Opinião

Taquaruçu está proibido de garantir o último desejo a seus mortos

02/03/2017 22h39 | Atualizado em: 02/03/2017 22h42

Até velório de jornalista gera pauta, e não poderia ser diferente na despedida do mestre Iberê Barroso, nessa quarta-feira, 1º. Ele se foi sem as honras à sua altura, pelo muito que fez pelo Estado que adotou com amor e ao qual dedicou as últimas décadas de vida. O Brasil e nós, tocantinenses, precisamos aprender a dar valor às pessoas que merecem e deixar de ser claque de gente que não faz jus a qualquer homenagem. Hoje há uma completa inversão.

Não estamos falando de qualquer pessoa, mas de alguém que, pelo refinamento, ajudou a alta cúpula deste Estado até a aprender a se vestir adequadamente. Um profissional que, além da imensurável contribuição em favor do Tocantins, levou não um, mas dois prêmios Esso de jornalismo, por produzir reportagens magníficas, e que carrega em seu currículo a honra de ter passado pelo combatente Pasquim e pelo tradicionalíssimo Jornal do Brasil. Se não fosse isso o suficiente, ainda se trata de um ser humano amado por todos que tiveram o privilégio de conviver com ele.

Mas se a falta de reconhecimento não bastasse, também quiseram lhe negar o último desejo: ser sepultado sob um pé de pequi no cemitério de Taquaruçu, distrito que amava profundamente. “Taquaruçu pra mim é tudo, tudo”, afirmou em entrevista concedida há dez anos.

Até agora ninguém consegue entender o motivo de o cidadão daquele distrito parasidíaco estar impedido de ser sepultado onde viveu por décadas pelo “crime" de ganhar pouco mais de dois salários mínimos. Acredite: existe uma legislação estúpida que impede que o cemitério de Taquaruçu receba seus moradores que ganhem mais de R$ 1.874. Acima desse teto, a família tem que sepultar o ente querido nos cemitérios da Capital.

Mesmo que a família queira pagar, não é possível, não existe outra alternativa. Ou se é bem pobre, ou necessariamente tem que vir para a sede do município fazer o sepultamento. Qual a lógica disso?

Taquaruçu é lugar de gente tradicional, que ama aquele pedaço de chão abençoado da nossa Capital. Famílias vivem lá há décadas e as pessoas sonham em terminar a vida e continuarem por lá mesmo, quando seus corpos descansarem numa sepultura. Contudo, os burocratas decidiram pela comunidade que ela não tem esse direito.

A questão é que ninguém sabe exatamente o porquê dessa aberração legal. Ninguém até agora conseguiu dar uma explicação plausível. Amigos de Iberê e o padre Aderso Alves dos Santos, responsável pela solenidade religiosa de despedida do jornalista, ainda buscamos uma luz. Inclusive, o padre, ex-pároco de Taquaruçu, contou que é rotineiro filhos do distrito serem barrados pela administração municipal quando de seu falecimento, uma ação, diga-se, sobretudo covarde, porque é movida contra a família no seu momento de maior fragilidade, da mais profunda dor.

Levantamos três hipóteses tão aberrantes como a própria legislação para explicar essa situação humilhante que enfrentam os moradores de Taquaruçu, mas, diante do absurdo, tão factíveis quanto:

1) Seria por briga entre os coronéis da política local. Assim, se o morto e sua família são aliados de alguém do Poder têm direito pleno ao sepultamento, caso contrário não;

2) Partiria de quem tem interesse econômico direto no negócio da morte. Se for isso, seria explorar de forma extremada a dor de seres humanos em seu pior momento, o que daria ao quadro nuances ainda mais terríveis, e nos levaria a perguntar como o Poder Público permite a ação desses abutres;

3) Capricho de engravatados que gostam do ar-condicionado, curtem a vida com seus ricos salários e têm na dor mero objeto de estudo distante, para teses e dissertações. Então, criam regras totalmente desconectadas da dura realidade fora de seus Olimpos.

Uma dessas teses, podem estar certos, por mais absurda que possa parecer, é verdadeira.

De toda forma, o secretário municipal de Desenvolvimento Social, José Geraldo, que assumiu o cargo há apenas 15 dias, disse que o debate surgido a partir do sepultamento do jornalista Iberê Barroso serviu para alertar sobre o problema, que, admitiu à coluna, precisa ser resolvido imediatamente. Zé Geraldo contou já ter iniciado os estudos sobre o caso.

Não só a prefeitura deve agir, mas, sobretudo, a Câmara, a quem cabe elaborar leis justas e de acordo com a realidade daqueles que representa. Ou Taquaruçu só serve para os vereadores na hora de buscarem votos?

Não dá mais para que famílias continuem sendo humilhadas, como testemunhamos nessa quarta-feira, para atender sejam lá quais interesses ou caprichos. Inicialmente pensei até que o problema fosse falta de espaço no cemitério, mas não é. Tem muito espaço. Mais que isso: são realizados em Taquaruçu apenas 15 sepultamentos, em média, por ano, o que só confirma que o problema é realmente uma das hipóteses elencadas nesta coluna.

Depois de tanta humilhação, Iberê descansa sob o pé de pequi no Cemitério de Taquaruçu. Para alegrar seu espírito, pelo menos o carioca da Lapa pôde sorrir ao final do dia após a sua Portela, escola pela qual desfilou no carnaval do Rio por 30 anos consecutivos, ter se sagrado campeã de 2017. Afinal, a vida não é feita só de tristezas.

CT, Palmas, 2 de março de 2017.