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O Filhote

*Por Roberto Jorge Sahium

O gigante pede socorro!                                                    

O Surubim e o Pirarucu graças a piscicultura deixaram de serem extintos. Os dois podem servir de exemplo e instigação para salvarmos o Filhote da extinção.

No caso do Surubim, hoje a reprodução em laboratório, comer rações balanceadas, já são técnicas dominadas em 90% em criames de tanques-redes e escavados.

Na natureza o surubim tem costume noturno, vive no afundado do rio e sua alimentação são peixes menores.   

Já o Pirarucu vive em toda Bacia Amazônica e acolá nas redondezas da Ilha do Bananal também denominado de Pirosca. Tem preferência por águas limpas, calmas e rasas, come muito e de tudo, respira fora e dentro d´água. É um bicho sabido e dócil, aprende comer ração de soja e milho logo quando vem ao mundo. Sua reprodução em laboratório ainda não vingou, crias somente na forma natural, onde o macho constrói o ninho e cuida dos ovos e filhotes até que se tornem independentes, momento de sua captura para povoamento dos criatórios.

Agora chegou a vez do Filhote!

A piscicultura também pode salvar este gigante da Amazônia da extinção, e colocá-lo no plantel dos peixes a serem criados em piscicultura, por meio de técnicas e metodologia para tornar viável a retirada do filhote da lista de peixes em extinção e garantir a sua perpetuação.

O Filhote (Branchyplathystoma filamentosum) da família Pimelodidade é o maior bagre das águas dos rios Tocantins-Araguaia e outros rios pertencentes à Bacia Amazônica do Brasil. Este peixe pode atingir até 2,50 m de comprimento e 300 kg de peso, habita remansões e margem de rios fundos e tem desova total nos períodos das enchentes.

O Filhote na verdade, é o Piraíba, que recebe três denominações, respectivas ao seu peso em ordem crescente e nada científico, tudo expertise dos caboclos ribeirinhos. Exemplo: eles consideram filhote, peixe com peso até 60 Kg; piraíba, pesando de 60 a 100 Kg e até aí é peixe bom de comer; e piratinga (acima de 100 kg).

Os dois últimos nomes têm origem nas línguas indígenas: pira, “peixe” e íba “ruim” e tinga, “branco”, pois, quando o peixe atinge idade mais avançada, fica com o couro esbranquiçado, perdendo o cinza-chumbo característico.

O filhote é um peixe de grande importância comercial, possuindo carne muito apreciada na culinária brasileira, situação que o tem colocado na lista de peixes em extinção. Exemplo desta condição pode-se citar o Médio Tocantins, trecho compreendido entre o Bico do Papagaio até a cidade do Peixe, quase não se tem notícia de alguém que pescou um Filhote, nos últimos anos.

Quando atingem tamanho de piraíba e piratinga, muitos acreditam que sua carne faz mal e transmite doenças gastrointestinais. Mas nada que não resolva, com uma evisceração bem-feita logo em seguida à pesca para evitar a penetração das larvas dos mesentérios para os músculos, a inativação dos parasitas pode ocorrer à 60 º C por 10 minutos, ou congelamento em – 35 º C.

Mas a caça a este gigante tem muita era, começou lá por volta do século XVII com os holandeses, em suas incursões pelo rio Tocantins acima. E falando em Tocantins acima, uma parte desta película posso dizer que conheci o ator principal e alguns coadjuvantes. Lembro com clareza do meu pai e o tio avô Antônio Sahium, falar de Mestre Adalgisio Francisco Braga, mariscador de filhotes em Porto Nacional e redondezas.

A viagem de Goiânia a Porto Nacional era realizada em uma camionete Chevrolet 3.100 pick-up 1.952, motor Thriftmaster, 6 canecos em linha, tanque reserva adaptado. O tempo de viagem de Goiânia a Porto Nacional ou vice-versa girava em torno de 32 horas.

Bom, voltando à pescaria, as traias não eram muita coisa, basicamente anzóis de todos os tamanhos, linhas de pesca de todos os números, várias lanternas Rayovac, recém-lançadas no comercio, 2 Lampiões Petromax à querosene jacaré, cordas de bacalhau e outras bugigangas mais.

A principal peça destas pescarias, era Seu Adalgisio, que residia em Porto Nacional, e como diziam naquela época: “Pescador de 18 quilates”, desenvolvera técnicas de captura e embarque, que o diferenciava dos demais pescadores. Outra vantagem é que conhecia o Rio Tocantins de cabo a rabo. Quanto aos pesqueiros, muitos anos depois eu mesmo os identifiquei, ficavam nos porões do rio, logo abaixo das bocas dos ribeirões:  Crixás, Carreira Comprida, Ribeirão Areia, São João e Funil, morada certa dos baitas.

Na função usavam dois cascos de 6 metros de comprido do puro tronco de Landi, motores de popa de 12 HP, marca Archimedes (famoso cabeça chata), importado da Suécia.

No final da pescaria, os anzóis e as traias eram distribuídos aos ribeirinhos.

Dois exemplares de filhote (Seu Adalgizio só pescava e deixava pescar filhotes de 50 a 100 kg) eram preparados, embalados em sacarias vazias de açúcar alvejado e acondicionados em caixa térmica de madeira, com serragem e gelo para conservar o produto, os quais, apresentados em Goiânia, para fazer inveja na comunidade de pescadores, bem como, prova de que estavam pescando de verdade.

E assim:

Quantos barcos em viagens para Belém ou de volta, não tinham nos seus cardápios: filhote à milanesa com ovos de tartaruga; filhote ensopado temperado com ervas como chicória, alfavaca e tucupi ou tropical ao molho de murici; ensopados e moquecadas com pimentas vermelhas e temperos de quintal?

Quantos Filhotes foram capturados no Rio Tocantins de lá pra cá dos Holandeses?

Quantos Filhotes foram comercializados?

Quanta riqueza este peixe patrocinou com a própria vida?

Quantas pessoas vão dizer: Este rio era bom de peixe?

Hoje a pesca do filhote é proibida por Portaria do IBAMA, nos estados de Goiás, Tocantins e Mato Grosso. A multa é pesada para quem for flagrado transportando o peixe ou partes.

Pesca e solte é liberado. Agora, armem a briga! De um lado o pescador motorizado, com anzol do tamanho de um gancho de dependurar peça de boi e corda de nylon, do outro lado o peixe, fisgado pela boca, arrastado com força da ação extrapesada.

A favor do peixe, só a natureza e a sorte.

Este Gigante da Amazônia antigamente no Médio Tocantins riquezas produziu, mas parece que dessas águas há tempos ele sumiu, sinal de socorro por anos emitiu, muitos se fazendo de mocos não ouviu, a quem o gigante não pediu, a piscicultura sentiu, que pode fazer alguma a coisa a este que a muitos serviu.

E assim, colocando este gigante na batida do Pintado e do Pirosca, logo poderá estar nadando nas águas do Médio Tocantins, isto é, se os donos do Rio, os seguidores do Deus Aracnídeo, o monstro dessas águas, deixarem.

Inté pra nóis!

*Roberto Jorge Sahium, é Engenheiro Agrônomo, Extensionista Raiz, Imortal da Academia de Letras da Extensão Rural Brasileira e da Academia Tocantinense do Agronegócio, e encontra-se Subsecretario da Pesca e Aquicultura do Estado do Tocantins.

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