Opinião

Rosivaldo Bruno sumiu

03/07/2017 10h47 | Atualizado em: 03/07/2017 10h50

Divulgação
Durante o terceiro governo Siqueira Campos (2003/2007), um caso muito estranho ocorreu, relacionado com denúncias de irregularidades na Secretaria da Educação. O eletrotécnico Rosivaldo Bruno de Sousa, 39 anos, foi contratado para trabalhar na secretaria de Educação e Cultura, na gestão da hoje deputada Dorinha Seabra, que dirigiu aquela secretaria de 2000 a 2009. Rosivaldo desapareceu misteriosamente quando trabalhava na Ilha do Bananal, região sudoeste do Tocantins, no dia 18 de setembro de 2004.

Segundo foi divulgado na época, o veículo em que ele e outros dois servidores viajavam, um Fiat Uno, teria atolado no areião, e o eletrotécnico, então, saiu em busca de ajuda para desatolar o veículo e não voltou mais. A equipe tinha viajado àquela região a fim de desenvolver um trabalho junto a escolas indígenas. Esse fato foi amplamente divulgado pela imprensa tocantinense, uma vez que, dias antes, Bruno havia entregue um relatório à secretaria da Educação apontando suspeita de fraude em notas fiscais emitidas pelo escritório de representação da secretaria em São Félix do Araguaia (MT). Não se sabe ao certo o teor dessas suspeitas, até mesmo porque as circunstâncias que envolvem o caso até agora não foram devidamente esclarecidas.
Os familiares da vítima chegaram a suspeitar que Rosivaldo tenha sido vítima de uma emboscada, em razão das denúncias de possíveis fraudes na educação do Estado.

Um dos que sustentam a tese de emboscada é o seu próprio irmão, o policial alagoano José Roniere Bruno de Souza. Ele acompanhou as buscas no Tocantins e não acredita que o irmão tenha se perdido, já que era acostumado a desatolar caminhonetes e, portanto, soa estranho não ter conseguido desatolar um Fiat Uno, ainda mais sendo acompanhado de outras duas pessoas. Os familiares ainda alegam que houve omissão por parte da secretaria da Educação em relação ao caso, com as denúncias feitas, quanto com o desaparecimento do servidor.

A família só foi avisada do ocorrido no dia 22, ou seja, cinco dias após o desaparecimento, e ainda assim porque uma irmã da vítima ligou na secretaria em busca de informação. Ainda conforme os familiares, a ocorrência também só foi registrada na delegacia nesse mesmo dia, e a Secretaria só se manifestou oficialmente 19 dias depois, após familiares e amigos promoverem um ato público em Palmas. O que também chamou a atenção da família foi o fato de a aliança, o celular, a carteira com os documentos e mais R$ 1.200,00 do servidor terem sido devolvidos. A versão dos companheiros é de que Rosivaldo os teria deixado dentro do carro ao sair em busca de ajuda.

Além de toda essa confusão, surgiram outras versões, como a que dava conta de que o servidor teria sido devorado por onças.

O maior problema é que, decorrido tanto tempo desse misterioso desaparecimento, a população tocanti¬nense e, sobretudo, os servidores da Educação, os amigos e os familiares do desaparecido continuam sem qualquer resposta. Não se sabe o que aconteceu. É tudo uma incógnita. Justamente para evitar que o caso viesse a cair no esquecimento, como tantos outros, o então deputado federal Ronaldo Dimas (PSDB-TO), hoje prefeito de Araguaína, fez a denún¬cia publicamente na tribuna da Câmara e enviou à secretaria de Segurança Pública ofício solicitando informações a respeito, dizendo que, apesar de as investigações correrem sob sigilo, o caso estava sendo acompanhado pelos Direitos Humanos e que, inclusive, foi passado às mãos do ministro da Justiça da época, Márcio Thomaz Bastos.

O policial alagoano José Roniere Bruno de Souza, irmão de Rosivaldo Bruno, confirmou que a Polí¬cia Federal entrou no caso, ao ouvir o depoimento de sua irmã Raqueline, em Palmas. Segundo Roniere, as buscas pararam na região onde seu irmão desaparecera.

Ele acompanhou as buscas no Tocantins e não acredita que tenha se perdido. “Lá tem uma fazenda a cada três quilômetros”. Roniere reafirmou que Bruno era acostumado a desatolar caminhonetes e estranha ele não ter conseguido, com mais duas pessoas, desatolar um Uno.

Outro fato que chamou a atenção da família é que a aliança de Bruno, o celular, a carteira com os documentos e mais R$ 1.200 foram devolvidos. Teriam ficado no carro, segundo a versão dos acompanhantes. “Como uma pessoa sai para buscar ajuda e deixa os documentos, o celular e a aliança? Acho que o Bruno foi atraído para uma emboscada”, disse Roniere.

Na época, a família aproveitou a presença do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, no Estado do Tocantins e entregou um dossiê do caso, com cópia do relatório onde Bruno denunciava o desvio de recursos e um pedido de apoio ao ministério da Justiça na apuração do estranho desaparecimento. De acordo com os familiares de Rosivaldo Bruno, houve omissão por parte da secretaria da Educação em relação ao caso, tanto com as denúncias feitas, quanto ao seu desaparecimento. O caso foi denunciado exaustivamente pelo jornal “Gazeta de Alagoas” de 30 de outubro e 5 de novembro de 2004 e pelo “Jornal da Mídia” de 05 de novembro de 2004.

Raqueline diz ainda que “a secretária de Educação do Estado só se manifestou oficialmente sobre o caso 19 dias depois, porque familiares e amigos promoveram um ato público em frente à sede da Secretaria, em Palmas, denunciando a omissão”. Mesmo assim, na sua opinião, a secretária parece mais preocupada em se defender da denúncia de notas frias do que com o desaparecimento do seu irmão. Ela diz ainda que o governo chegou a advertir e punir servidores que participaram do ato público.

Mais um caso abafado, que entrou na conta dos mistérios indecifráveis do Tocantins.