Opinião

Conheça a arraia: como age, onde predomina, seus hábitos e como tratar de sua dolorosa ferroada

03/05/2016 15h46 | Atualizado em: 03/05/2016 15h52

Foto: Reprodução
Liberato Póvoa
liberatopovoa@uol.com.br
(Desembargador aposentado do TJ-TO,
Membro-fundador da Academia Tocantinense
de Letras e da Academia Dianopolina de
Letras, escritor, jurista, historiador e advogado)

Há três anos, minha filha caçula, Victoria, levou uma ferroada de arraia, no rio Paranã, que acabou desmanchando nosso passeio de fim-de-semana. Foi um deus-nos-acuda, com internação e médico em cima, pois, na verdade, a ferroada de arraia é algo terrível.
A arraia é espécie de peixe fluvial de formato redondo e chato, semelhante a um disco, comumente de trinta centímetros a um metro de diâmetro, dotado de um terrível esporão serrilhado e venenoso na cauda, o qual só sai arrancando pedaços da vítima. A mais temida é a arraia-de-fogo, de cor vermelha. Sua ferroada produz talvez a dor mais intensa que se conhece, doendo por cerca de 24 horas ininterruptamente, pois deixa na ferida uma substância viscosa, que pode ser aliviada se se injetar 20cc de amoníaco, anestesia odontológica ou permanganato de potássio no local.
A sorte é que a arraia é um bicho arisco; com qualquer movimento feito na água ela espanta e foge. Fosse um bicho mais lerdo e agressivo, os acidentes com ferroada de arraia, no Araguaia, seriam alarmantes, por ocasião das férias de julho. São muitos mil banhistas que passam ali todo o mês de julho nos rios do Tocantins, principalmente em Araguacema, Formoso do Araguaia e Caseara, curtindo praias e brincando n’água, a maioria crianças, naturalmente desprevenidas.
Felizmente, os acidentes por arraia não são muito frequentes. O modo prático para se andar em local onde haja arraia, que geralmente fica encoberta na areia das águas rasas e paradas, é arrastando os pés, pois ao ser tocada a arraia foge; se for pisada, a ferroada é certa. Quem não conhece, nem de longe pode avaliar a gravidade de uma ferroada sua. Pode, inclusive, ser um acidente fatal, se a vítima sofre de complicações cardíacas ou de algum mal que afete as vias respiratórias. A lesão é sempre muito profunda, costuma o ferrão atravessar o pé ou a perna, se não esbarra no obstáculo de um osso, e a dor produzida é convulsiva e tetânica.
O corpo é imediatamente tomado por fortíssimas contraturas musculares e retesamento dos tendões. Após esse longo tempo de contrações e suores, o sistema nervoso amortece e sobrevém uma dormência geral, com forte sensação de peso no membro lesado. Inicia-se uma segunda fase de sofrimentos, com o bloqueio dos vasos linfáticos da região atingida, quando se avoluma uma inchação de tal forma, que não raro chega a rachar o pé. É inevitável o desenvolvimento de necrose, com purulência abundante. Não são raros os casos em que o cirurgião tem que intervir para remover tecidos devastados e às vezes terá que fazer enxertos, tão grandes se tornam os estragos da purulência. Pode-se assegurar que a ferroada da arraia é o acidente mais sério e temido que pode ocorrer com as pessoas que vão passar férias nos rios de toda a bacia amazônica. E é nas águas menores que a presença desses seláquios é maior. Lamentável e desanimador é o fato de que a ciência quase nada sabe sobre arraia. Até hoje, pesquisadores, biólogos e naturalistas ainda não se dispuseram a estudar essa espécie venenosa, que tanto castiga as populações ribeirinhas dos rios do Norte. Em Goiás, pontificava Carmo Bernardes como o maior conhecedor de bichos e plantas, e no Tocantins a maior autoridade no assunto é o amigo Roberto Sahium, que, inclusive, enriquece as páginas de “O Jornal” com seus profundos conhecimentos sobre ictiologia.
A indústria farmacêutica, que, invariavelmente financia a pesquisa científica ligada à medicina, não se interessa pelos acidentes produzidos pela arraia. A terapêutica indicada em tais acidentes não requer a aplicação de um volume de medicamentos tal que venha a dar lucro às farmácias. Por isto, a forma de tratamento da ferroada de arraia não é divulgada nem ensinada nas escolas de Medicina.
Como esclarece Carmo Bernardes, o maior estudioso que existiu sobre a arraia, a lancinante dor pode ser aliviada se se injetar 20cc de amoníaco, anestesia odontológica ou permanganato de potássio no local da ferroada. Também é recomendável o pó do tronco da sambaíba, bem como lavar o local com infusão de cipó-arraia e tucum. A ferida demora muito a fechar. No campo do misticismo, recomenda-se cortar o esporão e fincar no corpo da própria arraia. Embora não sirva para alimentação, sua carne é prescrita contra asma e bronquite. Também é um excelente remédio para doenças respiratórias o óleo de seu fígado, que é extraído com a exposição ao sol dentro de uma vasilha; no primeiro dia, toma-se uma gota na água ou chá; no segundo, duas; no terceiro, três, até o limite de 20 gotas.
Embora existam muitas arraias nas águas rasas de rios e represas no Tocantins, não há um remédio específico para sua ferroada. Não adianta ir atrás de médico, que os remédios são esses.