Opinião

A política, a “Operação Ápia” no Tocantins e o derrubar de mitos

24/11/2016 11h02 | Atualizado em: 24/11/2016 11h06

Foto: Reprodução Internet
Liberato Póvoa
Liberato Póvoa
liberatopovoa@uol.com.br
(Desembargador aposentado do TJ-TO,
Membro-fundador da Academia Tocantinense
de Letras e da Academia Dianopolina de Letras,
Membro da Associação Goiana de Imprensa
(AGI), escritor, jurista, historiador e advogado)

Pelo que sempre escrevi, e para quem me conhece, todos sabem que fui magistrado, nomeado por concurso, e sem precisar de pedir favor a ninguém, cheguei ao Tribunal de Justiça do Tocantins com menos de um ano de nomeado juiz, sem fazer vênia a político nenhum, pois, segundo eu soube, o governador eleito em 1988, Siqueira Campos, logo que sufragado nas urnas, encomendou ao seu vice-governador, Darci Martins Coelho, tocantinense e ex-juiz federal, uma rigorosa pesquisa dentre os juízes do recém-criado Tocantins, para escolher os primeiros desembargadores para compor o tribunal.

Assim, quando menos esperei, fui surpreendido com a nomeação para desembargador. Como não conhecia Siqueira Campos e nunca conversara com ele a respeito do assunto, não lhe devo favor algum, pois minha nomeação decorreu de pesquisa aparentemente apolítica, e no Tribunal fui vice-presidente, corregedor de Justiça e presidente, creio que por meus próprios méritos, chegando a governar o Estado por uns dias.

Mas a política, como sempre, interferiu desde o início, pois Siqueira Campos, que podia constitucionalmente nomear juízes e desembargadores de Goiás para compor nossa Corte, preteriu nomes de peso, como Pedro Soares Correia, Júlio Resplande de Araújo e Renan de Arimatéa Pereira, que seguramente iriam formar um tribunal mais experiente; não sei o porquê da preterição de Pedro Soares Correia, tocantinense de Itacajá, mas a de Júlio Resplande deveu-se a um episódio que levou Siqueira à prisão lá nos longínquos anos sessenta, quando Resplande simplesmente fez cumprir a lei, e Renan, por ser filho do líder de Tocantinópolis Antônio Gomes Pereira, o ilibado ex-prefeito conhecido por “Seo” Pereira, que era desafeto político do novo mandatário.

Muito depois, já governador pela segunda vez, como que arrependido, Siqueira nomeou Renan chefe da Casa Civil, cargo que desempenhou com ímpar dignidade.

Muita água passou por baixo da ponte, e Siqueira, que, a exemplo do coronel Heráclio, de Limoeiro-PE, mandando no céu, na terra e no ar, tornou-se um ícone, espécie de mito intocável e – justiça seja feita! – foi um tocador de obras e incansável batalhador, mas governou, em seus vários mandatos, como se o Tocantins fosse propriedade sua, fazendo com que o povo acreditasse que fosse devido à sua exclusiva iniciativa que o Tocantins nasceu. Daí ter divinizado Theotônio Segurado, que queria criar uma Província, não por amor à independência, mas para ser governada como propriedade sua.

Mas, a meu ver, sem lhe tirar os méritos, Siqueira funcionou apenas como aquele que descerrou a fita de inauguração de uma obra, que passou pela CENOG, pelas lutas de Felipe Antônio Cardoso, dos Aires de Porto Nacional, do Brigadeiro Lysias Rodrigues, Feliciano Machado Braga, Fabrício César Freire, Trajano Coelho Neto, para não citar outros, que começaram o movimento para a independência do Norte de Goiás muitos anos antes.

Mas se Renan tenta driblar a Justiça e busca adiar o desenlace de sua própria situação junto ao Supremo, e o mitológico macróbio Sarney também se vê enredado nas teias de situações pouco ortodoxas, vemos que não é assim que a banda toca: se mitos começam a cair, nenhum político está imune.

Agora, com a recente “Operação Ápia”, da Polícia Federal, desencadeada no Tocantins, começam a ser desmistificadas figuras outrora intocáveis no nosso Estado. Quem imaginaria que o intocável ex-governador Siqueira Campos, que se atribuía a criação do Estado e era notoriamente temido, fosse conduzido coercitivamente para depor? E que o um ex-governador (Sandoval Cardoso) ficasse vários dias preso?

Mas é mesmo bom mesmo que se passe um “pente fino” no nosso Estado, que, nessas menos de três décadas de criação, está servindo mesmo é de meio de enriquecimento ilícito, com políticos aventureiros e empresários inescrupulosos, sem qualquer raiz na nossa terra, que visam é assaltar nosso Erário e semear a corrupção, aumentando inexplicavelmente seu patrimônio.

Se a cada dia surge um novo escândalo, é importante que se impeça que continuem a tomar de assalto nossa terra, dando um breque, inclusive, na formação de novas oligarquias, como se vê por aí na intenção de certos políticos em plena decadência.


(Publicado no “Diário da Manhã” de 23/11/2016)