Opinião

O enfermo Tocantins numa mesa de operação

30/11/2016 17h11 | Atualizado em: 30/11/2016 17h15

Foto: Reprodução Internet
Liberato Póvoa
liberatopovoa@uol.com.br
(Desembargador aposentado do TJ-TO,
Membro-fundador da Academia Tocantinense
de Letras e da Academia Dianopolina de Letras,
Membro da Associação Goiana de Imprensa
(AGI), escritor, jurista, historiador e advogado)

Como filho da nossa terrinha xerente, que lutou para ver o Tocantins despontar como uma esperança, confesso que estou profundamente decepcionado, não com o Estado, mas com uma corja de aproveitadores que nem daqui são, que nunca tiveram um fiapo de compromisso com o nosso progresso, uma nesguinha de dignidade para emprestar ao nosso torrão, e despontam com o rompante de gente de alto coturno, deixando os naturais da terra escanteados como párias e imprestáveis, apesar de termos muita gente valorosa, inteligente, criativa e empreendedoras.

O Tocantins já nasceu fadado a ser representado por estranhos. Iniciou sua vida embalado por quem - justiça seja feita! - contribuiu para coroar de êxito sua luta separatista: Siqueira Campos. Cearense do Crato, fez um imenso trabalho para viabilizar o novo Estado. Mas, apesar de haver pessoas competentes deste rincão, valeu-se de forasteiros para formar sua equipe, e seu primeiro escalão teve apenas Antônio Coelho dos Santos (secretário da Saúde), Mário Bezerra Cavalcante (advogado-geral do Estado) e Adão Bonfim Bezerra (procurador-geral de Justiça) como tocantinenses no governo.

O segundo governo, de Moisés Avelino, que também veio do Nordeste (Piauí), até procurou prestigiar o Estado, colocando no seu primeiro escalão mais tocantinenses que o primeiro mandatário: Ivan de Souza Coelho, Júlio Resplande, Anntônio Luiz Coelho e poucos outros.

Mas a sina continua: nos seus vinte e oito anos de existência, o Tocantins só foi governado, efemeramente, por um tocantinense (Raimundo Boi) por apenas nove meses, completando mandato, como vice de Siqueira Campos.
Excluindo-se Moisés Avelino e outros de curto mandato (Carlos Gaguim e Sandoval Cardoso, eleitos indiretamente pela Assembleia), o Estado só esteve nas mãos de duas pessoas: Siqueira Campos (quatro vezes) e Marcelo Miranda (três vezes).
Siqueira, que, a exemplo do coronel Heráclio, de Limoeiro-PE, mandando no céu, na terra e no ar, tornou-se um ícone, espécie de mito intocável e – justiça seja feita! – foi um tocador de obras e incansável batalhador, mas governou, em seus vários mandatos, como se o Tocantins fosse propriedade sua, e daí ter divinizado Theotônio Segurado, que também queria criar uma Província, não por amor à independência, mas para ser governada como feudo seu.
Marcelo Miranda, por quem sempre tive apreço como pessoa, teve o Tocantins sob sua rédea por três mandatos. Também não é tocantinense, apesar de ter sido criado em Araguaína. Mas, no momento, isto não vem ao caso.
Pelo andar da carruagem, e, estando fora dos pagos tocantinenses, venho observando que, neste nosso Brasilzão corrompido, nosso Estado ultimamente vem dando sua parcela de colaboração. Com este surto popular pela moralização, previ, desde muito tempo, que a febre de operações da Polícia Federal muito em breve iria esquentar o termômetro no Tocantins.
Dito e feito: em outubro - era muito previsível! - a Polícia Federal, desencadeou a “Operação Ápia”, que começou a desmistificar figuras outrora semideuses no nosso Estado. Quem imaginaria que o intocável ex-governador Siqueira Campos, que se atribuía a criação do Estado e era notoriamente temido, fosse conduzido coercitivamente para depor? E que o um ex-governador (Sandoval Cardoso) ficasse vários dias preso?

A Polícia Federal realizou no último dia 13 de outubro a “Operação Ápia”, para desarticular uma organização criminosa que, fraudando licitações públicas e a execução de contratos administrativos para terraplanagem e pavimentação asfáltica em rodovias estaduais, sugava o Erário, numa versão por enquanto mais acanhada do “Petrolão”, suspeitando-se que o grupo tenha desviado muitos milhões, que deveriam estar sendo empregados na saúde, na educação, na segurança e outras

Em artigo publicado em Goiânia, no “Diário da Manhã” (pois, salvo “O Jornal” e o blog do amigo Álvaro Vallim, ninguém se atreve a me conceder espaço), indaguei, logo após a “Operação Ápia”, quase que profeticamente: “Será que os ex-governadores escapam desta?”.

