*Por Roberto Jorge Sahium
Dizem nos livros que foi bandeirante que achou o ouro de Natividade, em 1734. Não
foi. Quem achou foi o pé de boi dos currais novos. E eu vou te contar como foi.
O capim chamou o boi
Antes de ter caminho, antes de ter papel, antes de ter São Paulo mandando em tudo,
aqui tinha capim. Capim nativo, capim do campo cerrado do Norte goiano, capim
mimoso, capim de vereda, que nascia sozinho quando a chuva caía. Onde tem capim,
tem boi. Boi não anda à toa. Boi vai atrás de pasto e água. E o boi do Nordeste sentiu o
cheiro desse capim lá de longe.
O boi trouxe o vaqueiro
O boi veio por instinto, devagar, entrou na Caatinga de Pernambuco, da Paraíba,
alcançou os gerais da Bahia, subindo pelos Currais Novos, beirando o Rio São
Francisco, era curral em cima de curral. Cada parada era um curral novo de vara, uma
aguada, um pouso. Daí rumou pro Sertão de Cerrado, comendo e andando, aqui e
acolá, assim chegou o boi no Norte goiano antes de 1737.
O vaqueiro
Gibão e chapéu de couro, de bota surrada, de faca na cintura, com a bruaca na garupa
e a moringa d’água. Homem que dormia no chão, comia carne de sol com farinha e
conhecia cada vereda, cada baixão, cada córrego. Ele não tinha pressa. Boi não tem
pressa. Ele ia tocando e tocando os arribados, adentrando sertão afora descobrindo o
Jalapão, região de Natividade (Dianópolis, Almas, Chapada da Natividade, Conceição e
outras).
O boi pisou no ouro
O gado pisoteou o arribando o cascalho d´água, depois clareou e o vaqueiro sempre
atrás do boi, viu lá no fundo, no eluvião, umas pedrinhas amarelas brilhando. Era ouro.
Ele não era garimpeiro, era vaqueiro. Mas vaqueiro sabe olhar pro chão. Pegou na
mão, mordeu, pesou no olho. Era ouro mesmo, ouro de aluvião, ouro de bateia. Ele
não contou pra São Paulo.
O vaqueiro levou a notícia
Logo Pernambuco, Paraíba e Bahia, pra quem era da terra dos vaqueiros ficaram
sabendo e de boca em boca, de curral em curral, de feira em feira onde boi era
vendido, a notícia se alastrou igual fogo na Serra: “tem ouro no sertão e no meio do capim”
A prova é o caminho do ouro
Quer saber quem achou mesmo? Olha pra onde o ouro ia. O ouro do Sertão do
Cerrado não ia pra São Paulo. Ia em caravana, em tropa de mais de 100 burros, com
bruaca cheia de arroba de ouro, descendo picada, atravessando serra, pra Salvador, na
Bahia. No caminho do gado e do vaqueiro não tinha bandeirante.
Se fosse bandeirante que tinha achado, o ouro tinha que ir pra São Paulo. Foi pra
Salvador porque quem achou veio do Nordeste.
Bandeirante não tinha como vir. Não tinha curral, não tinha capim, não tinha caminho,
não tinha nada. São Paulo naquela época não passava de um povoado isolado, com
pouco mais de mil habitantes, povo pobre, andando descalço no barro.
Chegou o Bandeirante
Invenção de paulista, na realidade não passavam de capitães do mato. Caçadores de
índio pra vender como escravo, caçadores de negro fugido, destruidores de quilombo.
Homem que recebia por gente capturada. Depois, os barões do café de São Paulo, já
ricos, quiseram um passado bonito. Aí pegaram esses capitães do mato e os
transformaram em heróis de estátua, de bota e capa, em cima de cavalo. Botaram
nome deles em estrada, em palácio, em tudo. Mas estátua não acha ouro. Quem acha
ouro é quem tá no chão. O bandeirante só chegou depois, com papel da Coroa,
registrou a mina que o vaqueiro já tinha achado, e levou o crédito.
Depois que o vaqueiro achou o ouro no eluvião
Veio o português atrás. E não veio sozinho. Trouxe com ele mais de 40 mil negros,
entre português e escravo, pra arrancar o ouro no braço. A maioria era de Angola e
Gongo. Angola é Ambundo, de Luanda e Benguela.
Gongo é Congo, de Cabinda. O povo fala Gongo, mas é Congo. Os dois são parentes, os
dois são bantos. Mesma língua-mãe, mesmo tambor, mesmo jeito de rezar. Eles
vinham pelo mesmo caminho do ouro, só que ao contrário. O ouro descia em bruaca
pra Salvador, o negro subia de Salvador pra Natividade, em comboio, que nem boi
tocado.
Chegava aqui
Era pé na água fria o dia inteiro, dobrado na bateia, lavando cascalho cinza, faiscando
ouro no sol. Não aguentava mais de 10 anos de mina. Quem não aguentou, fugiu pro
mato. Fugiu pra serra, pro vão, e virou Kalunga. Virou quilombo. Virou gente livre no
meio do sertão. Por isso até hoje Natividade tem Congada, tem Rosário dos Pretos,
tem Kalunga. Quem levantou Natividade não foram os bandeirantes. Foram os pés-de-
boi que achou, e o braço de Angola e Gongo que cavou.
Onde nasceu tudo
1734 a 1751, em 20 anos, nasceu tudo junto:
Natividade – 1734 – São Luís, a mais antiga.
Arraias – 1734 – Chapada dos Negros, que já nasceu quilombo, negro fugido
garimpando antes do branco chegar.
Chapada – 1740 – Chapada da Natividade.
Conceição – 1741 – Conceição do Norte, hoje Conceição do Tocantins.
Almas – 1743 – São Miguel
Carmo – 1746 – Monte do Carmo
Porto – 1751 – Porto Real, hoje Porto Nacional
Duro – 1751 – São José do Duro, hoje Dianópolis.
São Félix, Cavalcante, Paranã, tudo no mesmo corre. Um arraial acabava o cascalho, o povo mudava com trouxa nas costas pro outro. Era que nem formiga mudando de casa.
Capitão do mato e não bandeirante
A cavalo, com cachorro, com facão, com laço, patente da Câmara, um papel que dava
licença pra entrar em qualquer casa, qualquer senzala, qualquer taverna atrás de
fugitivo. Ganhava por cabeça. 12 oitavas de ouro se pegassem perto (43,03 g/R$
29.200, 24 se pegasse longe (86,06 g/R$ 58.500), 40 se pegasse lá no Rio São Francisco
(143,43 g/R$ 97.500).
Era caçador de recompensa. Quase sempre era negro forro, mulato, mameluco.
Branco não conhecia o mato, não sabia o rastro. Negro conhecia.
Negro forro é o negro que já não é escravo, mas ainda não é livre igual branco.
Gado curraleiro
Os Currais Novos ficaram. O gado ficou. O gado se acostumou com o cerrado, com a
seca, com o capim duro, e virou gado curraleiro, pé-duro, gado que aguenta tudo.
E o vaqueiro ficou junto. Virou curraleiro também. Homem do curral, homem do
campo, que até hoje tá aí, criando gado curraleiro lá pras bandas de São Felix do
Tocantins, Lizarda, Centenário e outros no Jalapão.
Inté pra nóis.
*Roberto Jorge Sahium, é Engenheiro Agrônomo, Extensionista Raiz, Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira, Membro da Academia Tocantinense do Agronegocio e Responsavel Técnico de um dos agroempreendimentos mais sustentável do Brasil,“Projeto Gamboa”.



