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Cari

*Por Roberto Jorge Sahium

Parancistrus aurantiacus

Não confundir Gari com Cari, “o gari das águas”, que habita o fundo dos rios e é um peixe pertencente à família Loricariidae. Aqui na Bacia Hidrográfica do Araguaia- Tocantins, tem destaque para o Cari batizado de Parancistrus aurantiacus, o qual saboreei e apreciei.

A minha história com o Cari começa num tempo outrora. Ainda na Fazenda Butelo, estava eu à procura de um gado que, pelo que a mim contaram, estava num pasto lá pro lado do Furo de Pau, nas margens do Rio Javaés. Chegando ao local, vi que algumas reses adultas e umas novas tinham passado ali mesmo: cerca quebrada e travessia do rio.

Como ali ficava perto da casa do Mestre Tapuia, também atravessei o Rio Javaés com a água encostando na barrigueira da égua Estrelinha, animal manso, bão de vaqueirice, nativo da região da Ilha do Bananal, de extrema resistência à umidade, cascos duros e capaz de pastar com as narinas submersas.

De longe senti um cheiro bom vindo acolá do rancho do Mestre. Não é que tinha saído sem merenda para passar o dia capeando! Trazia amarrado na cabeça do arreio um embornal com uma vasilha cheia de farofa de carne de lata.

Logo na chegada, o rancheiro já tinha me visto de longe e, sem arrodeio, mandou que apeasse do animal. E logo foi dizendo:

— Chegou na hora, ‘Vaqueiro de Meia Tigela’ (assim eu era denominado pelo Véio). A Apoema (sua esposa) acabou de abaixar pro rabo do fogão uma panelada (caldeirada) de Cari que eu peguei ali no poço do Landi. Botei no borraio (borralho ou cinza quente), arranquei a casca inteirinha e ficou só o filé!

Sem medo de ser feliz, fiz uma pratada de Cari com farinha branca. Pensa num peixe bom! Carne densa, compacta e que não se desfaz facilmente durante o cozimento, sendo muito parecida com a consistência da cauda da lagosta. Quando o peixe é limpo corretamente (retirando o gosto de barro com limão ou vinagre), a carne fica branca, magra, com um sabor suave e absorve muito bem os temperos.

Barriga cheia, o sol quase a pino, fomos eu e o Véio fazer o quilo debaixo da sombra de um jatobazeiro monstro. E nisso o Mestre Tapuia sai dizendo:

— Agora vou te contar a verdadeira história deste peixe que acabamos de almoçar.

Retruquei:

— Hoje não dá, preciso encontrar o meu gado e levá-lo ainda durante o dia.

— Assossega, vaqueiro de meia tigela, seu gado tá ali, próximo da aguada do Ribeirão Diderô. Mas o que quero te contar é interessante, e você vai me escutar.

Conhecedor de historietas indígenas do Vale do Araguaia como ninguém, de sopapo foi dizendo que, no tempo em que os bichos falavam, o Acari era um dos peixes mais lindos dos rios. Ele não tinha essa carapaça escura; na verdade, possuía escamas brancas e tão brilhantes que era chamado de ‘peixe-prata’.

Mas sua vaidade e arrogância eram sem medida, pois passava o tempo todo se exibindo e debochando dos outros animais: ria do barro das arraias, dos bigodes dos bagres e da armadura dos tracajás. Cansados da humilhação, os animais foram reclamar com o deus Tupã e com a Mãe D’Água.

Como castigo por sua soberba, Tupã transformou o peixe: tirou seu brilho de prata, cobriu seu corpo com uma casca grossa e escura e lhe deu ‘longos bigodes’.

Sentindo uma vergonha profunda de sua nova aparência, o Acari passou a viver escondido no fundo dos rios, enfiado na lama e embaixo de pedras para que ninguém pudesse vê-lo.

O Cari também mudou de comportamento, entendeu bem a lição e passou a ser o Gari das Águas. Limpar a sujeira deixada por outros peixes tornou-se seu ofício e, de forma tecnológica, promove uma limpeza ecológica. Funciona como um verdadeiro aspirador de pó biológico, raspando as superfícies ricas em limos e algas, e até as cacas deixadas pelos peixes grandes.

Semelhanças aos nossos garis aqui em riba-da-terra, mesmo que um Cefalópode dono do ceveiro do Remanso veio a afirmar que a atividade se trata de uma “profissão muito pobre” que não dá orgulho ao trabalhador. Porém, trata-se de profissionais- chave para a limpeza urbana, responsáveis por varrer as sujeiras deixadas por peixões que acham que são donos de tudo e de todos.

Interessante é que, lá pras bandas do Remanso Grande, apelidado de Largão dos Três Poderes, camuflados entre naufrágios como a insegurança jurídica, o forte crescimento da dívida pública, juros elevados, impasse político nos gastos de governo, falências de estatais e inflação deflacionada pelos barnabés da República democrática brasileira, o navio Brasil cheio de ouro e outras embarcações afundadas. E o cefalópode e seu cardume de democráticos peixões não falam nada, e até escondem lixos nos conselhos.

Voltando ao Cari peixe, pode-se dizer que ele está pronto para enfrentar as mudanças climáticas e o aquecimento global. Projetado com um revestimento de placas ósseas extremamente duras e espinhos afiados (acúleos) nas nadadeiras para se defender de intrusos, sobrevive fora d’água por horas. Possui uma respiração acessória (feita pelo estômago) e, se o rio seca, ele consegue se enterrar na lama úmida dos barrancos e sobreviver até a volta das águas.

Uma estória histórica e cultural fascinante envolve o nome do peixe cari com a cidade do Rio de Janeiro. Quando os colonizadores chegaram à região onde hoje é o Rio de Janeiro, os indígenas locais (Tupi) chamavam o rio que abastecia a região de Cari-Oca. Na língua indígena, Cari era o nome desse peixe cascudo, e oca significa casa.

Portanto, carioca significa originalmente “A Casa do Peixe Cari”. Com o tempo, o termo passou a batizar o rio local e, eventualmente, Carioca virou o gentílico de quem nasce na cidade do Rio de Janeiro.

Inté pra nóis.

*Roberto Jorge Sahium, é Engenheiro Agrônomo, Extensionista Raiz, Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira, Membro da Academia Tocantinense do Agronegocio e Responsavel Técnico de um dos agroempreendimentos mais sustentável do Brasil,“Projeto Gamboa”.

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