Aos 17 anos, Marina (nome fictício) já faz planos para financiar a própria casa. Ela trabalha na área financeira e sonha em cursar Medicina, mais especificamente, Neuropediatria. Nas horas vagas, lê livros sobre histórias reais da medicina e se inspira em Ben Carson, o neurocirurgião retratado em Mãos Talentosas. “Eu quero cuidar de crianças. Quero ter minha família e dar para ela tudo aquilo que eu nunca tive. Quero dar amor”, diz.
Marina também sabe o que é fazer as malas sem entender direito para onde está indo. “Do nada você sai da sua família e vem para um lugar onde não conhece ninguém.” Depois de passar por alguns abrigos, ela chegou ao Sementinhas de Amor, em Palmas, há quatro anos, junto do irmão mais velho. Desde então, aprendeu a sobreviver entre a espera da maioridade e a da adoção.
Daqui a três meses, Marina completa 18 anos. Legalmente, ela deixará de integrar a lista de adolescentes aptos à adoção. Ainda assim, mantém uma lucidez rara para alguém que cresceu cercada por rupturas.
“Eu sonho, sim, em ter uma família. Mas também aprendi que minha vida não pode parar esperando apenas isso acontecer.”
Além de maturidade, a fala de Marina revela uma espécie de proteção emocional aprendida cedo demais.
Enquanto algumas crianças aguardam brinquedos ou festas de aniversário, adolescentes acolhidos aprendem a administrar expectativas, e a suportar o silêncio depois que uma possível adoção não acontece. Neste Dia Nacional da Adoção, celebrado nesta segunda-feira (25/5), o Tribunal de Justiça do Tocantins traz à tona a realidade da adoção tardia e o desafio enfrentado por adolescentes que seguem esperando por uma família e pela oportunidade de pertencer.
O desejo de ser amado junto com o irmão
Assim como Marina, Gabriel (nome fictício), 13 anos, também vive essa realidade. Ele gosta de futebol e de animais, e fala sobre o futuro com a mesma rapidez de quem troca de sonhos sem abandonar nenhum. “Quero ser jogador de futebol… ou veterinário…”, enumera. Ele vive no abrigo desde os nove anos, ao lado do irmão caçula Rafael, de 6 anos, diagnosticado com autismo.
Os dois querem permanecer juntos. Condição inegociável.
“Eu e meu irmão queremos muito ser adotados pela mesma família. É o nosso sonho.”
Gabriel já viu duas possibilidades de adoção não avançarem e guarda desejos simples: ter uma família “boa, gentil” e alguém disposto a cuidar dele e do irmão “de verdade”.
“O que eu mais queria dizer é que eu mereço uma nova chance. A gente só quer crescer junto, sendo amado.”
Em busca por lares para adolescentes acolhidos no Tocantins
Como acontece com Marina e Gabriel, a fila existe, mas o encontro, nem sempre. O paradoxo da adoção no Brasil cabe em duas filas que raramente se encontram. De um lado, milhares de pretendentes habilitados a adotar. Do outro, adolescentes, grupos de irmãos e crianças com deficiência que continuam esperando.
No Tocantins, atualmente, 134 crianças e adolescentes vivem em acolhimento institucional ou familiar. Desses, apenas 13 estão aptos à adoção. Do total, 12 têm entre 13 e 17 anos. Apenas uma criança tem seis anos. Entre eles, seis possuem algum tipo de deficiência.
O juiz da Vara da Infância e Juventude de Palmas, Adriano Gomes de Melo Oliveira, que coordena a Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Tocantins (CIJ/TJTO), conhece de perto essa distância entre o desejo idealizado e a realidade.


