*Por Roberto Jorge Sahium

Acolá em Igarapé-Miri e Cametá o Mapará acomoda a maior pesca de peixes de água-doce do Brasil. O Evento atrai centenas de pescadores e seus barcos em procissões. É o festejo da matula financeira e alimentar para mais de 55 comunidades ribeirinhas envolvidas diretamente. Esta tradição ultrapassa um século e passada de pai para os filhos.
A história do Mapará na Amazônia, especialmente na região do Baixo Tocantins, é um relato brilhante de tradição, sustento e resistência cultural.
Os povos amazônicos juntaram: Ma (ou mba’é), que significa “coisa” ou “algo”; e Pará, para os indígenas é”rio grande” ou “água grande”. Assim coisa do rio grande” traduz-se literalmente de Mapurá, que depois virou Mapará e dependendo da região são apelidados de Mandubi, Mapurá, Cangatá e Mapará-de-Cametá.
Abrindo aqui um estreito, só para ativar a cobiça e inveja dos povos de fora, principalmente dos estranjas, na bacia Araguaia-Tocantins e Amazônica, existem pelo menos 2.716 espécies formalmente contadas. Somente de peixes Maparás são 3 espécies descritas.
As descrições dos Maparás da Amazônia Legal foram realizadas oficialmente em 1.840 pelo Naturalista francês, Achille Valenciennes. Está tudo registrado no Volume 15 de Histoire Naturelle des Poissons (História Natural dos Peixes), no capítulo sobre os “Siluroïdes”.
Nos perfis, os Maparás, receberam nos seus RGs nomes científicos, conforme distinções mostradas por cada espécie, assim sendo:
- Hypophthalmus edentatus, tem este nome e sobrenomepor serem banguelos de nascença, conhecido como mapará-barriga-mole, encontrado na Bacia Amazônica e na Bacia do Prata.
- Hypophthalmus fimbriatus, estes peixes vivem geralmente nas águas pretas, como as do Rio Negro, por isso recebe nome e sobrenome por possuírem rastros branquiais longos e numerosos (são estruturas ósseas ou cartilaginosas que parecem pequenos “dentes” ou “pente”, localizados na parte interna dos arcos das brânquias dos peixes), que parecem “franjas”, para filtrar o plâncton das águas escuras de muita matéria orgânica.
- O Hypophthalmus. marginatus, diferencia um pouco de seus “primos” por possuir uma coloração mais escura nas bordas das nadadeiras caudal e anal (daí o nome marginatus), é espécie predominante nos Sistemas Hidrográficos do Rio Amazonas e do Rio Araguaia-Tocantins.
Como características físicas, são bagres de esqueleto ósseo bem desenvolvido (teleósteo), caracterizado por ser dono de um corpo nu sem escamas podendo chegar a 70 cm, com aerodinâmica elevada sobre a proximidade da base dorsal, peso entre 1 e 3 kg, com registros máximos de até 5 kg, possui coloração prateada com o dorso azulado ou acinzentado e ventre esbranquiçado. Seus olhos são voltados para baixo (daí o nome Hypophthalmus) e ele possui longos barbilhões.
É um peixe planctófago (filtrador). Ele nada com a boca aberta, usando suas brânquias como uma peneira para filtrar zooplâncton, microcrustáceos e larvas e dificilmente pega presa. Espécie migradora que se desloca em grandes cardumes.
O Mapurá marginatus chega ao Alto, Médio e Alto Tocantins, sem muito status por eras e eras, já que raramente é pescado com anzol por causa de um conjunto de características específicas bem definidas, como a boca pequena, sem o hábito de morder algo sólido como uma isca no anzol, movimenta em grandes cardumes, captura tradicional acaba sendo mais eficiente com redes, como malhadeiras ou arrastões, em vez de pesca individual com anzol.
O Mapará para perpetuação da sua espécie realiza piracema no período de cheia, fazendo um movimento gigantesca, barulhenta no sentido acústico tradicional, marcado por um fenômeno visual e dinâmico muito intenso nos rios da Amazônia. Sobem para buscar nos trechos superiores águas mansas e rasas dos tributários, para realizar acasalamento e desova, essencial para garantir que os gametas se encontrem na correnteza.
A presença de grandes hidrelétricas, como as UHEs de Tucuruí, Estreito, Lajeado, Peixe e São Salvador impactou significativamente as rotas migratórias originais, fragmentando as populações entre o baixo, médio e alto curso do rio.
Povos como os Karajá e Javaé utilizam flechas com pontas tipo serra, ideais para fixar a carne macia do mapará, já os indígenas Apinajé, localizados no “Bico do Papagaio”, Xerente, na região central do estado e Krahô, hoje fixados na região de Itacajá/Goiatins usavam Timbó e/ou Tinqui para obtenção dos seus pescados.
Como é sabido os povos xerentes foram por longo período de tempo moradores ao longo do Rio Novo no Jalapão, e usaram tanto Timbó e Tinqui nas suas pescarias que acabaram com os peixes acima da Cachoeira da Velha.
No Tocantins, a espécie mais comum e representativa de “timbó” é o Tingui-do-Cerrado, frequentemente identificado como Magonia pubescens ou espécies do gênero Serjania, de forma que o uso destas plantas ou cipós batidos na água, liberando substâncias (Rotedona), é uma técnica de “entorpecimento” que reduzem o oxigênio local, fazendo com que os peixes flutuem, facilitando a coleta manual ou com cestos.
Com a intenção de dar cumprimento ao desígnio da Natureza, Mapará migrou rio arriba, precisou nadar contra a correnteza, pedreiras curvas de rios com todo tipo de tranqueiras, não por ser subjugado, veio por livre iniciativa própria, não carecia de coisa nenhuma, vivia próximo do mar, adonde o ecossistema lhe proporcionava vida boa por meio de um ajuntado de coisa que só Deus explica. Maré que sobe e desce no tempo certo, um mundaréu de rio se encontrando, cheio de furo, ilha e várzea; águas paradas mansas que só, carregada de sustança para sua espécie.
Mas Mapará de caráter nobre, no seu proposito faltava algo, tinha que promover além da reprodução e criação da sua espécie, tinha no seu instinto levar segurança alimentar e garantia nutritiva, bem como, ajudar gerar emprego e renda aos povos do Médio e Alto Tocantins sem prejudicar a natureza, ocupando uma faixa d´ água que pode ser seu próprio berçário dentro do ambiente lênticos (lago) da hidrelétrica, tudo isso com menor custo ambiental em comparação a peixes carnívoros.
Dados da Colônia de Pescadores Z-10 (Palmas-TO) coloca este peixe na pauta em primeiro lugar na lista dos peixes mais pescados no Lago do Lajeado, com pressão de pesca considerado crescente. Davi, o presidente da Z-10 confessou a mim, que o estoque desde peixe tem diminuído sensivelmente, devido a escada de peixe da UEHs não está funcionando, o que necessita de uma intervenção urgente neste sistema ou política pública de reposição dos estoques de peixes, medida tem que ser rápida, para ter gabarito de atender a pesca artesanal, um setor prejudicado bem como também a piscicultura.
Inté pra nóis.
*Roberto Jorge Sahium, é Engenheiro Agrônomo, Extensionista Raiz, Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira, Membro da Academia Tocantinense do Agronegocio e Responsavel Técnico de um dos agroempreendimentos mais sustentável do Brasil,“Projeto Gamboa”.

