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InícioArtigo de OpiniãoO espelho da política: o povo reclama, mas quem escolhe é ele

O espelho da política: o povo reclama, mas quem escolhe é ele

*Por Luciano Moreira

A classe política não é um corpo estranho à sociedade: é o espelho dela. Enquanto o povo não assumir sua responsabilidade no processo eleitoral, continuará a reclamar de políticos que ele mesmo elegeu. A mudança começa no voto, mas não termina nele — exige vigilância, cobrança e participação contínua.

A política é, em qualquer país, reflexo direto da sociedade que a sustenta. Da Europa à América Latina, passando pela Ásia e pela África, vemos diferentes sistemas políticos, mas uma constante permanece: os políticos que ocupam cargos de poder foram escolhidos pelo povo — seja por voto consciente, voto de protesto, voto “vendido” ou pela simples ausência de participação.

Há uma frase amplamente atribuída a diversos autores, mas cuja origem exata é incerta, que sintetiza essa realidade: “O povo não tem razão em reclamar dos políticos, pois foram escolhidos pelo próprio povo”. Alguns estudiosos apontam que ideias semelhantes já apareciam em reflexões de pensadores como Joseph de Maistre, que dizia: “Cada nação tem o governo que merece”. Outros associam a frase a Alexis de Tocqueville, que analisou a democracia como reflexo dos costumes sociais. No entanto, não há registro definitivo de autoria única — trata-se de uma máxima que atravessa séculos e culturas, repetida e adaptada em diferentes contextos.

Painel global

•          Estados Unidos: A polarização política mostra como a sociedade está dividida, e os líderes eleitos refletem essa divisão.

•          França: Movimentos populares como os “coletes amarelos” revelam insatisfação, mas os representantes continuam sendo escolhidos pelo voto.

•          Brasil: A crítica à classe política é constante, mas todos os deputados, senadores, governadores e presidentes foram eleitos pelo povo. Reclamar sem assumir responsabilidade é incoerente.

Países onde políticos eleitos não recebem salário

Em várias partes do mundo, a política é encarada como dever cívico, não como profissão remunerada. Eis alguns exemplos:

–           Suécia:

*          Deputados nacionais recebem salários modestos e vivem em apartamentos funcionais pequenos.

*          Vereadores não recebem salário; recebem apenas cerca de US$ 30 por mês como ajuda de custo para telefonemas.

A lógica é clara: política é serviço público, não fonte de privilégios.

–           Suíça:

*          Em muitos cantões e municípios, cargos políticos são exercidos de forma voluntária, sem remuneração.

*          Os políticos continuam em suas profissões e atuam na política como representantes da comunidade.

–           Cidade do México (México):

*          Vereadores não recebem salário; o cargo é honorário.

Outros exemplos de cortes ou reduções (não ausência total de salário, mas medidas de austeridade):

*          Nova Zelândia, Uruguai, Equador, Paraguai, Chile e Argentina

Brasil

No Brasil, a insatisfação com a política é quase cultural. Reclama-se da corrupção, da falta de ética e da distância entre governantes e governados. Mas é preciso lembrar: cada mandato é fruto de uma escolha popular. Mesmo quando há compra de votos ou manipulação, há participação voluntária ou involuntária do eleitor.

Caminhos para a mudança

Se o povo deseja políticos corretos e comprometidos com o bem comum, precisa iniciar a transformação:

•          Educação política: Entender o papel de cada cargo e suas responsabilidades.

•          Voto consciente: Pesquisar candidatos, analisar propostas e histórico.

•          Participação ativa: Acompanhar mandatos, cobrar resultados, apoiar projetos coletivos.

•          Rejeição ao voto vendido: Recusar benefícios imediatos em troca de escolhas que prejudicam o futuro.

O Povo brasileiro no banco dos réus

É hora de inverter a lógica: não são apenas os políticos que devem ser julgados, mas também os eleitores. Afinal, como exigir honestidade de quem você mesmo elegeu sem se preocupar em investigar sua trajetória? Como cobrar ética se, na urna, você trocou seu voto por favores, promessas vazias ou simplesmente por preguiça de se informar?

O eleitor brasileiro — e aqui não há como suavizar — muitas vezes reclama da corrupção, mas aceita o “jeitinho” na vida cotidiana. Quer políticos sérios, mas não leva a sério seu próprio papel. Quer transparência, mas vota em quem distribui brindes ou promete vantagens pessoais. Quer renovação, mas reelege os mesmos nomes que critica no bar ou nas redes sociais.

Neste domingo, dê o exemplo, caro eleitor!

*Luciano Moreira é jornalista

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