Iniciativa busca valorizar a gastronomia tradicional e incentivar geração de renda para mulheres quilombolas por meio de capacitação culinária com produtos do Cerrado
A valorização da cultura quilombola e o fortalecimento do empreendedorismo feminino foram o foco da visita técnica realizada nesse domingo, 8, na Comunidade Quilombola Barra da Aroeira, em Santa Tereza do Tocantins. A ação integra o projeto Sabores e Saberes da Barra da Aroeira, que utiliza a gastronomia com ingredientes do bioma como estratégia de empoderamento e geração de renda para mulheres da comunidade.
Na data em que também se celebrou o Dia Internacional da Mulher, a visita técnica teve o objetivo de realizar reunião com lideranças comunitárias e mulheres quilombolas para apresentar a proposta das oficinas gastronômicas, ouvir a opinião das lideranças e comunidades e conhecer os ingredientes cultivados no território e identificar receitas tradicionais que poderão integrar o processo formativo. A atividade também permitiu um diálogo direto com as moradoras sobre empreendedorismo, autonomia financeira e valorização da identidade cultural quilombola.
A ação integra o conjunto de atividades do projeto “Sabores e Saberes da Barra da Aroeira”, que promove formação em gastronomia com foco no uso de ingredientes típicos do Cerrado e no resgate de receitas ancestrais transmitidas entre gerações. A iniciativa é desenvolvida pelo Instituto Brasil Sustentável, em parceria com as organizações A Barraca e Raízes Gastronômicas, reunindo profissionais da cultura, gastronomia e desenvolvimento social. O Projeto foi contemplado no “Edital Sementes da Ancestralidade: Fomento à Cultura Afro-Brasileira”.
Comunidade
A Comunidade Quilombola Barra da Aroeira abriga cerca de 150 famílias descendentes de africanos escravizados e possui um forte patrimônio cultural ligado aos saberes tradicionais, à culinária e à relação com o território. Apesar do reconhecimento oficial do território, conquistado após anos de luta, a comunidade ainda enfrenta desafios relacionados à vulnerabilidade social e à invisibilidade cultural. O projeto surge como uma ferramenta de valorização desses saberes e de estímulo ao desenvolvimento local por meio da economia criativa. A parceria do Instituto com a comunidade se iniciou ainda em 2015, com o desenvolvimento de outras iniciativas sociais em parceria.

Gastronomia como ferramenta de autonomia
A presidente do Instituto Brasil Sustentável, Lucivânia Brito, destacou que a escolha do mês de março para a realização das primeiras ações do projeto simboliza o compromisso da iniciativa com o fortalecimento das mulheres. “Realizar essa visita justamente no mês da mulher tem um significado muito especial. Nosso objetivo é valorizar o conhecimento que essas mulheres já possuem e transformar esses saberes em oportunidades concretas de geração de renda, fortalecendo a autoestima, a cultura e a autonomia da comunidade”, afirmou.
As atividades previstas incluem oficinas práticas de gastronomia sustentável, cozinha-show, encontros de empreendedorismo e educação financeira, além da produção de uma apostila de receitas tradicionais da comunidade e de um minidocumentário com os relatos das participantes.
A produtora executiva do projeto, Marinez Santana, explicou que a visita técnica foi essencial para alinhar as próximas etapas e fortalecer o diálogo com as participantes. “Esse primeiro contato é fundamental para que o projeto respeite e valorize a realidade da comunidade. Estamos ouvindo as mulheres, entendendo suas histórias e identificando as receitas que fazem parte da memória coletiva da Barra da Aroeira. A partir disso, vamos construir juntos o processo de formação”, afirmou. A expectativa é que cerca de 50 mulheres participem diretamente das atividades, que devem ocorrer ao longo das próximas semanas.
Sabores do Cerrado e ancestralidade
A chef de cozinha Ruth Almeida, responsável pelas oficinas gastronômicas e diretora-geral do projeto Raízes Gastronômicas, explica que a proposta valoriza ingredientes nativos e técnicas tradicionais. “A culinária do Cerrado é extremamente rica e carrega muita história. O que queremos fazer é unir o conhecimento ancestral dessas mulheres com técnicas gastronômicas que possam ajudar a transformar esses produtos em pratos atrativos e comercializáveis, sem perder a identidade cultural”, destacou a chef.
Entre os ingredientes que poderão ser utilizados nas oficinas estão frutos, raízes, sementes e ervas típicas do bioma, além de preparos tradicionais da culinária quilombola.
Cultura, identidade e empreendedorismo
Idealizadora do projeto, a produtora cultural Cinthia Abreu destacou que a iniciativa nasce do entendimento de que a cultura pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social. “A gastronomia é um patrimônio cultural e também pode ser um caminho para autonomia econômica. O projeto foi pensado para reconhecer as mulheres quilombolas como guardiãs de saberes ancestrais e ajudá-las a transformar esse conhecimento em oportunidades de empreendedorismo e geração de renda”, explicou.
Segundo ela, além da formação gastronômica, o projeto também busca fortalecer o turismo de base comunitária e ampliar a visibilidade da cultura quilombola da região. Como resultado final das atividades, está prevista a realização de uma Feira Gastronômica e Cultural na própria comunidade, onde as participantes poderão apresentar e comercializar os pratos desenvolvidos durante as oficinas, além de compartilhar manifestações culturais e produtos locais. A iniciativa pretende fortalecer a economia comunitária e ampliar o reconhecimento da Barra da Aroeira como um território de cultura, tradição e resistência. (Por Cinthia Abreu)

