Opinião

Frio, calculista e dissimulado

02/10/2017 10h46 | Atualizado em: 02/10/2017 11h11

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Quando, em 13 de setembro passado, Lula encarou o juiz Sérgio Moro para ser interrogado em mais uma ação em que figura como réu, foi surpreendido, mais uma vez, pela firmeza do magistrado, que não se deixou levar pelas espertas insinuações de que fora injustiçado na ação anterior, a do tríplex.

De quebra, levou um sonoro pito da procuradora Cristina Vieira, que representava o Ministério Público, quando ele a tratou de “querida”, e ela retrucou, pedindo que ele utilizasse o tratamento protocolar de “doutora”, “procuradora” ou equivalente, e o juiz Moro contemporizou que sentia que o ex-presidente não tivera nenhuma intenção negativa em usar aquele tratamento. Também acho que não.

Todo mundo sabe que Lula tem o hábito de chamar interlocutores de “meu querido”, “minha querida”, sempre optando pela informalidade, como se viu, inclusive, naquele diálogo entre ele e a então presidente Dilma, quando ela mandou o “Bessias” levar-lhe um papel (que seria um “termo de posse” para “ser usado se necessário”), num claro ato de tentar ludibriar a Justiça com a história do foro privilegiado sob encomenda. Logo no início de qualquer conversa, e ele já opta pela informalidade, mesmo porque apenas oito anos de mandato nunca iriam suprir a falta de escolaridade que o traquejo dos formalismos nem sempre ensina.

Mas voltando ao interrogatório, sempre troco ideias com o amigo Flávio Azevedo, médico de raízes tocantinenses, que mora em Belo Horizonte, onde faz residência médica.

E a conversa vem a propósito das declarações de Lula, que, para rebater as acusações de Antônio Palocci, que o ajudou a fundar o PT e foi o homem forte de Lula e Dilma, ocupando o ministério da Fazenda e a Casa Civil, com uma efetividade que nenhum outro “companheiro” tivera, a ponto de cuidar das finanças do partido e encarregar-se de fazer a arrecadação dos milhões e milhões carreados de propinas, agora bem explicadas.

Além de funcionar como uma autêntica caixa-forte para o dinheiro sujo, Palocci foi também um confidente da mais alta confiabilidade da cúpula petista, a ponto de Lula sempre dizer que confiava cegamente no velho companheiro, seguramente porque em todos os bandos, como esta quadrilha que hoje manda no Brasil, funciona, em tese, um código de honra, criado pela máfia italiana por ocasião da “Operação Mãos Limpas”.

Era denominado “Omertà” um termo da língua napolitana que definia um código de honra de organizações mafiosas do Sul da Itália.
Fundamentava-se num forte sentido de família e num voto de silêncio que impedia de cooperar com autoridades policiais ou judiciárias, fosse em direta relação pessoal como quando fatos envolvessem terceiros. A “omertà” existia além do Sul da Itália peninsular também na Sicília, Sardenha e Córsega.
Justamente por causa desse “código de silêncio” a “Operação Mãos Limpas” teve dificuldade em desmantelar a casta dos mafiosos.

No Brasil, para contrapor-se a um eventual código de silêncio, a nossa “Operação Lava Jato” obteve uma valiosíssima ajuda: a delação premiada, que, mais que um clube de alcaguetes, foi institucionalizada por lei específica, que lhe retirou o abominável caráter de “dedodurismo”, pois revertia em benefício do próprio delator a amenização de suas penas como espécie de prêmio, de compensação pela ajuda na elucidação de crimes, já que o colaborador é quem bem conhece a capacidade criminosa de seus próprios companheiros.

Quando Palocci, contrariando as previsões de Lula, e para salvar a própria pele, “despejou o saco” e contou com minúcias tudo o que sabia, Lula se espantou e, sem desmerecer a capacidade de Palocci, disse ao juiz Sérgio Moro que, como médico, o seu agora ex-companheiro, era frio, calculista e dissimulado, dando a entender que, pela própria profissão, todo médico deve ser frio, calculista e dissimulado, como um falso silogismo.

Abrindo um parêntese, explico: o: silogismo, tão empregado na filosofia, é uma argumentação lógica perfeita, constituída de três proposições declarativas que se conectam de tal modo que a partir das duas primeiras, chamadas premissas, é possível deduzir uma conclusão. Exemplo: “Todo homem é mortal; ora, Antônio é homem; logo, Antônio é mortal”.

Partindo desse pressuposto, Lula, sem querer, criou um silogismo, o que despertou a fúria da classe médica, que, pelas redes sociais, lembrou que o Programa “Mais Médicos” trouxe milhares de frios, calculistas e dissimulados para ajudar seu governo.

E houve manifestações enfurecidas, que me permito transcrever, tomando por empréstimo o que a classe médica postou e viralizou nas redes sociais:
“Lula: sou médico. E sim, sou frio.

Frio o bastante para não chorar quando vejo um recém-nascido morrer por falta de equipamentos e medicação nas UTIs.
Frio para não me descabelar frente a duzentas pessoas que entopem o pronto socorro logo pela manhã buscando desde uma palavra de apoio para suas crises existenciais até um procedimento que lhes salve a vida.

Frio para não sair correndo em desespero dos centros cirúrgicos onde falta sangue para a operação, onde o bisturi elétrico não funciona, onde a máquina de respiração artificial falha.

Frio para dar conforto e alento às famílias a que devo comunicar a morte do parente, do pai, do filho, que faleceram pela falta de recursos desviados por políticos e empresários inescrupulosos que se unem para, ´como nunca antes na história deste país´, assaltar os cofres públicos.

Também sou calculista.

Calculo as chances de morrer em um assalto tentando chegar ao trabalho.

Calculo as contas que não sei se irei pagar com meu salário, que sempre atrasa, isso quando sou pago.

Calculo a idade em que não mais irei me aposentar e se chegarei até lá com alguma saúde.

Calculo por quanto tempo mais poderei aguentar um plantão após o outro, quantas horas a mais além das habituais 60 por semana devo fazer para pagar a escola dos filhos, o aluguel da casa, a compra do mercado.

Sou também um dissimulado.

Finjo não ver o descalabro moral que invadiu o país.

Simulo estar contente com as condições que tenho para tratar das vidas que me são confiadas.

Engano-me acreditando que haverá uma luz no fim do túnel para a Medicina no Brasil.

Mas acima de tudo, sou médico, apesar de você, apesar do PT, apesar dos políticos que estão acabando com este país, eu vou levantar pela manhã e lutar com todas as minhas forças pelo bem de meus pacientes.

Estou livre para poder fazer isso até quando Deus o desejar.

Espero que pague por todo dano que fez a esta nação.

Então, de maneira calculista e com alguma dissimulação, a classe médica lhe diz: prepare-se, pois o frio o aguarda, Lula!"

É como diz a sabedoria do povo: quem fala o que quer ouve o que não quer.

*Liberato Póvoa