Opinião

Foro privilegiado: para alguns, questão de sobrevivência política

15/12/2017 15h01 | Atualizado em: 15/12/2017 15h05

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Essa farsa do foro privilegiado, cujo julgamento já estava praticamente definido, o ministro Dias Toffoli fez o favor de adiar, e se não tem prazo para voltar à mesa de julgamento, trouxe inquietação a certos políticos que parecem estar com os dias contados nas suas atividades político-marginais.

Não é preciso tentar adivinhar a que partido pertencem esses espertalhões que já estão criando banha de tanto mamar nas tetas de onde sai nosso suado dinheirinho: invariavelmente são do PMDB, PSDB e PT, que compõem as maiores bancadas do nosso Congresso.

O PMDB possui a maior quadrilha, tanto de senadores como de deputados, mas para poupar a paciência dos leitores vamos ficar apenas no Senado. De todos os investigados, não há dúvida de que a situação mais periclitante é a de Renan Calheiros.

Sabe-se que a oligarquia dos Calheiros de há muito instalou-se na República das Alagoas.

A lei eleitoral de vez em quando arma uma arapuca para os espertalhões: e desta vez com Renan Calheiros: como o governador de Alagoas, Renanzinho, é seu filho, pela lei o pai só pode concorrer ao mesmo cargo que ocupa hoje, o que não é o caso, por exemplo de Aécio Neves, que, vendo suas chances de reeleição baterem asas, deverá optar por uma vaga na Câmara dos Deputados.

Carregando na cacunda nada menos que quinze inquéritos, sem se falar que já é réu perante o STF, naturalmente terá de disputar uma das duas vagas ao Senado por Alagoas; e o outro pesadelo que lhe assalta o sono é que terá como concorrentes nomes de peso e possivelmente ambos “ficha limpa”: o ministro do Turismo Marx Beltrão e Maurício Quintela, dos Transportes, sem se falar no colega Benedito de Lira, com prestígio de amplo espectro, e o não menos popular ex-governador Teotônio Vilela, herdeiro político do “menestrel das Alagoas”.

Em Pernambuco, com certeza o petista Humberto Costa pleiteará candidatar-se, seja uma reeleição ao Senado ou contentar-se com uma vaga na Câmara. Para tanto, está em compasso de espera em um arranjo que está sendo negociado entre o PT e o PSB no seu estado e só cogita a reeleição ao Senado se integrar uma chapa forte. Mas surgiu uma pedra de tropeço em suas pretensões: é acusado de ter recebido cerca de R$ 600 mil para favorecer a Odebrecht em uma licitação na Petrobras, em 2010.

Uma outra figurinha que vai ter trabalho nestas eleições de 2018 é o senador Lindbergh Faria, que parece não ter ainda desistido de reeleger-se ao Senado em 2018; mas, diante de suas pantomimas e trapalhadas nos dois últimos anos as pesquisas mostram que suas chances de conquistar um novo mandato de senador estão escassas, embora esteja forçando uma popularidade que não tem: resolveu acompanhar o ex-presidente Lula em suas caravanas pelo Sudeste e tem abusado das postagens nas redes sociais ao lado do líder nas pesquisas de intenção de voto. Se não se viabilizar, também deve partir para uma candidatura a deputado. Ele é acusado de ter-se beneficiado de um esquema de recebimento de propina de empresas contratadas por Nova Iguaçu quando foi prefeito da cidade, entre 2005 e 2010.

Em palanque da caravana de Lula, Lindbergh toma o ex-presidente como paradigma político, demonstrando não estar seguro de sua reeleição, chegando a mostrar que quanto maior o desespero, maior a demagogia.

Uma outra personagem que vive um autêntico inferno astral, em razão não só de seu arraigado radicalismo, mas também de seu deslumbramento pela presidência do seu partido, é a senadora Gleisi Hoffmann, a popular “Narizinho”, que já nem cogita mais disputar novamente uma vaga ao Senado, que reconhece não ter cacife para tal, mas, em razão do foro privilegiado (que está decidido, mas não sacramentado juridicamente), ela não quer abrir mão de ter um mandato, tanto pela questão política quanto para não perder o foro. Ré na Lava-Jato, ela é acusada de receber R$ 1 milhão do esquema de corrupção da Petrobras para sua campanha de senadora em 2010.

Finalmente, o já falado ex-presidente do tucanato, senador Aécio Neves, que é senador por Minas mas mora no Rio, já chegou à conclusão de que terá grande dificuldade em se reeleger para mais um mandato como senador, e já traça como “plano B” uma candidatura a deputado federal, pois lhe é inteiramente inviável o Senado, inobstante haver duas vagas a serem preenchidas no ano que vem.

Aliados sugerem que, por medida de precaução, ele passe os três primeiros meses de 2018 viajando pelo Estado para sentir o pulso dos eleitores e só então, após uma avaliação, decida por qual cadeira concorre, pois seu desgaste dos últimos meses, com episódios de falta de condições de dirigir seu próprio partido em razão de envolvimento com os açougueiros de Anápolis, sendo alvo de nove inquéritos no STF, e chego até a arriscar-me a dizer que, diante das últimas trapalhadas, se ele não for parar atrás das grades á estará no lucro.

Como se vê, o grande empecilho à permanência da quase totalidade dos políticos nos seus cargos, em todos os níveis e em todos os cargos, chama-se corrupção.

Mas como há males que vêm para bem, talvez através do amargo remédio prescrito para a corrupção seja possível expurgar do Brasil esse pernicioso mal secular que está acabando com nosso país, desde Cabral (o que o descobriu e o que quase o afundou).

* Por Liberato Póvoa