHEs do Tocantins para controlar o excesso de tilápias — e ainda na pesca esportiva, onde são supervalorizadas em lagos de “pesque e pague” devido à sua força e aos ataques rápidos nas iscas.

Se você gosta de pescar por esporte, taí: lute com um dos peixes mais briguentos, brutos e esportivos dos cardumes brasileiros, “a Traíra”. Mas coitado de você se não souber soltar uma Traíra de volta ao rio: vai, sem dúvida, acontecer uma trairagem, e um pedaço do seu dedo pode ir junto.

Inté pra nóis!

*Roberto Jorge Sahium, é Engenheiro Agrônomo, Extensionista Raiz, Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira, Membro da Academia Tocantinense do Agronegocio e Responsavel Técnico de um dos agroempreendimentos mais sustentável do Brasil,“Projeto Gamboa”.

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