Não deu outra: depois de aquela operação botar atrás das grades um bando de pilantras que mamavam (e ainda mamam) nas tetas do governo, surge a “Operação Reis do Gado”, como que dando continuidade à anterior, e com a agravante de chamar às falas muito mais gente que a “Ápia”, incluindo as mais ilustradas figuras, mostrando, por outra banda, que vivemos à sombra de um imenso laranjal.

Mas é bom mesmo que se passe um “pente fino” no nosso Estado, que, nessas menos de três décadas de criação, está servindo mesmo é de meio de enriquecimento ilícito, com políticos aventureiros e empresários inescrupulosos, sem qualquer raiz na nossa terra, que visam mesmo é assaltar nosso Erário e semear a corrupção, aumentando inexplicavelmente seu patrimônio.

Se a cada dia surge um novo escândalo, é importante que se impeça que continuem a tomar de assalto nossa terra, dando um breque, inclusive, na formação de novas oligarquias, como se vê por aí na intenção de certos políticos em plena decadência: no Senado – não é segredo – temos senadores elegendo filhos para se perpetuarem no poder, mas isto tem que acabar, pois não somos defunto sem choro e, sem fanática xenofobia, precisamos reagir.

A operação veio quebrar um mito, algo inconcebível: conduziu coercitivamente para depor o ex-governador Siqueira Campos, tido como um mito, uma espécie de lenda no Estado, além de prender temporariamente o ex-governador Sandoval Cardoso, um interino que ocupou o Araguaia no mais curto mandato da nossa história estadual.

Será que aquela “Operação Ápia” iria ater-se apenas ao mandato de Sandoval? Se o ex-governador Sandoval, que foi mandatário no período de 4 de abril de 2014 a 1º de janeiro de 2015, tem contas a prestar à Justiça, que se dirá dos demais governantes? Sabe-se que Siqueira Campos governou durante mais da metade do tempo de criação do Tocantins; Marcelo Miranda, quase 10 anos; Moisés Avelino, quatro anos; Carlos Gaguim, pouco mais de um ano, e o restante do tempo de governo foi distribuído por Raimundo Boi e Sandoval Cardoso.

Quando estourou a “Operação Reis do Gado”, ampliou-se o leque da corrupção, deixando o tocantinense de bem boquiaberto com a desfaçatez com que agia a numerosa quadrilha que nos assalta.

Publicações de 2012 já noticiavam que ex-governadores “faziam a farra” com dinheiro público desde 2002, mostrando que o monitoramento vem de muito tempo. É de se prever que essas duas operações venham pegar todo mundo, pois certamente os presos tidos como “testas-de-ferro” de governadores irão negociar uma delação premiada. Todo mundo está com as barbas de molho, pois esta operação está com o sabor da ponta de um “iceberg”.
A situação do nosso Estado não é boa, como, de resto, não é boa a de ninguém, mas virão a furo os superfaturamentos, as obras pagas e não realizadas, as indefectíveis propinas travestidas em doações de campanha.

No bojo desta “Operação Rei do Gado”, muita coisa vai aparecer, mesmo porque é público e notório que a prática usual dos políticos tocantinenses, de prefeitos ao mais alto escalão do Executivo (e dizem que até do Judiciário), é terem fazendas no Pará, onde escondem a dinheirama suja que recebem nas generosas propinas, e as investigações desta operação dirigem-se também a vários municípios paraenses, onde justamente se esconde o eldorado dos políticos fazendeiros.
Enquanto isso, tramitam no Supremo Tribunal Federal inquéritos e ações penais contra parlamentares do nosso Estado, que nos deixam com a cara no chão, mas infelizmente estão acobertados por uma desgraça constitucional que se chama privilégio de foro. O leitor, ao consultar o site do STF, vai deparar-se, por enquanto, com o Inquérito 4076 (corrupção passiva e lavagem de dinheiro), Inquérito 3611 (peculato, falsidade ideológica e corrupção passiva), Inquérito 3989 (lavagem de dinheiro, corrupção passiva e formação de quadrilha, na Operação Lava Jato), Inquérito 3581 (peculato), Inquérito 3789 (crimes da Lei de Licitações), Ação Penal 915 (peculato), Ação Penal 946 (peculato) e Ação Penal 962 (peculato e crimes da Lei de Licitações). É muita sujeira para um estado tão novo, que, dos oito deputados federais, cinco estão sendo investigados e/ou processados.

Mas é bom observar-se que nenhum dos investigados e processados é tocantinense. Para satisfazer a curiosidade, basta o leitor pesquisar pelos processos e conferir seus nomes e compreenderá porque ficaram ricos, como num passe de mágica diante dos olhos compassivos de uma paralítica Receita Federal. Mas, com essas operações em andamento, é certo que o braço da lei os alcançará, para não só serem punidos, mas principalmente devolverem ao Estado, com juros e correção monetária todo o produto do assalto.

Bem-vinda, Polícia Federal, pois como cirurgiã, deve saber mais do que ninguém, que o Tocantins, internado num hospital de doenças epidêmicas, precisa de mais operações para se salvar.