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Sabedoria dos provérbios

*Por Henrique Matthiesen

Como quase tudo o que atravessa gerações, os ditados populares sobrevivem porque carregam verdades que o tempo não conseguiu desmentir. São frases simples, muitas vezes repetidas sem reflexão, mas que encerram observações profundas sobre a natureza humana. Entre elas, poucas são tão atuais quanto estas: “Diga-me com quem tu andas e eu te direi quem tu és” e “Antes só do que mal acompanhado”.

A existência humana é uma das experiências mais complexas que existem. Ninguém vive isolado. Somos moldados pelas pessoas que admiramos, pelas conversas que cultivamos, pelos exemplos que escolhemos seguir e pelos ambientes que frequentamos.

Ainda que cada indivíduo possua liberdade para decidir seus próprios caminhos, é inegável que a convivência exerce uma influência poderosa sobre o caráter.

Por isso, o antigo provérbio que relaciona nossa identidade às nossas companhias permanece tão relevante. Ele não sugere que uma pessoa seja uma cópia daqueles que a cercam, mas lembra que valores, hábitos e comportamentos tendem a se fortalecer quando compartilhados. A honestidade floresce entre os honestos. A generosidade encontra espaço entre os generosos. Da mesma forma, a mentira, a corrupção, a falsidade e a deslealdade costumam prosperar quando são toleradas ou normalizadas.

A vida apresenta inúmeras oportunidades de convivência, mas nem toda companhia merece ser preservada. Há pessoas que acrescentam luz ao percurso e outras que transformam a caminhada em um constante exercício de desgaste moral. Conviver com indivíduos sem escrúpulos, desonestos ou movidos pela má-fé não é uma escolha sem consequências. Aos poucos, a repetição daquilo que é errado pode anestesiar a consciência. O que antes causava indignação passa a parecer comum. O que era exceção transforma-se em regra.

É nesse ponto que outro ensinamento popular revela toda a sua força: antes só do que mal acompanhado. Em uma época marcada pela busca incessante por aceitação, pertencimento e reconhecimento, a solidão costuma ser vista como fracasso. No entanto, existe uma dignidade silenciosa em saber permanecer sozinho quando a alternativa significa abrir mão dos próprios princípios.

A verdadeira pobreza humana não está na ausência de companhia, mas na presença de relações que corroem a integridade. Há amizades que custam a paz. Há alianças que exigem o abandono da consciência. Há grupos que cobram como preço da aceitação o silêncio diante do erro. Nenhuma dessas concessões vale a perda da própria identidade.

A sabedoria popular compreendeu algo que muitas vezes a sociedade moderna esquece: o caráter não é construído apenas pelas escolhas que fazemos, mas também pelas companhias que aceitamos. Cada pessoa que permitimos entrar em nossa vida deixa marcas, influencia decisões e participa, de alguma forma, da construção de quem nos tornamos.

Talvez por isso os antigos provérbios continuem atravessando séculos. Eles recordam que a liberdade de escolher com quem caminhar é também a responsabilidade de proteger aquilo que somos. Em um mundo onde tantas vozes disputam nossa atenção, permanece uma pergunta essencial: as pessoas que estão ao nosso redor elevam nossos valores ou os diminuem?

A resposta a essa pergunta pode revelar muito mais sobre nossa trajetória do que imaginamos. Afinal, algumas companhias nos aproximam da melhor versão de nós mesmos. Outras apenas nos afastam dela. E, em determinadas circunstâncias, a mais sábia das escolhas continua sendo aquela que o povo aprendeu há muito tempo: permanecer só até encontrar quem mereça caminhar ao nosso lado.

*Henrique Matthiesen é formado em Direito, pós-graduado em Sociologia

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