Opinião

Não se ouve mais bater panelas

26/10/2017 11h37 | Atualizado em: 26/10/2017 11h42

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Não faz muito tempo, as redes sociais convidavam o povo para as concentrações nas ruas e, em casa, bater panela em protesto contra determinadas coisas, principalmente quando Dilma Rousseff ia aparecer na televisão ou em programas eleitorais do PT.

E assistimos a multidões, vestidas de verde e amarelo, envolvidas na Bandeira Nacional, tomarem os pontos adrede determinados e saírem em passeata, em monstruosas aglomerações, uns por convicção política, outros pelo oba-oba.

Passado pouco mais de um ano, quando se expeliu a ex-presidente do Planalto, parece que o povo já se satisfez. O objetivo seria o combate à corrupção, uma verdadeira fobia pelo PT, pois qualquer pessoa vista nas manifestações vestida de camiseta vermelha já era considerada “persona non grata”.

Acreditava-se que os batedores de panelas entonados em roupas verde e amarelo e lotando parques, praças e avenidas, protestavam em busca de Justiça, estando acima de partidos e ideologias, em luta aberta pela transparência do Governo e pela punição dos saqueadores da nação.

Isso pressupunha que, pelo arroubo com que protestavam, iriam fazer o mesmo diante de uma situação igual que se apresentasse.

Dilma se foi, e Temer, que estava mais empenhado em sentar-se no trono do Planalto do que em resolver a situação caótica do Brasil, aí está: cercou-se de uma corja de aproveitadores, com vários ministros encalacrados na Lava Jato, e ao povo faltou coerência para prosseguir, pois o “mensalão” e o “petrolão” deixaram profundos rastros, com a agravante de que, pela primeira vez na nossa história, um presidente em exercício é denunciado por duas vezes, juntamente com ministros mais chegados, com o surgimento de denúncias e mais denúncias, das mais pesadas contra eles. Surgiu a mais impressionante série de provas gravada contra um senador, Aécio Neves, e nenhuma camiseta verde e amarela apareceu nas ruas.

E não se ouviu mais nenhuma panela bater, apesar de a corrupção campear deslavadamente, crescendo em progressão geométrica, com a apreensão de verdadeiras fortunas saqueadas da nação através de propinas. Geddel Vieira Lima é talvez a ponta de um gigantesco “iceberg”, pois a cada dia a corrupção se agiganta.

A ex-presidente Dilma Rousseff, sobre cuja figura nunca nutri qualquer admiração, posto não ser político, evidentemente foi derrubada pelos eleitores de seu concorrente Aécio Neves, como está evidenciado às escâncaras.

E por que as panelas, que simbolizavam a revolta por uma nova ordem não bateram e não batem agora, quando tanta coisa está sendo desmascarada? Quando se sabe que Michel Temer será julgado, e salvo, pela segunda vez, na Câmara dos Deputados sob graves acusações de corrupção, onde estão as panelas?
É muito oportuno lembrar que Dilma não foi derrubada sob acusação direta de qualquer ato de corrupção, mas pelas pedaladas fiscais. E o que é mais grave: pagar compromissos governamentais com adiantamentos de bancos públicos, sempre reembolsados, ou receber propina de empresários?

Os senadores que salvaram Aécio são os mesmos que afundaram Dilma em nome da moral. Por que as panelas não batem agora? Onde andam os jovens líderes de movimentos ditos apartidários em defesa de um Brasil limpo, novo, livre do cancro de políticos ladrões?

Era perfeitamente crível que a classe média brasileira não se deixaria novamente manipular e que trataria todos da mesma maneira, com o mesmo rigor e a mesma convicção. Por qual razão Temer mereceu tanta complacência quando tentou liberar uma reserva na Amazônia para a exploração total de minérios, que estava com autorização de exploração para a família de Jucá?

Como se explica Temer vir, de repente, proteger o trabalho escravo e perdoar multas apenas para angariar os votos da bancada ruralista, deixando de cobrar uma dívida de 29 bilhões de ITR de ruralistas?

Por que aprovou uma reforma trabalhista que precariza a vida do pobre? E por que está insistindo numa reforma da Previdência que levará muitos a morrer sem se aposentar, enquanto não mexe com a escandalosa aposentadoria da Câmara e do Senado?

O STF prendeu Delcídio Amaral e afastou Eduardo Cunha sem consultar o Parlamento. Primeiro, Temer deixou Cunha derrubar Dilma, porque a ele interessava para os seus objetivos pessoais. Mas quando chegou em Aécio, mandou o Supremo devolver a decisão para o Senado, que tratou de salvar o parceiro tornando-se definitivamente a instituição mais desmoralizada do país e talvez do mundo. E o Senado, para blindar-se nos casos futuros, fez o que fez.
O Supremo provou que nossa Justiça tem lado, tem classe e tem ideologia, respeitando a Magna Carta apenas quando interessa. No momento que lhe convém, atropela a Constituição sem o menor constrangimento, em nome de algum entendimento alternativo. O caso Aécio é o maior escândalo da história da Justiça e do Parlamento brasileiros.

Deixando de lado o “impeachment” de Dilma, uma armação que levou ao poder um grupo cheio de comprometimentos judiciais até o pescoço, em que vários do seu ministério inicial já estão na cadeia, não se ouve mais bater panelas pela escancarada compra de votos de deputados e senadores, em troca de verbas e cargos, pelo turbilhão de grossas propinas, que são rateadas por baixo do pano, como os ladrões de banco rateiam o butim após cada assalto.
Meu Deus do Céu, aonde chegamos?

Será que Temer também comprou a imprensa e as redes sociais, como comprou deputados e senadores?

Minha gente, algo tem que ser feito. O inesquecível Ulisses Guimarães sempre disse que político não tem medo da Justiça, mas do povo nas ruas.
O velho e experimentado político deve estar se estremecendo no túmulo por ter pertencido ao mesmo partido dos grandes saqueadores da nação.

Não sou contra o PT, PSDB, PP, PR e outras facções criminosas, mas não posso me calar diante desta babel em que passivamente contemplamos bandidos fazendo planos para nos roubar em pena luz do dia.

Temos que expurgar em 2018 os pilantras escolados em ladroagem, e torcer para que alguém de força e descomprometido com a corrupção assuma o comando do Brasil.

Enquanto isso, vamos voltar a bater panelas! (Liberato Póvoa)