*Por Roberto Jorge Sahium

Os sabichões da economia, bem acomodados nas cadeiras do poder, seguem repetindo o mesmo refrão: mercado aquecido, inflação sob controle e uma economia politicamente saudável, que atende a todas as classes sociais. No discurso, tudo vai bem, contudo existe uma diferença bem grande entre a inflação oficial (o índice médio do governo) e a inflação do dia a dia, que é a que a gente sente no carrinho do supermercado.
Usando o jargão técnico, estes economeses oficiais, não vêem que o custo de vida já foi parar longe, pra lá da conchinchina. Quase 30% da renda mensal está comprometida, e o endividamento das famílias brasileiras bateu recorde em fevereiro de 2026, alcançando 80,2%. Ainda assim, esse aperto todo não incômodo tanto quanto deveria, principalmente quando comparado às distorções que seguem firmes nas engrenagens do poder.
Reclamar virou quase afronta aos nobres da Praça dos Três Poderes: dizem que as queixas são infundadas, sem base legal e até antidemocráticas. Na prática, o cidadão é orientado a se virar como pode, mas sem reclamar, sem questionar e, de preferência, sem fazer barulho.
Enquanto isso, a cartilha oficial segue justificando o aperto: juros altos para conter a inflação, crédito salgado para segurar consumo e desacelerar a economia. Em troca, promete-se estabilidade, valorização da moeda e controle de preços. Uma receita conhecida, e que, no campo, já mostrou que nem sempre dá boa safra.
Na teoria, Selic alta atrai capital estrangeiro, fortalece o real e derruba o dólar. Na prática, no entanto, a alta dependência desse fluxo pode criar instabilidade, levando a uma rápida fuga de capital em momentos de incerteza fiscal ou política, o que inverte o processo e desvaloriza o real. Será?
Há também quem aponte o dedo para a desvalorização do real, alimentada por incertezas fiscais, diferença de juros internacionais e um cenário externo mais duro. Soma-se a isso o velho problema estrutural: o Brasil exporta matéria-prima e importa valor agregado, perpetuando uma dependência que limita o desenvolvimento.
Mas, entre tantas explicações, uma é conservada no vinagre: o peso da carga tributária. Não apenas pelo percentual em relação ao PIB, mas pelo impacto direto na vida de quem produz e de quem é trabalhador e consumidor que qualquer aumento de 10% no supermercado desequilibra as contas do mês.
O sistema tributário brasileiro é um confisco generalizado do dinheirinho do brasileiro, são impostos pra tudo e pra todos e todas (CBS, IBS, IS, PIS, Cofins, ISS, IPI, IRPF/IRPJ, CSLL, IOF, IPVA, IPTU, ITCMD e INSS), e as taxas, poder público inventa taxa até para taxas e cobranças diversas que vão da emissão de documentos ao funcionamento de empresas, neste quesito sem contar o alto custo dos serviços dos cartórios. Uma verdadeira curva de rio, tudo que é de tranqueira para aí para sufocar o contribuinte.
Na veracidade, esse balaio de despesas e custos pode consumir mais de 40% da renda do cidadão brasileiro, se é que podemos ser considerados cidadãos, ou escravizados pelo sistema. Exemplificando, de cada 10 mil ganhos, mais de 4 mil escorrem para os cofres públicos. E o retorno não acompanha o esforço de quem paga a conta.
Não é por acaso que, mesmo com arrecadação semelhante à de países desenvolvidos, o Brasil ainda carrega a fama de mau caráter e de péssimo gastador, como apontam estudos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Arrecada-se muito, entrega-se pouco, e a conta não fecha para quem está na ponta.
Trocando em miúdos, a política socioeconômica e ambiental brasileira, frequentemente arriada pelo governo central, segue montada nas costas do povo. Vai no trote, firme, cavaleando no lombo de quem trabalha, sem sela, sem alívio, no pelo bruto.
E enquanto isso, o país segue adiando o que realmente importa: uma agroindustrialização e industrialização séria, estratégica e competitiva. Não se trata de discutir se devemos industrializar, mas “como” e “para quem” essa industrialização será conduzida.
O Brasil é o maior produtor de commodities agrícolas do mundo, dono de riquezas que o planeta terra disputa. São minerais estratégicos que não acaba fácil, como terras- raras, nióbio, grafeno, urânio, ouro e tantos outros ativos ardilosos. Mas, sem planejamento e soberania econômica, o risco é repetir o velho roteiro: exportar bruto, importar caro e assistir de longe o valor ser agregado lá fora.
E é aqui que a conta aperta mais: de acordo com a conveniência de dar legitimidade a governos que flerta com a ideia de entregar essas riquezas a interesses externos, sejam eles chineses, norte-americanos ou russos, enquanto o país permanece dependente, e de boca aberta.
Antes de qualquer projeto grandioso, há entraves básicos a resolver: infraestrutura precária, logística cara, energia mal distribuída, burocracia excessiva, insegurança jurídica e mão de obra ainda distante das exigências da indústria 4.0. Sem enfrentar isso, qualquer discurso de desenvolvimento não passa de promessa solta ao vento.
No fim das contas, entre teoria e prática, entre discurso e realidade, sobra uma certeza antiga e bem conhecida no Brasil profundo: enquanto uns fazem conta, outros pagam a conta. E desde sempre, nós, os patos continuamos pagando a conta.
Inté pra nóis!
*Roberto Jorge Sahium, é Engenheiro Agrônomo, Extensionista Raiz, Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira, Membro da Academia Tocantinense do Agronegocio e Responsavel Técnico de um dos agroempreendimentos mais sustentável do Brasil,“Projeto Gamboa”.

