*Por Henrique Matthiesen
As eleições de 2026 tendem a representar um dos momentos mais decisivos da vida nacional desde a redemocratização. Não estará em disputa apenas a sucessão presidencial ou a composição das forças partidárias. O que se confrontará diante do povo brasileiro serão dois projetos antagônicos de país. De um lado, a defesa da soberania nacional, da reindustrialização, da ciência, do desenvolvimento econômico e dos direitos sociais. Do outro, uma extrema direita marcada pelo entreguismo, pelo obscurantismo cultural e pela submissão política aos interesses estrangeiros.
Nesse debate histórico, torna-se indispensável revisitar a dimensão estadista de Getúlio Vargas. Vargas governou em um dos períodos mais turbulentos da história mundial. Viveu a crise de 1929, o avanço do fascismo europeu, a Segunda Guerra Mundial e a reorganização geopolítica do planeta. Em meio a um mundo em combustão, compreendeu que o Brasil jamais deixaria de ser uma nação periférica enquanto permanecesse dependente da exportação primária e subordinado economicamente às grandes potências.
Sua visão estratégica foi a de construir um projeto nacional de emancipação. Vargas entendeu antes de muitos que soberania política sem soberania econômica não passa de ilusão. Por isso investiu na industrialização pesada, fortaleceu o papel do Estado, criou empresas estratégicas e estruturou uma legislação trabalhista que integrasse milhões de brasileiros à vida econômica nacional. Seu projeto não era apenas econômico. Era civilizacional. Tratava-se de transformar um país agrário, desigual e dependente em uma nação moderna, industrializada e socialmente integrada.
A relação de Vargas com os Estados Unidos demonstra a dimensão de sua postura soberana. Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, o presidente Franklin Roosevelt veio ao Brasil para se encontrar com Getúlio Vargas em Natal. Não foi apenas um encontro diplomático. Foi o reconhecimento da importância estratégica do Brasil no cenário internacional. Vargas não se colocou como subordinado diante da maior potência do planeta. Atuou de espinha ereta, defendendo os interesses nacionais e utilizando o peso geopolítico brasileiro para conquistar avanços concretos para o desenvolvimento do país, como o financiamento da Companhia Siderúrgica Nacional, símbolo da industrialização brasileira.
Getúlio compreendia que nenhuma nação alcança independência real abrindo mão de sua capacidade produtiva, de seus recursos estratégicos e de sua soberania econômica. Ao lado de nomes como Oswaldo Aranha, transformou o Brasil em um relevante player diplomático internacional, respeitado porque possuía projeto nacional, liderança política e capacidade de negociação.
As eleições de 2026 recolocam exatamente essa questão histórica. O Brasil decidirá se deseja retomar um caminho de desenvolvimento soberano ou aprofundar uma lógica de dependência externa. Parte da extrema direita brasileira adota um patriotismo contraditório e hipócrita. Enquanto se apresenta como defensora da pátria, reverencia interesses estrangeiros, subordina-se ideologicamente aos Estados Unidos e trata a soberania nacional como obstáculo ao mercado internacional.
Essa postura manifesta-se na defesa das privatizações indiscriminadas, no enfraquecimento das empresas públicas estratégicas e na destruição dos instrumentos de planejamento do Estado. Sob o discurso da modernização, promove-se a desnacionalização da economia brasileira e a perda da capacidade de decisão sobre energia, infraestrutura, indústria e recursos naturais.
Ao mesmo tempo, esse campo político promove o obscurantismo científico e cultural. Ataca universidades, despreza a produção intelectual e transforma a ignorância em ferramenta política. Uma nação enfraquecida culturalmente torna-se mais vulnerável à dependência econômica e à submissão internacional.
Diante desse cenário, o grande desafio do campo progressista é apresentar ao povo brasileiro um novo projeto nacional de soberania, industrialização e esperança coletiva. Não basta apenas resistir ao atraso. É necessário reconstruir um horizonte de futuro capaz de mobilizar o país. O Brasil vive hoje uma profunda crise de desesperança. Milhões de brasileiros perderam a confiança na capacidade nacional de crescer, gerar empregos de qualidade e construir justiça social.
Por isso, revisitar Getúlio Vargas não significa olhar para o passado com saudosismo. Significa recuperar a ideia de que o Brasil pode voltar a sonhar grande. Vargas industrializou o país, fortaleceu o Estado nacional e criou nas massas populares a esperança de uma nação pulsante, soberana e socialmente integrada. Esse talvez seja o grande debate de 2026: decidir se o Brasil continuará aprisionado à dependência e ao desalento ou se voltará a construir um projeto nacional capaz de devolver rumo, dignidade e esperança ao povo brasileiro.
*Henrique Matthiesen é formado em Direito e pós-graduado em Sociologia

