Opinião

Morre Ruy Rodrigues. Tocantins parece não tomar conhecimento

03/11/2016 13h23 | Atualizado em: 03/11/2016 13h35

Foto: Divulgação
Ruy Bucar

No princípio, tudo era empolgação. Tudo que dizia respeito ao Tocantins nos tocava profundamente. Acreditávamos piamente que estávamos construindo um novo estado, ou mesmo uma nova civilização. Tudo era novidade. Guardávamos um respeito quase “sagrado” por todos que tinham lutado para transformar o sonho de gerações passadas do Norte de Goiás, em realidade.

Com o andar dos acontecimentos as coisas foram mudando. Trocamos o otimismo incorrigível por uma espécie de pessimismo controlado. Tínhamos consciência que as coisas estavam piorando, mas acreditávamos que ainda se podia mudar. Mudar é sempre possível. E mudou, para pior. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. E assim vem sendo. O respeito pelos que lutaram deixou de ser sagrado.

Hoje, somos incrédulos. Desconfiamos de todos, ainda mais dos que se dizem criadores (e donos) do Estado. O Tocantins de uns tempos para cá só nos remete a fatos negativos que nos obriga a reconhecer que não estamos no rumo certo. O pior é ter que admitir que foi lá atrás que saímos do prumo e que retomar os bons tempos vai custar caro. O Tocantins deixou de ser esperança para se tornar decepção.

Foi neste clima de puro desânimo que circulou a notícia da morte do professor Ruy Rodrigues da Silva, um dos mais ilustres filhos do Estado. Pior que a notícia, foi a postura de indiferença da opinião pública, dos líderes políticos, da intelectualidade tocantinense ao fato. Não se viu nenhum pronunciamento, nenhuma mensagem, nenhuma homenagem à altura dos feitos deste tocantinense, reconhecido internacionalmente; pelo visto, esquecido em sua terra.

É bom lembrar que estamos falando de um dos fundadores da Casa do Estudante do Norte Goiano (Cenog), entidade emblemática na luta pela criação do Estado que chegou a ter sede em Goiânia e filiais em Pedro Afonso, Dianópolis, Miracema, Porto Nacional e Rio de Janeiro, e da Comissão de Estudo dos Problemas do Norte Goiano (Conorte), espaços de debates estratégicos pela criação do Estado do Tocantins.

Teólogo, filósofo, sociólogo, escritor, professor, intelectual e homem público de postura invejável. Foi professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), foi também secretário de Estado de Educação no governo Mauro Borges, de 1961 a 1964 e presidente da Fundação de Formação de Servidores Públicos Estaduais de Goiás no governo de Henrique Santillo, em meados da década de 80 e início dos anos 90.

Em 1991, a convite do governador eleito Moisés Avelino, trocou Goiás pelo Tocantins, tendo assumido o comando da Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Desporto, onde permaneceu até o final do mandato, em 1994. Sua gestão foi marcada pela interiorização das ações culturais com ênfase na implantação de representações regionais de cultura nas 16 Delegacias de Ensino do Tocantins.

Quem não se lembra das grandes movimentações na área da cultura? A realização do I Encontro de escritores do Tocantins; do I CantoTocantins – Festival da Canção, realizado em Araguaína, Gurupí e Palmas; do I Festival de teatro e dança do Tocantins, em Porto Nacional, dentre outras atividades. Ainda, foi reitor da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), no período de 1998 a 1999, à convite do então governador Siqueira Campos.

Ruy Rodrigues dedicou a vida à educação, à cultura e aos temas ligados à humanidade, tanto no Brasil quanto na Europa e em países da África e na Ásia Oriental, por onde passou como exilado político. Viveu todo o seu exílio político na França, mas de lá atuou fortemente como gestor de projetos de desenvolvimento e ajuda Internacional para organismos multilaterais, sobretudo na África.

Foi assessor da Presidência da República de Guiné Bissau na década de 80 e professor no "Institut de Recherche en Sciences Sociales de Montrouge – Région Parisienne.

Destaca-se ainda a criação do Projeto DIOP - que resultou na implantação da primeira sala de cirurgia oftalmológica móvel do mundo, no Senegal, na década de 70.

Ruy Rodrigues liderou ainda projetos de desenvolvimento de energias alternativas como a energia solar para regiões do centro-oeste africano e do Vietnã, além de fomentar a criação de várias organizações não governamentais na África.

Ainda na África, fomentou a criação de cooperativas de produção agrícola, de construção civil, de artesanato, de exploração agrícola, a utilização de energia eólica para coleta de água, o desenvolvimento de projetos de reaproveitamento de dejetos vegetais para a alimentação do gado e de projetos de piscicultura, dentre outros.

Publicações

Parte do seu legado intelectual está contida nas publicações: Exercícios de Admiração: Reflexões Sobre Pessoas, Poder, Cultura e Cidades; Elementos e Dados Históricos do Estado do Tocantins; As Áfricas que Descobri; Respirando o Pretérito.

Nascido em Porto Nacional, Ruy Rodrigues faria 89 anos no dia 28 de Outubro (nasceu em 28 de Outubro de 1927). Ele deixa duas filhas, Adriene e Sofie, e um legado intelectual que fica para a história e a memória dos lugares em que atuou.

Que o seu legado ajude o Tocantins a superar a incômoda situação da história única, a história dos escolhidos, ou seja, quem não ocupou lugar na história oficial patrocinada pelo poder político do Estado, parece não ter existido. Um estado também se faz de muitas histórias. As histórias de todos nós. Ruy Rodrigues não morreu. Ele é personagem vivo dessas muitas histórias que teremos orgulho de contar.