Opinião

Belas e sofridas recordações de Palmas, a Capital do Futuro

11/10/2017 09h25 | Atualizado em: 11/10/2017 09h29

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Neste 5 de outubro faz 29 anos da criação no nosso Estado, e com isto merece algumas consiferações sobre Palmas.

Criado o Estado pela Constituinte de 1988, houve um grande movimento por parte das três maiores cidades (Araguaína, Gurupi e Porto Nacional), reivindicando o direito de ser a capital do Estado. Mas, numa visão futurista, Siqueira Campos deliberou que esta seria uma nova cidade, e que, a exemplo de Brasília, seria construída a partir do nada, para ser a “Capital do Futuro”. E num gesto de certa forma inusitado, decidiu que, enquanto se construísse a Capital, funcionaria como capital provisória a cidade de Miracema do Norte, frustrando o sonho de Araguaína, Gurupi e Porto Nacional, pois se escolhesse qualquer delas causaria um certo desconforto político.

Enquanto o Governo funcionava em Miracema, despachando o Governador no “Palácio Araguaia” improvisado em uma escola pública nas proximidades do balneário “Correntinho”, eram examinadas áreas mais apropriadas para construir a Capital do Estado.

Por uma razão lógica, o Governador escolheu uma área localizada na margem direita do rio Tocantins, no centro geográfico do Estado: como a intenção era construir uma cidade moderna e funcional, não se justificava adaptar como capital uma das cidades existentes, pois agravar-se-iam os problemas sociais por falta de infraestrutura e não havia como se expandir; ademais, a construção de uma nova cidade, embora contando com os parcos recursos do próprio Estado, impunha serenidade e visão de futuro na escolha do local, criar-se-ia um próspero mercado de trabalho, além de desenvolver-se a parte desassistida da margem direita do Tocantins, que contava com apenas oito quilômetros de asfalto, entre Campos Belos-GO e Arraias. Assim, foi escolhido o lugar à margem direita do Tocantins, no povoado de Canelas, que, forçosamente, transformar-se-ia em um polo de desenvolvimento de toda a margem direita, secularmente abandonada.

A decisão de construir no centro geográfico do Estado uma nova cidade, planejada, moderna, para sede do Governo estadual, foi pensada e repensada, após profundas análises por parte do Governador, dos integrantes da Assembleia Legislativa e do primeiro escalão, sem deixar de ouvir técnicos nacionais e estrangeiros, que já haviam projetado cidades semelhantes.

Por 23 votos a favor e uma abstenção, o local foi aprovado pela Assembleia Legislativa, com uma área de 1.024 km2, desmembrados do município de Porto Nacional, a 82 quilômetros de Miracema do Tocantins e 62 da cidade de Porto Nacional.

À escolha do nome precederam sugestões, tendo sido sugerido ao governador o nome de ”Pasárgada”, uma cidade ideal, imortalizada pelo poeta modernista pernambucano Manuel Bandeira, no poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, cujos primeiros versos diziam:

“Vou-me embora pra Pasárgada,
Lá sou amigo do rei;
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei”.

Mas a escolha não vingou, devido ao caráter erótico da cidade sonhada, e Siqueira escolheu o nome “Palmas”, seja pelos milhões de palmeiras de diversas espécies de que é pródigo o Estado, como o babaçu, o buriti, o tucum e outras, seja para homenagear Teotônio Segurado, que criou a Comarca de Palmas, hoje a cidade de Paranã, que se chamou Palmas até mudar de nome, como Dianópolis que foi São José do Duro; Taguatinga, foi Santa Maria; Aurora do Tocantins foi Arraial da Manhã, e assim por diante.

Criada a cidade, a previsão era de se urbanizarem 1.624 hectares, área suficiente para agasalhar uma população de 120.000 habitantes até o 5º ano; de 200.000 até o 10º ano, podendo, no 15º ano ser de 800.000 habitantes, sem causar transtornos de ordem social, estando prevista uma ampliação para 10.787 hectares até o 15º ano e 102.400 hectares para o futuro.

Na manhã do dia 20 de maio de 1990, foi celebrada uma missa solene de batismo de Palmas pelo Bispo da Diocese de Porto Nacional, D. Celso Pereira de Almeida, acolitado pelos padres Juracy Cavalcante e Rui Cavalcante e pelo Monsenhor Jacinto Sardinha, celebrada diante de um cruzeiro de pau-brasil plantado em frente ao local onde hoje se ergue o “Palácio Araguaia”, marcou o início da construção de Palmas, que emergiu do bom senso, do equilíbrio e dos ideais de esperança do povo tocantinense. Logo após a missa, chegou de helicóptero o General Rubem Bayma Denis, Chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, representando o Presidente José Sarney.

Ao som do Hino Nacional, foram hasteadas as bandeiras do Brasil, pelo representante do presidente da República, a do Estado do Tocantins, pelo governador Siqueira Campos, e a de Palmas, pelo deputado federal Eduardo Siqueira Campos. Como parte das solenidades, foi também celebrado um culto ecumênico, presenciado por uma enorme multidão.

