Opinião

O Brasil não é um país sério (Já perdemos nossa capacidade de nos indignar)

31/08/2017 09h52 | Atualizado em: 31/08/2017 09h55

web
Puseram indevidamente na boca de Charles de Gaule a frase “Le Brésil n’est pas un pays serieux” – “O Brasil não é um país sério”, que vem muito bem a calhar em certos momentos da história nacional. Embora tivesse ganho relevo por ter sido atribuída à figura mais respeitada da política francesa no século XX e reserva moral da velha democracia europeia, poderia ter sido dita sem receber contestação. O velho e narigudo estadista De Gaulle nunca disse que o Brasil não era um país sério. Na verdade, o autor da frase é o diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964.


Corria o ano de 1962 e o Brasil e França contendiam-se na conhecida ”Guerra da Lagosta” – conflito em que, tal qual a famosa Batalha de Itararé, não se disparou um tiro nem rolou uma gota de sangue. O casus belli girava em torno da captura de lagostas por parte de embarcações de pesca francesas, em águas territoriais brasileiras, mais precisamente no litoral de Pernambuco.


Alertado por pescadores brasileiros, a notícia chegou até o terceiro andar do Palácio do Planalto. O presidente João Goulart após reunião do Conselho de Segurança Nacional, mandou despachar para a região um formidável – se considerado o tamanho da ameaça – contingente da Esquadra Nacional, apoiado pela Força Aérea Brasileira. De Gaulle, por sua vez, convocou o embaixador brasileiro para uma conversa no Palácio do Eliseu, sede do governo francês.


O episódio serviu para a imprensa francesa lançar um desses debates que embalam a França. A lagosta anda ou nada? Caso nadasse poder-se-ia considerar que estava em águas internacionais; caso andasse, estaria em território brasileiro, uma vez que se admitia à época que o fundo do mar pertencia ao Brasil. No debate diplomático, a tese francesa, naturalmente, sustentava que a lagosta nadava. Sem contato com o leito oceânico, poderia ser considerada como peixe. Portanto passível de ser pescada legalmente pelos franceses. O almirante Paulo Moreira da Silva, especialista da Marinha contrapôs os franceses com um argumento singelo: se a lagosta fosse considerada peixe quando dá seus “pulos” se afastando do fundo submarino, então teria, da mesma maneira, que ser acatada a premissa do canguru ser uma ave, quando dá seus “saltos”.


Na noite que seguiu a conversa com De Gaulle, o embaixador Alves de Souza Filho foi convidado para uma festa na casa do presidente da Assembléia Nacional, Jacques Chaban-Delmas. Nota-se que a guerra não era tão séria assim. Na recepção, o embaixador foi interpelado por outro convidado brasileiro, o jornalista Luís Edgar de Andrade, correspondente do Jornal do Brasil em Paris. O correspondente inquiriu o embaixador a respeito da conversa com De Gaulle em particular e sobre o quadro geral da crise. Alves de Souza Filho sempre achou o governo brasileiro inábil no trato da questão a nível diplomático. Chegou a mencionar durante o papo o “Samba da Lagosta”, de Moreira da Silva, e arrematou a conversa informal com a famosa frase: “O Brasil não é um pais sério”. O embaixador Carlos Alves de Souza relatou o caso em seu livro “Um embaixador em tempos de crise” (Livraria Francisco Alves Editora, 1979):
“Provavelmente o jornalista telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com quem eu me avistara poucas horas antes desse nosso encontro casual. Luís Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. Mas a frase “pegou”. É evidente que, sendo hóspede do General De Gaulle, homem difícil, porém muito bem educado, ele, pela sua formação e temperamento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do Chefe da Missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações. A história está cheia desses equívocos”.


Mas, excluindo-se a polêmica expressão, o próprio brasileiro se encarrega de mostrar que, de fato, o Brasil não pode ser considerado um país que possa ser verbete no dicionário da seriedade.


Em 07/07/2011, no primeiro mandato de Dilma, Juan Arias, correspondente do jornal espanhol “El País” no Brasil, exclamou: “Que país é este, que junta milhões numa marcha gay; muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?”. Protestar como, se ele está certo?


E vamos aos fatos que o arrastam para o terreno das incongruências: um motorista do Senado ganha mais para dirigir um carro do que um oficial da Marinha para pilotar uma fragata; um ascensorista da Câmara dos Deputados ganha mais para manobrar os elevadores da Casa (que são automáticos) do que um oficial da Força Aérea que pilota um sofisticado caça de guerra; o responsável pela garagem do Senado, que não tem curso superior, ganha mais do que um general do Exército que comanda uma Região Militar; um diretor sem diretoria do Senado ganha o dobro de um professor universitário federal concursado, com mestrado, doutorado e prestígio internacional; um assessorzinho de terceiro nível de um deputado federal, que também tem esse título apenas para justificar seus ganhos, mas que não passa de um “aspone” (assessor de p* nenhuma), ou um reles entregador de correspondências, ganha mais do que um cientista-pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, com muitos anos de formado, que dedica seu tempo buscando curas e vacinas para salvar vidas; o SUS paga a um médico, por uma cirurgia cardíaca, com abertura de peito, a importância de 70 reais, bem menos que uma diarista cobra por um dia de faxina em um apartamento de dois quartos.


Precisamos de um choque de moralidade nos três Poderes da União, Estados e Municípios, acabando com os oportunismos e cabides de empregos, pois os resultados não justificam o número de senadores, deputados federais, estaduais e vereadores. E, o que é pior, nós é que botamos essa catervagem lá.


Com o quadro que se desenhou no cenário nacional, já perdemos nossa capacidade de nos indignar. Mas 2018 está chegando, e temos a oportunidade de fazer um “limpa”, evitando eleger e reeleger pilantras, nem mesmo em troca de dinheiro, pois, como dizia o impagável Barão de Itararé, “O homem que se vende recebe sempre bem mais do que merece”.
 

(Liberato Póvoa)