Opinião

Pensei que só o Executivo, o Legislativo e o Judiciário extrapolassem nos gastos com mordomias. Mas o Tribunal de Contas... quem diria!

22/08/2017 09h59 | Atualizado em: 22/08/2017 10h05

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Meus amigos, se um dia me encontrarem espichado, vítima de um infarto fulminante, não estranhem: esta situação política, em que a vergonha perdeu o seu significado, a falta de patriotismo e a mudança de conceitos pode levar qualquer um homem de bem à cova, justamente pelo fato de não se poder fazer absolutamente nada: nossos chamados representantes preocupam-se apenas em locupletar-se com nossos impostos; os membros do Executivo, em forjar licitações para fazer de conta que constroem alguma coisa, e o Judiciário, atolado em uma crise de credibilidade abissal simplesmente deixam-nos reféns dos Barbalhos, Padilhas, Jucás e Moreiras Francos, que manobram as cordinhas deste teatro de marionetes.


O brasileiro macho, corajoso e patriota foi sepultado junto com Manuel e Tomás Beckman em 1620, no Maranhão, na chamada “Revolta dos Beckman” por terem-se rebelado contra os desmandos de um Portugal opressor.


O brasileiro ousado foi esquartejado junto com Filipe dos Santos na ‘Revolta de Vila Rica’, em 15 de julho de 1720, por ter lutado pela redução de vários tributos, a diminuição das custas processuais, abolição dos monopólios comerciais do gado, fumo, aguardente e sal e fim das casas de fundição.


O verdadeiro brasileiro, que amava sua terra, foi enforcado no Largo da Lampadosa, no centro do Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792, por ter lutado por razões bem mais frágeis do que as que ocorrem hoje neste Brasil de inédito desgoverno, e crescente imoralidade, quando se escolhem os próprios juízes para julgá-los, conforme a conveniência da hora; quando se presenteiam aberta e sencerimoniosamente com verbas, cargos e benesses por baixo do pano aqueles que irão decidir o destino de quem eles próprios irão julgar.


Está faltando no brasileiro a garra de um frei Caneca, que, após liderar a Revolução Pernambucana e a Confederação do Equador (1824), foi arcabuzado no Recife em 13 de janeiro de 1825, após a recusa de três carrascos em enforcá-lo. Naquela época, não havia a facilidade das comunicações de hoje, e tudo andava no lombo de burros, e, só para ilustrar, a notícia da abolição da escravatura só chegou a Goiás/Tocantins mais de um ano depois de assinada a Lei Áurea. Ainda assim, os patriotas conseguiam comunicar-se, reunir-se e organizar-se, só sendo desbaratados por motivo de traições e delações dos próprios companheiros, tentados pelo dinheiro ou pelo perdão de dívidas, ou de agentes infiltrados. Embora só há pouco regulamentada, a delação premiada já era praticada naquela época, mas sem a amplitude de hoje, pois o próprio Silvério dos Reis, depois de delatar seus companheiros de conjura ainda amargou dois anos de prisão na Ilha das Cobras (bem diferente dos açougueiros de Anápolis, que foram perdoados e até vacinados contra futuras acusações).

Com as redes sociais mais ativas do que nunca, onde está a capacidade do brasileiro de mobilizar-se? Hoje, temos WhatsApp, e-mails, Instagran e outras ferramentas poderosíssimas de mobilização, mas ninguém faz nada, talvez temendo uma forca que não existe mais; talvez receando perder as mamatas que conseguiu nas tetas do Governo, mesmo sabendo que a lei e a Justiça são – como dizia Sólon há mais de 2.500 anos – como teias de aranha: só capturam os insetos pequenos, porque os grandes as arrebentam.


Está-se discutindo no momento o tal fundo partidário, que vai sugar de nossos impostos nada menos que seis bilhões e seiscentos milhões de reais unicamente para que os vagabundos do Congresso se elejam e se reelejam para continuarem sua farra às custas do assalariado, que recebe no fim do mês muito menos que o tal auxílio-reclusão, que é pago exatamente a quem não trabalha.


Agora, a mídia estampou que ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) passam até um terço do ano viajando com dinheiro público.


Como órgão responsável pela fiscalização dos gastos do governo federal, aquela Corte de Contas tem funcionado como espécie de agência de viagens para os seus ministros, numa média de quarenta e um dias por ano viajando. No ano em curso, nestes menos de 250 dias, o presidente do TCU, ministro Aroldo Cedraz, esteve 61 dias viajando, 93% para o exterior, consumindo 72 mil em diárias e passagens, passando 11 dias nas Bahamas, 17 em Lisboa, 13 em Viena, 12 em Amsterdã e quatro em Bogotá. O período em que esteve na Holanda, por 12 dias, era para um evento da ONU, que durou um único dia. Resumindo, o comandante do órgão, que poderíamos chamar de “Tribunal Faz de Conta”, que deveria fiscalizar os órgãos federais, esteve viajando ao exterior, apenas nos últimos dois anos e meio, nada menos que 171 dias.


Mas parece que um ensina o outro as malandragens: o ministro Augusto Nardes, que antecedeu Cedraz nas presidência do TCU, foi o que mais viajou desde 2015. De lá para cá, foram 264 dias fora de Brasília, quase nove meses, mais de 73% do ano. Ele passou por 11 países nos últimos 30 meses. Apenas neste ano, Nardes esteve fora 50 dias. Desses, 20 no exterior. Nos Estados Unidos, o ministro ficou 14 dias para um congresso na Universidade da Pensilvânia que durou dois dias. Ele alega que houve erro de digitação e que o evento durou cinco dias. Na Armênia, foram nove dias para um congresso de apenas três.


Já o ministro Bruno Dantas ficou 15 dias em Roma em julho. Em 2016 passou dois meses inteiros nos Estados Unidos para fazer um curso bancado pelo tribunal ao custo de R$ 139 mil. Em 2015, ficou um mês lá para um curso de R$ 80 mil. Para que o amigo leitor se assombre ainda mais, basta dizer que Bruno Dantas, indicado pelo Senado, tomou posse no TCU com 36 anos e vai ficar mamando na Corte de Contas até o ano de 2053, quando completara 75 anos.


O TCU informou que os ministros viajam para cumprir missões oficiais ou treinamentos, por designação do presidente da Corte, levando em conta o interesse público.


Será que os ministros rodam esse mundo inteiro, às nossas custas, para fiscalizar as embaixadas? Duvi-d-o-do.


No momento em que vemos o próprio órgão fiscalizador, que tem quase metade de seus ministros encalacrados com a Justiça, temos que nos desanimar. Estão investigados Augusto Nardes, por suposto pagamento de propina na Operação Zelotes; o ministro Raimundo Carreiro, atual presidente, é investigado em inquérito aberto no STF para apurar acusações feitas pelo empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC; ministro Vital do Rêgo, mais novo integrante do TCU e ex-senador pelo PMDB, formalmente investigado no STF desde junho deste ano por suspeita de compra de votos e o ministro Augusto Nardes, por tráfico de influência, dentre outros delitos.


Antes eu pugnava pelo fechamento do Congresso, de quase todas as Cortes do Judiciário e do Palácio do Planalto. Agora, por falta de quem fiscalize os próprios fiscais, que se feche o TCU, que não nos fará a menor falta.
 

(Liberato Póvoa)