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Presença de água contaminada e falhas de estrutura em escola rural de Miracema do Tocantins mobilizam vistoria do MPTO

Inspeção na Escola Municipal de Campo Boanerges Moreira de Paula apurou qualidade da água, problemas de climatização, falta de insumos e desafios do ensino multisseriado

Água contaminada sendo utilizada no preparo da alimentação escolar, crianças carregando baldes para conseguir usar os banheiros e salas de aula com calor intenso. Essas foram algumas das situações encontradas pelo Ministério Público do Tocantins (MPTO) durante vistoria realizada nesta quinta-feira, 24, na Escola Municipal de Campo Boanerges Moreira de Paula, localizada no Assentamento PA Brejinho, zona rural de Miracema do Tocantins.

A unidade atende 55 estudantes matriculados na zona rural.  A inspeção foi conduzida pela Promotora de Justiça Anelise Schlickmann Mariano e pelo Promotor de Justiça Rodrigo Souza.

A vistoria constatou que a água do poço utilizada no preparo das refeições dos alunos apresentou resultado insatisfatório em análise do Laboratório Central de Saúde Pública do Tocantins (Lacen). O laudo emitido em junho, apontou a presença de coliformes totais e da bactéria Escherichia coli que pode causar infecções intestinais e do trato urinário.

Embora o município forneça galões de água mineral para o consumo direto dos estudantes, a preparação dos alimentos na cozinha continua sendo realizada com a água da fonte contaminada.

Outro problema constatado foi a falta de água encanada nos banheiros. Segundo relatos colhidos durante a vistoria, os próprios estudantes precisam carregar baldes com água para utilizar os sanitários e lavar as mãos. 

“São situações graves envolvendo a falta de água e o calor excessivo, problemas conhecidos que prejudicam a atenção dos alunos, a segurança alimentar e a saúde de todas as crianças”, pontuou a Promotora de Justiça Anelise Schlickmann Mariano que destacou a necessidade de medidas imediatas do poder público. 

Para o Promotor de Justiça Rodrigo Souza, a inspeção presencial permite identificar situações que nem sempre aparecem de forma completa em documentos e relatórios.

“A nossa presença no ambiente escolar permite enxergar a realidade além dos relatórios e perceber que a escassez e a falta de qualidade da água na unidade de ensino sinalizam um problema estrutural que atinge toda a comunidade do assentamento”, afirmou.

Segundo o Promotor, a partir das situações identificadas na escola, o MPTO poderá avaliar medidas que contribuam também para enfrentar problemas que atingem as famílias que vivem na região.

Rotina e riscos estruturais

Uma aluna de 12 anos, estudante do 6º ano do ensino fundamental, relatou que a falta de água nos banheiros se arrasta desde o ano passado, descrevendo o transtorno diário. “É um desconforto muito grande porque a gente passa vergonha. A gente tem que pegar o balde com água para usar o banheiro”, afirmou a aluna. 

Ela relatou ainda que faltam lâmpadas e pincéis para quadro nas salas de aula, o que força os professores a ditar os conteúdos, gerando dúvidas na escrita e prejuízos nas avaliações. 

A estudante também falou do mau funcionamento da climatização. “O ar-condicionado tá muito ruim. Teve dia que a gente teve que ir ao banheiro pegar água para passar nas mãos e nos braços de tanto calor”, acrescentou.

Risco de explosão 

Na cozinha, os Promotores de Justiça identificaram ainda que o único forno em funcionamento fica abafado dentro do depósito de alimentos, gerando calor que coloca em risco a conservação dos insumos e representa perigo de acidentes por falta de exaustão de ar.

A fiscalização também verificou o transporte escolar rural, tema de procedimento administrativo instaurado pelo MPTO para apurar denúncias sobre a interrupção da rota que atende o Assentamento PA Brejinho.

Turmas multisseriadas 

Outro ponto analisado foi o funcionamento das turmas multisseriadas, formato em que alunos de diferentes séries estudam no mesmo espaço físico sob a orientação de um único professor. 

O MPTO busca verificar se o modelo está sendo executado com estrutura pedagógica adequada, com planejamento específico, material didático apropriado e capacitação continuada para os professores. 

O acompanhamento considera ainda a necessidade de garantir condições para que os estudantes desenvolvam adequadamente habilidades de leitura, escrita e matemática.  Atualmente, a escola conta com 14 servidores, sendo seis efetivos e sete contratados temporariamente.

Encaminhamentos

A fiscalização na área rural integra o projeto institucional “EducAÇÃO MP: Aprende + Miracema”, desenvolvido com o suporte técnico do Centro de Apoio Operacional às Promotorias da Infância, Juventude e Educação (Caopije). As inspeções dão continuidade às medidas discutidas em audiência pública realizada na comarca, que tratou das condições das escolas municipais.

A partir das irregularidades identificadas, o MPTO deverá expedir recomendações ao poder público, estabelecendo medidas e prazos para a solução dos problemas. Caso as providências não sejam adotadas, poderão ser tomadas medidas judiciais, incluindo o ajuizamento de Ação Civil Pública (ACP) para buscar o cumprimento das obrigações.

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