*Por Roberto Jorge Saihum
Carne de lata, charque de três dedos de espessura e linguiça defumada na fumaça do fogão caipira perderam o status. Mesmo gastronomicamente viáveis, estas delícias da época de amarrar cachorro com linguiça demudaram em histórias que ainda rodam os miolos das barrigas.
Mas de histórias, temos também do velho lampião Aladim e seu inseparável querosene Jacaré no chiaroscuro, serrar jatobá com curpião, torrar e moer café e ainda dar partida em fogão à lenha turbinado com chapa de sete bocas, às cinco horas da manhã em dias chuvosos, e depois ir arar o chão com enxadão, não tenho saudade não.
Cristalândia, Araguacema e Pedro Afonso, nas décadas de 40 e 50, foram importantes centros comerciais. Destas localidades, saiam diariamente para Belém do Pará vários DC-3 carregados com charque, produzidos das melhores carnes do famoso pé-duro ou curraleiro do então Nortão Goiano, em especial das barrancas do Rio Formoso e da Ilha do Bananal, época boa, não tinha Bicho-Grilo e muito menos os Gafanhotos de diárias públicas.
Carne seca e salgada hoje não tem na roça. Salgado mesmo é o produtor rural ter que engolir seco, o preço do seu produto fixado pela indústria ou pelo comércio, injuriadas pelas políticas desastrosas de juros e crédito. Sem contar dos custos rombudos dos insumos básicos importados, preços dos combustíveis e energia elétrica, hoje nas alturas do buraco negro e lá nas gretas da conchinchina, tudo atado e segurada pelos fueiros da incompetência do Estado Brasileiro.
E por riba disso, o regime cambial brasileiro parece o Câmbio da Velha C-14 a gasolina, três marchas pra frente, onde a primeira e segunda sempre emperrava. Interessante é que a ré nunca escapulia. Diziam os mecânicos da época que era por desgastes dos sincronizadores, garfos de mudança estragados ou problemas no mecanismo de engate.
Então já passou da hora de levar os mecânicos antigos para consertar o regime cambial do Brasil. A começar com uma máquina de lavar para limpar a sujeirada da flutuação cambial. Pois o produtor compra a preço de dólar e vende a preço de real. Tem que ser máquina de lavar, e não lava jato, que foi desqualificada. O termo “sujo” apenas indica que o governo intervém no mercado de câmbio de forma limitada (rum, rum) para suavizar a volatilidade da taxa de câmbio.

As charqueadas e os produtores de carne de lata fizeram empregos e geraram renda em regiões de difícil acesso, comunicação deficitária, pouca mão-de-obra especializada e sem políticas de incentivos fiscais.
Então, chegou o momento do filme da carne seca ou jabá ser restaurado, e assistí-lo em um formato sem uso da Lei Rouanet ou como a resistência contra a tirania do rei, comendo frito-de-faisão.
Seis meses de sol são 2.400 horas de luminosidade, 2 milhões de reses para serem desmontadas nos frigoríficos tocantinenses, sem somar as toneladas de bois que saem do Tocantins sem industrialização e sem pagamento integral do ICMS.
Chorar sozinho não resolve. Mas o Governo do Estado, os donos de frigoríficos, os setores que fomentam a indústria estão ajudando a continuar na via contramão do desenvolvimento, adonde mais de 110 mil pessoas estão desempregadas, mais de 150 mil famílias vivendo com ½ salário mínimo, conforme estatística do IBGE 2024.
Carne de lata de carne de porco, na ausência da refrigeração, frita-se até deixá-la completamente sem água, para evitar mofo. Guardada em latas, é garantido o uso por até dois meses. Retiradas, esquentadas… que delícia!
Não existem dados específicos sobre a batelada de charque exportada pelo Nortão Goiano na década de 1945-1950. No entanto, sabe-se que, impulsionados pela pecuária, a produção e o comércio desde produto foram vitais para a região naquela ocasião.
*Roberto Jorge Saihum, é Engenheiro Agrônomo, extensionista raiz e Imortal da Academia de Letras da Extensão Rural Brasileira, e da Academia Tocantinense do Agronegócio, encontra-se projetista agroambiental autônomo.