O governador fez um pronunciamento, anunciando o início das obras de construção da nova Capital, descerrando um marco histórico, com a “Proclamação de 15 de Setembro de 1821”, assinada pelo Ouvidor Joaquim Teotônio Segurado e demais membros do Governo Provisório instalado na cidade de Cavalcante, na então Província de Goiás.

Ao meio-dia, acionando um grande trator e cercado de uma multidão de mais de 10.000 pessoas vindas de todos os pontos do Estado, o Governador deu início à abertura da avenida principal da cidade de Palmas, que tomou o nome de Teotônio Segurado. Dentre os presentes encontravam-se inúmeros empresários de todo o país, interessados em investir no novo Estado e na futura Capital, promissor mercado.

E num rasgo de pioneirismo, querendo consolidar a capital a ser construída, os três Poderes passaram a despachar em Palmas, a 82 quilômetros de Miracema, cobrindo diariamente o percurso, já que Palmas não tinha acomodações.

E assim, surgiu a Capital do Estado do Tocantins, a última do século, cognominada “A Capital Ecológica”, e “A Capital do Futuro”, que teve como primeiro prefeito Fenelon Barbosa Sales, por ter sido prefeito de Taquarussu do Porto, cujo município englobava o da nova Capital, e o segundo, Eduardo Siqueira Campos, primeiro prefeito eleito especificamente para Palmas.

Palmas foi criada como uma cidade cosmopolita, que, sempre de braços abertos, acolheu todos que lá chegaram para contribuir com uma parcela de trabalho, a ponto de ter sido criada por um nordestino e governada hoje por um empresário estrangeiro.

No início, Palmas era apenas um traçado de avenidas e ruas abertas sobre a planície que desce dos contrafortes da Serra do Carmo, rumo às águas do Tocantins e da romântica “Praia da Graciosa”.

A sede do Governo funcionava, improvisadamente, numa construção de paredes de tábuas, que foi batizada de “Palacinho”, situado do lado esquerdo do início da Avenida JK, perto da estrada que hoje vai para o Lajeado. E residência oficial do Governador, também de madeira, ficava a cem metros do “Palacinho”. O Tribunal de Justiça, que eu presidia na época, acomodou-se num barracão de tábuas, com salas escuras e um salão onde funcionava o Tribunal Pleno, constituído de apenas sete desembargadores: eu (presidente), Carlos Souza (vice), Antônio Félix (corregedor), João Alves da Costa, José Maria das Neves, Amado Cilton e Moura Filho, que, nomeado, foi o primeiro a ser empossado na nova Capital, em 1º de janeiro de 1990. E com o vento típico da região na época da seca, um certo dia, numa sessão do Pleno, veio um vendaval que levou o telhado e encheu de poeira os processos que esvoaçaram na ventania.

E para atender à população, já que não havia dormitórios e restaurantes, os ali residentes improvisavam colchões nas próprias construções que serviam de repartição, e tomavam refeições no chamado “Bandejão”, um barracão aberto dos lados e coberto de palhas (onde hoje ficam os Correios). Era o único “restaurante” que nos servia a todos: autoridades, funcionários e chegantes de toda parte do País. Mas, mas as posições elevadas não envaideciam os idealistas.

Todos nós nos assentávamos às mesas toscas rodeadas de bancos, sem encosto. Era ali que se sentia a fraternal união dos pioneiros, no trabalho e nos ideais. De vez em quando, para maior desconforto nosso, o “restaurante” era envolvido por uma nuvem de poeira trazida pelos costumeiros redemoinhos, verdadeiros cones de vento. Rodopiavam forte, trazendo, no seu “bojo”, folhas secas e, depois, se aprumavam rumo às nuvens, desfazendo-se lá em cima.
No “Bandejão”, nosso desconforto era geral! O que se fazer? Apenas, tapavam os enormes caldeirões de alumínio, onde se coziam os alimentos, acomodados sobre um peitoril de cimento. Os próprios comensais se serviam, enterrando as colheres de pau e as conchas de alumínio, com as quais tirávamos as comidas que eram bem regionais: arroz com carne seca, o “cozidão”, picado de mandioca, arroz “casadinho” e paçoca. Até conhecermos a primeira churrascaria (“Churrascaria do Grego”) comemos muita poeira nas refeições.

Mas a fé e o ideal dos pioneiros venceram os redemoinhos os “potós” (que nos queimavam a pele), os pernilongos, os ratos e, às vezes, algumas cobras e outros “bichinhos” incomodados com a nossa “invasão” ao seu domínio, outrora, somente por eles povoados.

Enfeitando o ambiente, no ar, inúmeras aves multicoloridas, com seus variados cantos, piados e gorjeios. Ainda hoje, muitas dessas aves enfeitam os céus de Palmas e as araras azuis, com suas estridentes “gargalhadas”, acordam seus habitantes.

Agora, com mais de trinta anos, Palmas já é a mais bela capital do Brasil amazônico! Seus palácios, seus jardins e sua estrutura arquitetônica, sobre o privilegiado lugar em que se firmam, a todos encantam! Ali tudo respira o vento puro da esperança. O trabalho de todos constrói o progresso que se irradia e avança nas demais regiões tocantinenses!

Belas recordações de uma cidade que vi nascer e – modéstia à parte - que ajudei a construir.

*Liberato Póvoa