Opinião

Lula já está preso e não sabe; Não vingou o golpe do privilégio de foro.

04/04/2016 13h14 | Atualizado em: 04/04/2016 13h17

Foto: Reprodução
Liberato Póvoa
liberatopovoa@uol.com.br
(Desembargador aposentado do TJ-TO,
Membro-fundador da Academia Tocantinense
de Letras e da Academia Dianopolina de
Letras, escritor, jurista, historiador e advogado)


Percival Puggina, respeitadíssimo acadêmico gaúcho, arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista do jornal “Zero Hora” e de dezenas de jornais e sites no país, escreve no seu blog artigos sempre muito esclarecedores sobre a situação política brasileira, e no último dia 11 de março, com muita propriedade, sob o título “Lula já está preso”, fez interessante comentário sobre o decantado assunto do pedido de prisão feito pelo promotor Cássio Cosentino, do MP paulista.
A referida peça acusatória está sendo criticada: pelos lulistas, acusando o MP de perseguição contra um cidadão exemplo de honestidade com vistas a inviabilizar seu retorno em 2018, tendo-a por inepta; pelos juristas, por não encontrarem na acusação do MP de São Paulo a devida consistência para, inclusive, chancelar o pedido de prisão, estando, segundo alguns, distanciada do art. 312 do Código de Processo Penal, com muitos erros insanáveis, como um texto imprestável a qualquer juízo; a oposição, achando que a denúncia foi inoportuna, às vésperas da manifestação do dia 13 de março, que, se rejeitada, esvaziará os movimentos de rua, mas se recebida, faria de Lula a perfeita vítima neste cipoal político. E o ex-presidente poderia explorar a imagem de vítima, e os investigadores terão de obter provas ainda mais robustas no caso de corrupção na Petrobras.
Mas Puggina, do alto de sua perspicácia, diz que “preso” não é só quem está atrás das grades, pois “existem diferentes tipos de prisão. O ex-presidente brasileiro está enquadrado num deles. É uma prisão diferente, restritiva de várias liberdades, que ele mesmo se impôs como decorrência do estrago à sua imagem causado pela ambição. A lista das coisas que nosso ex-presidente está impedido de fazer é significativa para alguém como ele. Primeiro, não pode mais virar mundo fazendo rentáveis palestras sobre as supostas maravilhas que seu partido e seu governo teriam realizado no Brasil. Segundo, não há maravilhas a mostrar.
Realmente, com esse rosário de patuscadas do governo, iniciadas desde o primeiro governo do parlapatão de Garanhuns, o país vive como caranguejo, andando para trás mais rapidamente do que avança, e a evidência disso são as notas que despencam nas agências internacionais de avaliação de risco, que estão mostrando ao mundo, passo a passo, as sucessivas explosões da bolha publicitária petista, com a corrupção desenfreada, a alta do dólar, o descrédito a que o Brasil está submetendo-se a cada dia. E à simples notícia de um eventual “impeachment” de Dilma e da denúncia de Lula, a comunidade econômica mundial reage, com a imediata valorização da nossa moeda, face à queda do dólar.
Num ambiente criado pelo PT, Lula tinha temas de sobra para fazer as palestras mais bem pagas de todos os tempos (cujo conteúdo não se sabe), mas com a eclosão da Lava Jato, os convites minguaram e a fonte secou. Os telefones dos amigos da época, como os chefes de estado, nunca mais tilintaram para Lula atender. Suas últimas fotos mostram um homem com ar assustado e abatido, tema de gozações pelas redes sociais, quando aparece, fisicamente debilitado, com 70 anos, ao lado de Fernando Henrique, com aspecto muito mais jovial, apesar dos 84 anos, com a legenda “corrupção envelhece”.
Puggina reafirma a prisão de Lula, dizendo que “Lula tem um sítio que não pode mais frequentar, onde há pedalinhos que seus netos não podem usar, uma adega inacessível e uma esplêndida cozinha que traz saudades à sua esposa. Ele tem três andares do mais apurado requinte num apartamento com frente para o mar na praia de Guarujá. Mas não pode nem pensar em chegar perto do prédio. Que dizer-se da praia!”
E ele vive literalmente confinado no seu apartamento de São Bernardo do Campo, que é seu refúgio protetor, mas também sua prisão domiciliar, pois, a não ser que saia da garagem num carro blindado e com insulfilme escuro até onde a lei permite, não se arrisca a sair à vista do público, pois, a cada explicação, sempre mal explicada, sujeita-se a vaias e atos de explícita hostilidade, mormente quando, colocando-se acima da lei, declarou que "se me prenderem, viro herói; se me matarem, viro mártir, se me deixarem solto, viro presidente", numa atitude assaz pretensiosa de quem parece segurar nas mãos as rédeas do país, apesar de não desempenhar qualquer função no governo (a não ser mandar na presidente Dilma).
O mundo dá voltas, e a fila anda, e resta a Lula o efêmero apoio de beneficiários dos eleiçoeiros programas sociais, dos que mamam nas tetas do governo e dos grupos de baderneiros que o próprio PT criou para lhe conferir sustentabilidade, como o clandestino MST, o chamado “exército do Stédile”, que legalmente não existe, pois nem CNPJ possui.
Nos últimos dias, a língua comprida de Lula desmoronou o governo; os diálogos gravados com ordem judicial mostraram às claras as manobras ilícitas, em tentar emplacá-lo como ministro e ganhar privilégio de foro; comprovou-se nos diálogos a linguagem chula e rasteira dos interlocutores (inclusive da despreparada presidente) o despreparo do mais alto escalão, e o povo sentiu que estava sendo ludibriado; a decisão do STF, que anulou sua nomeação para a Casa Civil, quando as manifestações pró-PT ainda ecoavam nas ruas soou como um balde de água fria para o governo e um sentimento de alma lavada para a grande maioria da população.
No dia 13 de março, um domingo, o brasileiro nas ruas balançou os alicerces do governo, e no dia 18, uma sexta-feira, foi a “resposta” do PT, com um público infinitamente menor, mas barulhento, subvencionado pelos sindicatos (50 reais por cabeça), transporte liberado, uma camiseta vermelha de graça e sanduíches de mortadela à vontade, sem se falar que 15% eram funcionários públicos comissionados, que foram liberados do ponto. É de se observar que as manifestações contra o governo são sempre no domingo, pois são espontâneas e os manifestantes trabalham; as do PT são sempre em dia útil, com participantes catados na rua e pagos para fazer número, sem saber por que vestem uma camiseta vermelha, predominantemente desocupados.
Mais uma vez, está demonstrado que Lula criou Dilma, e para fechar o ciclo, está abrindo a cova e cobrindo-a com a lápide do sepulcro para enterrá-la de vez, pois o procurador-geral da República, cobrado por Lula como ingrato por ter sido nomeado pelo PT, agora vai a fundo: disse que pedirá a prisão de Lula e do artificioso Rui Falcão, além de requerer uma investigação dos atos de Dilma.
Pelo número de petistas enredados na teia da Lava Jato, vale lembrar o saudoso Joelmir Beting: “O PT é, de fato, um partido interessante. Começou com presos políticos e vai terminar com políticos presos”.

(Publicado no “Diário da Manhã” de 04/04/2016)