*Por Ricardo Abalem
O fim da janela partidária, no dia 3 de abril, traçará os primeiros contornos mais claros do cenário eleitoral no Tocantins e no Brasil. É importante lembrar que o instituto da verticalização não é mais obstáculo à coligação de partidos nos estados, desde que não tenham lançado candidato ao cargo de presidente da República. Porém, até que as composições partidárias sejam definidas em nível nacional, tudo pode acontecer e nos estados é preciso ter cautela para que projetos – até bem planejados – não sejam atropelados pelo princípio da coerência da verticalização.
Aguardar a dança das cadeiras no Congresso Nacional é prudente, assim como usar o limite da janela se torna imperativo. Afinal, como saber para onde ir, se ainda nem se sabe quem vai encontrar por lá? E acrescente-se a isso um ingrediente natural… “política é como nuvem, uma formação a cada olhar”.
A polarização de forças políticas entre a direita e a esquerda, tende a ficar para o 2º turno. O processo nacional caminha para consolidação de 4 ou 5 candidaturas mais expressivas.
Na esquerda, o PT não tem saída senão uma candidatura própria e com tendência a nascer e permanecer unificada, ao que tudo indica com a vice do MDB. Naturalmente com Lula encabeçando a chapa, até porque a esquerda do PT (ou o PT da esquerda) não construiu outro nome para se agarrar. O grupo lulista foi tão eficiente (ou ineficiente) que não permitiu florescer ou fortalecer outra liderança nacional na sigla. Alguns nomes de centro esquerda que surgiram em alguns estados, como o prefeito de Recife, João Campos (PSB), não vão aportar nesse barco e enfrentar essa onda de candidaturas.
Já a direita, até por questões de estratégia e tamanho, deve se fragmentar no 1º turno. Ao contrário da esquerda, a ala conservadora construiu vários nomes de expressão nacional além de Jair Bolsonaro. Tarcísio de Freitas foi o mais cogitado e aparece em todas as pesquisas, mesmo anunciando que vai à reeleição em São Paulo. Flavio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado ou Eduardo Leite (PSD) e Romeu Zema (Novo) são os principais pré-candidatos que se apresentam hoje e todos com musculatura para uma disputa presidencial. Outras candidaturas podem até surgir, mas em condições menos favoráveis devido a capilaridade partidária.
No Tocantins o rumo não parece diferente e a briga será também para chegar ao 2º turno. A esquerda terá candidatura sim, óbvio. Até para dar palanque ao Lula. Essa candidatura, ainda indefinida, pode ser de um petista tradicional no estado como Célio Moura e Paulo Mourão ou ter alguma surpresa até o dia 3 de abril. Esse possível grupo, que vai de Lula, pode até ganhar mais corpo com possíveis alianças de políticos experientes como a ex-senadora Katia Abreu, o senador Irajá e a ex-prefeita da capital Cinthia Ribeiro. Importante lembrar que o vice-governador Laurez Moreira (PSD) caminha ao lado da família Abreu. Conjecturas à parte, é preciso considerar também a posição do deputado federal Alexandre Guimarães (MDB), pré-candidato ao Senado. Qual palanque lhe seria mais interessante? Ao lado de Irajá Abreu (PSD) ou em concorrência interna com Eduardo Gomes (PL), Carlos Gaguim (UB) e um terceiro candidato do Republicanos prenunciado recentemente pelo governador Wanderlei? Deve se considerar ainda as pré-candidaturas solo ao Senado de Vanderlei Luxemburgo (Podemos) e Carlos Velozo (Agir), ambos partidos fora da disputa presidencial e que buscam o palanque mais atraente.
A direita no Tocantins deve também se dividir em 3 ou 4 candidaturas no 1º turno, restando saber quem permanecerá no jogo dia 25 de outubro.
Nas articulações iniciais a senadora Professora Dorinha (UB), candidata de centro direita, saiu na frente com o anúncio dos seus senadores Eduardo Gomes (PL) e Carlos Gaguim (UB), faltando somente a vice governadoria para completar a majoritária. É a pré-campanha mais sólida até o momento. A declaração de apoio do governador Wanderlei Barbosa (RP) essa semana era o que o grupo aguardava e ele tem toda condição de indicar o (a) vice.
Já o vice-governador Laurez Moreira (PSD) intensificou sua pré-campanha quando assumiu interinamente o governo, em setembro de 2025. Estava no PDT e migrou para o PSD. No PDT seria naturalmente um nome forte de centro-esquerda no Tocantins. No PSD se torna nome forte da direita, especialmente se Caiado for candidato à presidência. O palanque de um presidenciável como Ronaldo Caiado eleva o nível de qualquer candidatura estadual. Laurez contará com o apoio de Katia Abreu para costurar uma aliança que lhe permita receber também os bônus do Palácio do Planalto, mesmo que de forma discreta. Conjecturando… uma possível vaga de senador para Alexandre Guimarães (MDB) encurtaria esse caminho, assim como a indicação de vice para Cinthia Ribeiro (livre para se filiar em qualquer partido). Vale ressaltar que o grupo do vice-governador mantém esperanças de seu retorno ao Palácio Araguaia.
O deputado federal Vicentinho Junior (PSDB) entrou na disputa esse ano e vai cobrar o apoio dos bolsonaristas, com todo o direito. Afinal, foi o único parlamentar tocantinense a apoiar Bolsonaro em 2018 e 2022. Assumiu o PL, perdeu o PL. Assumiu o PP, perdeu o PP. Agora assume o PSDB para garantir sua candidatura. Está trabalhando bem nas filiações dos proporcionais, e isso faz diferença. Ainda não definiu senadores e seu vice, devendo usar até o último dia da janela para compor.
O presidente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Amélio Cayres (RP), até o início do ano era visto como possível vice de Dorinha. Anunciou recentemente sua candidatura ao governo, ganhou musculatura e tinha esperança de contar com apoio do governador Wanderlei. Essa semana Barbosa definiu apoiar Dorinha e disse que Amélio, no Republicanos, só tem vaga para disputar outros cargos. Para manter a candidatura ao governo só em outra sigla. Cayres é presidente da Assembleia Legislativa e de lá saíram alguns governadores. A força do legislativo estadual é incontestável, desde que o bloco tenha maioria, é claro. Amélio tem até o dia 3 de abril para definir um rumo nessa eleição e, ao contrário dos demais pré-candidatos, o tempo da janela não corre a seu favor.
O fim da janela partidária dará início a um novo ciclo de articulações e as negociações vão se intensificar. Partido definido não significa candidaturas postas. Isso só nas convenções que acontecem até 05 de agosto, ou melhor dizendo, até a oficialização dos pedidos de candidaturas no dia 15 de agosto. Até lá o céu permanecerá nublado.
*Ricardo Abalem é Jornalista e Consultor Político.

