Opinião

A maldita presidência da Câmara

16/02/2017 10h52 | Atualizado em: 16/02/2017 10h56

O jornalista Luiz Cláudio Cunha certa época publicou na revista “Istoé” de 16/02/2005, interessante matéria intitulada “A Maldição da Cadeira”, que comentava sobre o infortúnio dos últimos ocupantes da cadeira presidencial da Câmara dos Deputados, e procuro trazê-la aos leitores com minhas palavras.

Tinha dado “zebra” na eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados. O bigo¬dudo candidato chapa-branca, o petista Luiz Eduardo Greenhalgh, enfrentou quatro competi¬dores, dentre os quais um dissidente do próprio PT, que deu a sensação de um racha intramuros. E, com o apoio ostensivo do Planalto, tripudiou sobre os adversários e esqueceu-se de um nordestino que corria por fora e que, por descuido, não foi sufici¬entemente policiado: Severino Cavalcante, que surpreendeu com acachapante vitória em cima do Governo.

Mas por que a Presidência da Câmara é mais importante do que a do Senado e do Congresso, de que faz parte a própria Câmara, se Renan Calheiros certa vez foi eleito, sem contestação, como candidato único à Presidência do Senado?
Como se sabe, a Presidência da Câmara é o terceiro cargo mais importante do País, pois, impedido o Vice-Presidente da República, ele é quem se senta na cadeira presidencial.

Existem os atrativos e as mordomias do cargo, pois tem poderosa caneta para administrar alguns bilhões de seu orçamento, lidera quase 600 Deputados, quase 18.000 servidores, inumeráveis cargos de nomeação e demissão “ad nutum”, além de ficar na posição de receber pedidos, e nunca ordens, inclusive do chefe da Nação.

Mas o cargo parece que carrega uma grande maldição de uns tempos para cá: embora seja a antessala dos gabinetes mais sofisticados do poder, a grande maioria dos ocupantes pós-ditadura amargou decepções, pois só Aécio Neves conseguiu alçar vôo rumo a um cargo compensador – governador de Minas e depois senador. Mas em 2014 quando contava ir para a presidência da República, foi derrotado pela mãe do bolsa-família numa apertada disputa, que parece ter vindo de urnas devidamente programadas pelo petista Dias Toffoli.

Flávio Marcílio, que presidiu a Câmara de 1983 a 1985, acabou derrotado na vice de Maluf no Colégio Eleitoral, encerrando melancolicamente sua carreira.
Ulisses Guimarães, o “Senhor Diretas”, que conduziu com sucesso a histórica campanha, não conseguiu mais do que 4% dos votos na eleição presidencial de 1989, apesar de seu incontestável prestígio. Acabou sucumbindo em um acidente de helicóptero em 1982.

Paes de Andrade, que ocupou zarolhamente várias vezes a presidência da República na ausência do titu¬lar no período de 1989-1991, deliciou-se com o poder, a ponto de lotar o avião presi¬dencial, o famoso “Sucatão”, e aterrissar na sua cidadezinha cearense de Mombaça, curtindo breves momentos de celebridade. Mas nunca mais conseguiu gás para turbi¬nar sua carreira política, empoleirando-se num cargo de embaixador, pois a política tinha desertado de sua vida.

Veio depois Ibsen Pinheiro, no conturbado período Collor, que chegou a ser acenado para o caminho do Planalto, mas os sete anões acabaram com seu sonho de Branca de Neve, sendo, talvez injustamente, crucificado pela imprensa. E nunca mais conseguiu andar com as próprias pernas.

Inocêncio de Oliveira, que esteve no comando da Câmara no biênio 1993-1995, até que ia bem, mesmo com sua gagueira, mas foi atropelado por denúncias, sendo conhecido pela ajuda recebida do departamento que cavava poços no Nordeste e pela notícia de escravização de trabalhadores. Acabou afogado na água de seus poços, e para obter a alforria que não dera a seus escravos, mudou de partido, saindo daquele que ele próprio ajudara a fundar, aninhando-se em outra sigla, na esperança de mais espaço.

Na sombra de seu então todo-poderoso pai, ACM, aportou na Presidência da Câmara em 1995 o promissor deputado Luiz Eduardo Magalhães, que foi tragado por súbita síncope antes de alçar vôo para o Planalto, com escala no Palácio de Ondina, como Governador da Bahia. Era uma esperança, mas, contrariando o ditado, morreu cedo.

Mas ocupante de cargo de mando é como pau de porteira: não há insubstituíveis, e o então insubstituível Luiz Eduardo Magalhães teve como sucessor o jurista Michel Temer; já em 1997, parecia que ia tomar prumo, desmistificando a maldição da cadeira: quase chegou a ministro na época, foi cogitado para ser vice de Marta Suplicy na Prefeitura paulistana, mas foi derrotado na outra vice, a de Luíza Erundina. E virou um vice perpétuo de Dilma, cujo lugar ocupa, em razão do “impeachment”, mas, juridicamente pode perdê-lo por decisão do TSE, apesar dos malabarismos de Gilmar Mendes em tentar fatiar o processo para livrá-lo da foice e alcançar apenas Dilma, já que o fatiamento virou moda no Judiciário.

Depois, encerrando o mandato, chegou ao palco da Câmara o deputado João Paulo Cunha, que saiu do cargo presidencial para acabar respondendo à famosa Ação Penal 470, a do chamado “mensalão”. Acabaria atrás das grades, pela vontade do ministro Joaquim Barbosa (depois, libertado pela vontade dos outros).

Em 2005, como se viu, Severino Cavalcanti concorreu à presidência da Câmara dos Deputados, embora se acreditasse que o candidato oficial do Governo Lula, Luís Eduardo Greenhalgh, seria o vencedor, mas a crise interna pela qual o governo passava levou à vitória de Severino Cavalcanti, cuja candidatura era considerada menos expressiva.

O desacreditado nordestino Severino Cavalcante, que deu tremenda surra no Governo, acabou renunciando ao mandato, contentando-se em ser prefeito de João Alfredo-PE, sua cidade natal. Aos 82 anos e com a ficha suja até 2015, encerrou seu mandato de prefeito sem pagar salários aos servidores, devendo a fornecedores e sob denúncias de sucateamento de equipamentos públicos.

A matéria do jornalista Luiz Cláudio Cunha foi publicada em 2005, e depois disso é que vieram Marco Maia, Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha.
Depois de Temer, que veio após Severino, chegou ali Marco Maia e, pra variar, investigado, como está sendo o seu sucessor, Henrique Eduardo Alves, defenestrado do cargo por razões de envolvimento com a Lava Jato e sua carreira política empacou, pois não conseguiu eleger-se governador do seu estado potiguar.

E sucedeu-o no cargo justamente o mais famoso presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cuja atuação dispensa comentários, estando hoje hospedado no complexo penitenciário de Curitiba, não sem antes deixar de mencionar seu vice, Valdir Maranhão, que só fez trapalhadas na interinidade.

Com isto, e com as garras da Lava Jato e as delações premiadas de empresas pouco ortodoxas alcançando todo mundo e colocando até Temer na dança da roda, é prudente Rodrigo Maia ir botando suas barbas de molho, pois parece que a maldição da cadeira não costuma poupar ninguém.

(Publicado originalmente no “Diário da Manhã” de 16/02/2017)