Por Karoliny Santiago
05 de outubro pode ser um dia comum para muitos brasileiros, especialmente neste ano, quando as conversas estão voltadas para os resultados das eleições deste domingo. Mas, para quem é do Norte, ou melhor, para quem conhece a história do antigo norte goiano, a data carrega um significado que vai muito além de um aniversário.
É o dia em que lembramos a criação do Tocantins. Mas, para mim, é também o dia de lembrar a escolha de milhares de pessoas que nasceram ou escolheram esta terra para viver, trabalhar, criar suas famílias e, junto com tantas outras, escrever uma grande história.
Eu, por acaso, sou tocantinense raiz, nascida no coração do estado, na famosa Paraíso do Tocantins, no auge do ano de 1994.
Nasci em meio ao começo de tudo, poucos anos depois de uma luta que, antes da criação do Estado, já atravessava gerações. Uma luta de quem vivia aqui e conhecia de perto as dificuldades provocadas pelo abandono político, pela falta de assistência à saúde, pelas poucas oportunidades de emprego e por uma presença do poder público que, muitas vezes, parecia ser lembrada com mais intensidade apenas em períodos eleitorais.
Hoje, aos 32 anos, vivenciando praticamente toda a minha vida nesse Estado que amo, consigo perceber que a emancipação significou muito mais do que a criação de uma nova unidade da Federação.
Ela abriu espaço para que o Tocantins pudesse descobrir, desenvolver e ampliar aquilo que é.
E não estou falando apenas das belezas naturais que encantam quem chega de fora — embora elas sejam, sem dúvida, parte importante da nossa identidade. Estou falando também de tudo aquilo que foi construído por aqui ao longo dessas quase quatro décadas.
Fortalecemos a educação. Ampliamos a economia. Criamos oportunidades. Estruturamos o serviço público. Desenvolvemos cidades. E transformamos setores que hoje colocam o Tocantins em destaque no cenário nacional.
Um desses exemplos está no campo. A cada safra, o agronegócio ganha força e a produção de grãos coloca o Tocantins em uma posição cada vez mais estratégica. Os números mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento mostram a dimensão desse crescimento: a estimativa para a safra 2025/26 é de 361,7 milhões de toneladas de grãos em todo o Brasil, com soja, milho, algodão e sorgo entre os produtos que registram recordes nacionais.
Mas, quando falamos de agronegócio no Tocantins, não estamos falando apenas de números. Estamos falando de produtores, trabalhadores, máquinas, caminhões, armazéns, comércio e serviços. Estamos falando de municípios que têm sua economia diretamente movimentada pela produção e de um Estado que, pela sua localização, também se tornou importante corredor para o escoamento de riquezas. É o campo produzindo e uma cadeia inteira se movimentando.
E talvez seja justamente isso que melhor represente o Tocantins de hoje: um Estado que ainda está em construção, mas que já deixou de ser promessa para se tornar realidade em muitos setores.
Na educação, também é impossível não reconhecer o quanto o Tocantins mudou. A expansão das universidades, faculdades e institutos levou a formação profissional para diferentes regiões e abriu portas para uma geração que, muitas vezes, já não precisa sair daqui para buscar uma graduação. Eu mesma faço parte de uma geração que pôde acompanhar de perto esse crescimento e perceber como a educação passou a ocupar um espaço importante na transformação das nossas cidades. Ainda temos muito a avançar, principalmente quando falamos em qualidade, acesso e oportunidades iguais para todos, mas é preciso reconhecer que hoje temos uma estrutura educacional muito diferente daquela que existia quando o Estado ainda dava seus primeiros passos.
É claro que nem tudo são conquistas.
Na política, talvez esteja uma das maiores contradições dessa história. Um Estado que nasceu de uma luta por autonomia e por mais atenção às necessidades de quem vivia aqui ainda convive com uma política marcada, muitas vezes, pela inconsistência, pelas mudanças de alianças e por discursos que se transformam conforme o cenário. Em quase quatro décadas, nomes, grupos e projetos surgiram e desapareceram, enquanto algumas pautas permanecem esperando continuidade. E talvez esse seja um dos nossos maiores desafios: compreender que o desenvolvimento de um Estado não pode depender apenas de ciclos eleitorais, mas de projetos que tenham continuidade e sejam capazes de atravessar governos e interesses políticos.
Sim, ainda existem problemas que precisam ser enfrentados. Há desigualdades, dificuldades na saúde, gargalos na infraestrutura, desafios na educação e demandas que continuam esperando respostas. O desenvolvimento também não chegou da mesma forma a todos os cantos do Estado.
Mas reconhecer aquilo que ainda precisa ser feito não significa ignorar o que já foi construído.
São 38 anos.
Para alguns, pouco tempo. Para quem conhece a história daqui, tempo suficiente para perceber uma transformação que vai muito além de mapas e documentos.
O Tocantins ganhou uma capital, ganhou universidades, ganhou novas estradas, ganhou força no campo, ampliou seu comércio, desenvolveu sua economia e, principalmente, ganhou uma identidade.
Uma identidade que não nasceu pronta.
Foi sendo construída por quem chegou, por quem ficou, por quem plantou, ensinou, empreendeu, trabalhou e acreditou. E ainda acredita!
Eu faço parte de uma geração que nasceu depois da criação do Estado. Não vivi a luta pela emancipação, mas cresci ouvindo histórias de quem viveu. E talvez seja justamente por isso que hoje consiga compreender que ser tocantinense não é apenas ter nascido aqui.
É reconhecer o caminho que nos trouxe até aqui. É olhar para trás sem esquecer o que ainda falta.
É comemorar sem deixar de cobrar.
É entender que os 38 anos do Tocantins não contam apenas a história de um Estado que foi criado em 1988. Contam a história de milhares de pessoas que, desde então, passaram a construir suas próprias histórias dentro dele.
Karoliny Santiago é jornalista por formação e atua como assessora de comunicação. Nas horas vagas dedica um tempo pra escrever crônicas que trazem conforto a quem tanto precisa de um abraço.



