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CARANHA ASSADA

*Por Roberto Jorge Sahium

Prato típico tocantinense, deveras usados nas festanças de natais e passagens de anos entre as décadas 40 à 60 no século passado.

Apruma o barco minha gente! Vamos lá marisqueiros de lobós, coloquem os balaios das rapaduras no meio do porão. Os couros, este monte de carniça, leva pra trazeira, sem afogar toda a popa.  Ei Diva do Mén! Levanta o peito (proa) desta belezura e vê se acama esta porcaria de carena e não deixa este barco comer água.

Zarói! Coloca este velho casco daqui adiante para ringir as tábuas de landi quinem os cocões do carroção da olaria dos padres. Apruma ligeiro a quilha pra riba e trava o motor na alta e põe este bicho comer óleo cru e aproveitar a ajuda de todos os santos.

Toda esta furupa de cantinela vinha das vozes dos barqueiros de convés e da estrondosa e rouca fala do Véio Rumão, comandante da “Sereia do Tocantins”, barcão de azucrinar os miolos dos viventes ribeirinhos, tinha capacidade para acarretar 1.000 arrobas de carga, com Iara engarupada na proa, sempre indicando à frente. Contam que o barco zanzou por mais de duas décadas nestas águas.

Bom, isso acontecia no tempo em que o Rio Tocantins era navegável, tempo que homem era homem e menino era menino.

Descrevem também que os barcos desciam com rapadura, couro de boi-pé-duro, borracha de mangabeira, fumos e até ouro. Na subida os velhos motores de centro Deutz a óleo cru roncavam alto para vencer as corredeiras, vinham com bucho cheio de mercadorias extraordinárias como tecidos, pólvora-negra, espoleta de espingarda por fora, balas 44 e chumbo para os armamentos, sal, soda, querosene Jacaré, anzóis, linhas para pesca, ferramentas gerais, inclusive lampiões, máquinas de costura Singer e medicamentos, sendo o AMBRA-SINTO*T o mais solicitado.

Uma parte desta história encontra-se lavrado escritura no livro “Pium” de Eli Brasiliense. O Mestre Rumão foi o mais afamado piloto de barcos comerciais que faziam águas no Rio Tocantins no Século passado. Para descer o rio aprazava seis meses e subir, a tardança beirava um ano.

Nos pedrais de São Lourenço e principalmente os que se encontram frontalmente a Itaguatins e Lajeado, todas as embarcações subindo ou descendo o rio eram obrigadas a parar a viagem, retirarem parte das mercadorias constante das cargas transportadas. Os transbordos realizados por meios de carroções e em lombo de tropa até a ultrapassagem do trecho ocupado pelos pedrais.

Nestas oportunidades os barqueiros aproveitavam para reabastecerem as dispensas dos barcos. Pescavam e secavam os peixes ao sol e sal. Caçavam e preparavam carnes de latas, quase sempre porções de chichas de anta, jacus, patos selvagens. Tudo frito na banha de porcão do mato.

Daí surgiu a história de que a melhor localidade para pescar caranhas é logo abaixo das pedreiras, usando como atrativo o sangue. Isto em parte é devera, ao tratar as matulas sobre as pedras, os sangues, as vísceras escorriam corredeiras abaixo, que atraiam piabas, piranhas e outras espécies forrageiras que consequentemente seduziam as caranhas. Assim dito e bem- dito, com poço farto, só dava as caranhas brutas nos anzóis.

Quanto ao Comandante Rumão, além das qualitudes aludidas, o Véio também tinha um apetite agudo, sozinho comia uma Caranha do Tocantins de uns três quilos por completa, mais um prato de farinha de puba com adjutório de pimenta vermelha fermentada em vinho de limão brabo, assim dizia Seu Adalgiso, velho pescador de Porto Nacional.

A Diva, diziam que era braba quinem formigão, não dava trela e nem farinha pra barqueiro de convés, agia como comandante ajudante de controle da carena e nas horas vagas preparava a caranha, prato preferido do Capitão Rumão, assim que gostava de ser chamado e foi à única mulher embarcada que viram por estas bandas.

Daí a “Caranha Assada” surge como “prato típico tocantinense”, muito consumido pela população do velho Nortão Goiano, nos diversos festejos, inclusive prato forçoso no Natal e na passagem de ano, nas cidades barranqueiras do Rio Tocantins, nas épocas de 1940/1960. A propósito, a Caranha do Tocantins que estamos falando é aquela cujas escamas são cinza arroxeadas uniforme nos adultos e dorso escuro, cinza com manchas alaranjadas nos jovens.

Estas caranhas, ainda são facilmente encontradas nas perambeiras aflorantes no barranco direito do Rio Tocantins, entre a cidade de Pedro Afonso a Miracema do Tocantins.

Em Tupi, a caranha é batizada de Ka´rãna e cientificamente de Piaractus brachypomus. Seu parente mais próximo é o Pacu (Piaractus mesopotamicus) da bacia do Rio Prata. Trata-se de peixe pronto para a piscicultura industrial de commodities e que foi, por uma boa era foi prato típico tocantinense.

CARANHA: Pirapitinga (Piaractus brachypomus), popularmente conhecida como pacu negro ou caranha, espécie nativa da Bacia Amazônica e do Araguaia-Tocantins, é mais cultivada na China do que no Brasil AMBRA-SINTO*T: conhecido por Ambracinto era muito usado para tratamento de gonorreia, tétano, dente infecionado, etc. Contém tetraciclina, um antibiótico indicado no tratamento das infecções causadas por germes sensíveis à tetraciclina.

Inté pra nóis!

*Roberto Jorge Sahium, é Engenheiro Agrônomo, Extensionista Raiz, Imortal da Academia de Letras da Extensão Rural Brasileira e da Academia Tocantinense do Agronegócio

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