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A lenda do Jaraqui

*Por Roberto Jorge Sahium

O Véio Tapuia era barranqueiro no Rio Javaés, trazia a astúcia de descrever as historietas, lendas e narrativas, mesmo com pouca leitura e fraca escrita expunha sem pareia o passado das nações indígenas Karajás, Karajás-Xambioás e Javaés, povos que habitam a planície do Rio Araguaia, cuja progenitura vem dos povos Iny.

Tapuia é aquele que ao lado da sua companheira a Dona Apoema, foram salvos pela benevolência da enchente da Ilha do Bananal, acolá no princípio do ano 1.980. Tirava o sustento na mariscagem de Pirarucu nos períodos chuvosos os quais eram demudados em bacalhau e enviados para Belém do Pará. Na época da estiagem em seu estaleiro rudimentar carapinava de canoas de troncos árvores no verão.

Assim, num dia calmo, verão de sol rebentando semente de cachimbeiro, fui visitar Tapuia. Encontrei-o em uma sombra de um Saboeiro centenário que debruçava sobre o Rio e ele carapinando uma canoa em um tronco de Landi em seu estaleiro. Nesse dia contou-me a história da Iaraki.

Contava ele que Iaraki era uma bela indígena de lábios lindos e avermelhados. Tipificada como excelente guerreira. Nadar e andar bem adornada com pulseira de miçangas e de grafismo Iny, aonde o amarelo, verde e azul sua precedência, era seu ritual diário.

O pai de Iaraki o tempo todo gabando-a para os parentes pela sua seiva em defesa do seu povo e dos Deuses, em contínua obediência às quatros linhas das leis de sua aldeia. Em desconcerto, seus irmãos morriam da invídia e despeito, não perdiam andamento em ardilar um jeito de elimina-la. Astuta como a piranha-preta (Serrasalmus rhombeus) Iaraki não tinha outra ribanceira, alagar enfiteuse não era de seu feitio e como não via remédio, aprumou as ideias para se defender.

Atacou primeiro, no entreveiro acabou cancelando a vida de um dos seus irmãos. Com medo de represália Iaraki fugiu para as Matas do Rio Douradinho, que fica na região ocidental de Iny òlòna (Ilha do Bananal).

O irmão que escapou de ser anulado, emanados por uma corja com predicados parecidos foram a seu encalce. Perseguiu até capturá-la e amarrando-a numa tora de uma árvore de Jatobá e no Rio Douradinho fora jogada.

O grande Tanyxiwè, aquele que roubou o fogo dos monstros das tempestades, herói da aldeia Iròdu Iràna, não concordou com o sucedido, pediu ajuda a Jaci, para iluminar a escuridão. Rumou a sua procura lá pro lado das pegadas, e no fundo do Rio Douradinho, num poção d´água viu Iaraki quase esfalecida.

Tanyxiwè não tremeluziu, pediu ajuda a Juruá Açu, que trouxe de dentro de uma nuvem um raio de luz e solicitou ao Deus Tupã empoderar o teu bordão de fazer de fogo, e assim por indução eletromagnética transportou energia revigorante até Iaraki. E para desnortear seus hostis, pediu que a transformasse em uma linda e brilhante peixa de corpo prateado, e caudas vermelho-amarelas.

Iaraki, mudou de nome, hoje é Jaraqui, agora feliz da vida percorre em cardumes, saltando bancos de areias, cachoeiras, subindo correntezas e fazendo migrações tróficas em toda a bacia do Rio Araguaia, levando contentamento aos ribeirinhos e pescadores.

Passadas muitas eras e eras, por volta de 1.850, Jaraqui é encontrada pelo Achille Valenciennes e daí rebatizada de Semaprochilodus brama.

Não a mesma Jaraqui que nadam acolá para as bandas de Manaus é Semaprochilodus taeniatus. É porém da mesma família  Prochilodontidae.

Quem quiser conhecer a primeira morada da Jaraqui Semaprochilodus brama viaja até o Rio Douradinho, que tem sua nascente nas proximidades da Cidade de Lagoa da Confusão e desemboca no Rio Javaés, mas antes passa pela região denominada de Pé-de-Limão.

O Rio Douradinho dias desses era um grande reinado do Jaraqui e daí fizera longa migração trófica (piracema) pelos rios da região para a reprodução, com desovas de ocorrência entre dezembro e fevereiro, no período de cheia dos rios.

A Jaraqui alimenta-se basicamente da comunidade que habita o fundo das águas doces, composta de algas, bactérias, fungos e animais, além de detritos, aderidos a substratos submersos orgânicos ou inorgânicos ricos em minerais, que inclusive a apadrinha a posse de uma carne de cor amarela e rica em Ômega 3, tenra, saborosa e bastante apreciada.

Sua conquista quase não se ajeita à modalidade de pesca, por não ser capturado facilmente com anzóis. De predicado a Jaraqui aceita bem a rações industrializadas e reproduções induzidas.

Inté pra nóis.

*Roberto Jorge Sahium é Engenheiro Agronomo, Extensionista Raiz, Imortal da Academia de Letras da Extensão Rural Brasileira e da Academia Tocantinense do Agronegocio, e encontra-se Subsecretário da Pesca e Aquicultura do Estado do Tocantins.

Véio Tapuia: o conheci em 1980, era ribeirinho do Rio Javaé, morador nas proximidades do Furo-de-Pau, pescador de mão cheia, tinha aparência e vivia como índio, mas dizia não ser indígena.

Iny: pronuncia-se “inã” é raiz dos povos Karajás, Karajá-Xambioás e Javaés.

Iny òhona: o lugar de onde surgiram (ou saíram de baixo) os povos Iny.

Tanyxiwè: aquele que roubou o fogo dos monstros das tempestades.

Iradu Irudu: terra habitada pelos povos Iny

Jaci: Deusa protetora da lua.

Grande Tupã: Deus dos deuses.

Jurub Acu: bela deusa tupi-guarani da chuva e do orvalho.

Jaraqui: jara (dono de, esquia com uma bela palmeira) e ki = qui., (nesta junção significa pessoa esperta).

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