Cantando, romeiros fizeram o trajeto de quase 3km da entrada da cidade de Buriti até a paróquia da cidade
“Josimo é meu herói!”, palavras de Erismar Araújo, romeiro que conviveu com o Padre Josimo ainda em vida, uma convivência que marcou profundamente a trajetória de vida de muitas pessoas. A cada dois anos a Romaria acontece em lugares diferentes porque Josimo realizava missa em toda a região tocantina, antes mesmo dessa terra receber o nome Tocantins.
No último sábado, 9, a paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, de Buriti do Tocantins, onde Josimo celebrava a missa com gente simples, do campo, recebia pessoas de diferentes localidades. Ali, onde foi seu primeiro lugar de descanso depois de um assassinato brutal, romeiros e romeiras relembraram sua vida.
Mais de 100 pessoas reunidas e cada uma delas tinha algo para contar na Romaria, ainda que ensinamentos póstumos porque, como Josimo mesmo dizia: “se calarem as nossas vozes, as pedras falarão”. Estórias de quem viveu ao seu lado e foi ensinado por ele na luta pelo direito à dignidade silenciaram aqueles que ouviam. O silencio só era quebrado com as lágrimas de saudade, mas logo ganhavam aconchego com os cantos coletivos, assim como ele costumava fazer quando as reuniões encontravam o conflito.
Ele cantava, e cantando os romeiros fizeram o trajeto de quase 3km da entrada da cidade de Buriti até a paróquia da cidade, e até aqueles que na rua faziam a algazarra típica de um dia de sábado, desligaram seu som para a caravana passar, em respeito, com amor, como a vida desse mártir.
Senhoras e senhores que não tem a mesma força de outrora se ‘ajuntara’ nas portas das casas ou nos cruzamentos por onde passavam a Romaria, até que ela chegasse ao seu destino final: um palco montado na rua, logo em frente à pequena paróquia; muitos e muitas faziam pedidos, orações, desejos, agradecimentos e trocas. A prova da que a ternura se espalha e perdura.

A missa, então, passou a enfeitar o início da noite. Igreja cheia, cadeiras extras, até quem não tem o costume se ajoelhou. O sentimento de comunhão podia ser sentido ao longe, até mesmo fora da congregação. Para Dom Carlos Henrique Silva Oliveira, bispo da diocese de Tocantinópolis, “a compreensão de que Josimo foi um mártir na luta por terra, trabalho e pão é inegável”.
Depois do jantar, uma noite de festas e boas novas aconteceu na rua, onde o palco montado abriu as portas para poetas, cantores, artistas. A Junina Tradição, de Esperantina, trouxe uma apresentação com a trajetória do Padre, desde seu nascimento. Toda a gente parecia acompanhar, mesmo cansados, porque a vontade de ter Josimo entre eles, todos juntos novamente, era a mais ardente emoção de quem partilhava as últimas horas daquele dia.
“Nós viemos foi para cá, vamos amanhecer aqui”, ressaltou Maria Senhora, que mora em Esperantina. Ela aprendeu sobre organização social e sindical por causa de Josimo e se alegra em dizer que “o Bico do Papagaio só conseguiu direitos e dignidade depois de muita luta, e foi ele que começou tudo isso por aqui”.
A Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), inclusive, é semente dele, assim como tantas outras organizações sociais que foram germinadas pela força e engajamento de quem não espera mais, se junta e faz acontecer.

