*Por Paulo Palmares
“Mulher, estatisticamente, vota muito mal”.
A frase foi dita por Paulo Figueiredo, jornalista e neto do último presidente do regime militar brasileiro, general João Baptista Figueiredo. Durante participação em um podcast, ele afirmou que mulheres, especialmente as solteiras, votam mal e que as casadas tendem a acompanhar o voto do marido. A declaração provocou indignação por seu caráter generalizante e pela visão reducionista sobre a autonomia política feminina.
Em pleno século XXI, é difícil compreender que um comunicador ainda recorra a esse tipo de argumento para explicar escolhas eleitorais. Mais surpreendente, porém, foi a tímida reação pública diante da fala, sobretudo considerando que as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Entre as poucas manifestações de repercussão, chamou atenção um vídeo publicado pela advogada Hevelin Agostinelli em seu perfil no Instagram. Curiosamente, ela inicia sua reflexão com uma frase provocativa:
“Eu simplesmente não suporto ter que concordar com a bolsonarista. É doloroso, mas, quando dizem que mulher não sabe votar, eu sou obrigada a respirar fundo e, com o maior aperto no peito, concordar”.
A princípio, a declaração parece confirmar a tese de Paulo Figueiredo. Entretanto, sua análise segue um caminho completamente diferente. Para ela, o problema não está na capacidade intelectual ou política das mulheres, mas na falta de amor-próprio de uma parcela delas, que acaba apoiando líderes cujos discursos frequentemente atacam direitos e a dignidade feminina.
Como exemplo, Hevelin menciona o próprio Paulo Figueiredo. Em sua avaliação, caso ele disputasse até mesmo uma eleição para síndico de condomínio, haveria mulheres dispostas a votar nele, apesar de suas declarações ofensivas. Para a advogada, essa aparente contradição revela um fenômeno mais profundo do que uma simples escolha política.
Ela também recorda que Jair Bolsonaro não chegou à Presidência apenas com votos masculinos. Durante sua trajetória política, contou com significativo apoio de mulheres, mesmo após declarações amplamente criticadas. Entre elas, a afirmação de que ter uma filha após quatro filhos homens teria sido uma “fraquejada” e o episódio em que disse a uma deputada que não a estupraria porque ela “não merecia”. Frases que geraram intenso debate público por associarem violência sexual a uma lógica de recompensa ou mimo.
Hevelin lembra ainda declarações envolvendo a população negra e a comunidade LGBTQIA+, afirmando que, apesar desse histórico, muitos desses grupos continuam apoiando figuras políticas que, em diversos momentos, fizeram comentários considerados ofensivos ou discriminatórios.
A partir dessa constatação, a advogada apresenta sua principal reflexão. Para ela, essas mulheres não são necessariamente más pessoas nem agem movidas pelo ódio. O que existe é um problema de autoestima.
Segundo suas palavras: “Quando alguém se identifica, idolatra ou deita na cama com alguém que representa sua própria destruição, isso não é mau-caratismo. É um pedido de4 socorro. É sinal de uma autoestima que não está apenas abalada; ela está soterrada”.
Independentemente da concordância com essa interpretação, a reflexão convida o espectador a olhar para além das disputas partidárias. O foco deixa de ser apenas a política e passa a ser a forma como cada indivíduo reconhece — ou deixa de reconhecer — a própria dignidade.
Outro trecho marcante do vídeo talvez sintetize sua principal mensagem:
“Para votar em alguém, o critério número um não deveria ser economia, segurança ou partido. Deveria ser humanidade”.
É uma afirmação forte e, naturalmente, passível de debate. Afinal, diferentes eleitores atribuem pesos distintos aos critérios que orientam seu voto. Ainda assim, a autora da postagem propõe que nenhuma agenda política deveria se sobrepor ao respeito pela condição humana.
Ela encerra sua reflexão dirigindo-se diretamente às mulheres:
“Mulher, ame-se! No dia em que você se amar de verdade, com toda a profundidade que você merece, ninguém vai precisar te ensinar a votar. Você não vai conseguir apertar o botão que liga sua própria guilhotina”.
A metáfora é poderosa. Sugere que determinadas escolhas eleitorais podem representar um voto contra os próprios interesses e direitos. Mais do que uma crítica a este ou àquele candidato, trata-se de um chamado ao autoconhecimento e à valorização pessoal.
O vídeo também desperta uma reflexão que ultrapassa o universo feminino. Se o voto é um dos principais instrumentos da democracia, por que tantas instituições representativas acabam ocupadas por políticos envolvidos em escândalos, corrupção, exploração da fé ou práticas incompatíveis com o interesse público?
Em uma democracia, o povo escolhe seus representantes. No entanto, nem sempre esses representantes refletem a realidade da maioria da população. A baixa presença de parlamentares oriundos das mesmas condições sociais da maior parte dos eleitores contribui para uma representação desigual de interesses e demandas. Em muitos casos, quem legisla está distante da experiência cotidiana daqueles que o elegeram.
Talvez o maior mérito da postagem de Hevelin Agostinelli não esteja em oferecer respostas definitivas, mas em provocar perguntas incômodas. Afinal, votar é um ato político, mas também pode revelar valores, prioridades, crenças e até a maneira como cada pessoa enxerga a si mesma.
No fim das contas, independentemente da posição ideológica de cada eleitor, a provocação permanece atual: antes de escolher um candidato, talvez seja necessário perguntar que tipo de sociedade se deseja construir e quais princípios não podem ser negociados.
*Paulo Palmares é Bacharel em Direito e Editor do Portal Voz do Bico

