Opinião

Reflexões sobre a “Operação Ápia” no Tocantins. Será que os ex-governadores escapam desta?

18/10/2016 09h00 | Atualizado em: 18/10/2016 17h04

Foto: Reprodução Internet
Liberato Póvoa
Liberato Póvoa
Liberato Póvoa
liberatopovoa@uol.com.br
(Desembargador aposentado, Membro-fundador da Academia Tocantinense
de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, Membro da Associação Goiana de Imprensa - AGI - escritor, jurista, historiador e advogado)

Embora residindo em Goiânia, mas como a Internet nos liga diariamente ao mundo, nada fica a descoberto. E a recente “Operação Ápia”, da Polícia Federal, detonada no Tocantins veio colocar em polvorosa o meio político tocantinense e enterrar o nosso Estado na lama das maledicências, generalizando um fato de que uns poucos tomaram parte.

A Polícia Federal realizou no último dia 13 de outubro a “Operação Ápia”, para desarticular uma organização criminosa que, fraudando licitações públicas e a execução de contratos administrativos para terraplanagem e pavimentação asfáltica em rodovias estaduais, sugava o Erário, numa versão mais acanhada do “Petrolão”, suspeitando-se que o grupo tenha desviado R$ 200 milhões.

A operação veio quebrar um mito, algo inconcebível: conduziu coercitivamente para depor o ex-governador Siqueira Campos, tido como um mito, uma espécie de lenda no Estado, além de prender temporariamente o ex-governador Sandoval Cardoso, um interino que ocupou o Araguaia no mais curto mandato da nossa história estadual. Ao todo, 115 mandados judiciais foram cumpridos, entre prisão, busca e apreensão e condução coercitiva. Um deles, como disse, foi contra o ex-governador Sandoval Cardoso (SD), que teve prisão provisória decretada.

Se o ex-governador Sandoval, que foi mandatário no período de 4 de abril de 2014 a 1º de janeiro de 2015, tem contas a prestar à Justiça, que se dirá dos demais governantes? Sabe-se que Siqueira Campos governou durante mais da metade do tempo de criação do Tocantins; Marcelo Miranda, quase 10 anos; Moisés Avelino, quatro anos; Carlos Gaguim, pouco mais de um ano, e o restante distribuído por Raimundo Boi e Sandoval Cardoso. Será que esta operação vai ater-se apenas ao mandato de Sandoval?

Vem aqui uma reflexão: nunca se soube que houvesse uma investigação que atingisse os demais governadores, nestes 28 anos de criação. Mas, dá para se avaliar a extensão dos efeitos desta Operação Ápia, que parece apenas um “gancho” para apurar tudo que vem sendo feito na roubalheira que já leva mais de dez anos. Seguramente, cabeças vão rolar. A “Operação Maet”, por exemplo, a apuração de um episódio desimportante sobre moeda falsa deu no que deu. Era apenas o fio da meada, como esta “Operação Ápia”, que tem ligações explícitas com o caso, pode desencadear nova versão da Lava Jato no Tocantins.

Nos mandados cumpridos, existem 21 pessoas presas, dentre elas especialmente duas com notórias ligações com ex-governadores, uma das quais sócia de um ex-governador, cujo patrimônio não obedeceu às etapas de um enriquecimento normal, tornando-se um dos mais ricos parlamentares que perambulam nos corredores do Congresso.

Publicações de 2012 já noticiavam que ex-governadores “faziam a farra” com dinheiro público desde 2002, mostrando que o monitoramento vem de muito tempo. É de se prever que a “Operação Ápia” vai pegar todo mundo, pois certamente os presos tidos como “testas-de-ferro” de governadores irão negociar uma delação premiada. E neste momento, todo mundo está com as barbas de molho, pois esta operação está com o sabor da ponta de um “iceberg”. A manutenção da prisão do ex-governador Sandoval e de seus companheiros na audiência de custódia é sintomática.

A situação do nosso Estado não é boa, como, de resto, não é boa a de ninguém, mas virão a furo os superfaturamentos, as obras pagas e não realizadas, as indefectíveis propinas travestidas em doações de campanha.

Coincidentemente, no último dia 11 de outubro, antevéspera da operação, o Inquérito nº 4.320, contra o parlamentar que se enriqueceu, saiu dos escaninhos do Supremo, devido ao privilégio de foro, e foi encaminhado à Procuradoria Geral da República pelo ministro relator, Luiz Fux, para oferecimento da denúncia. Em tempos de Lava Jato, o tal inquérito trata de fraude em licitações, que está fazendo os implicados a redobrar a dose de Rohypnol, mesmo porque existem outros parlamentares tocantinenses com pendências no Supremo pelas mesmas razões, com ligações ao mesmo fato.

Infelizmente, não posso me solidarizar com ninguém, pois não tenho processo com igual rótulo, nem vínculo com político nenhum.

Publicado no Diário da Manhã no dia 18 de Outubro de 2016.