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Congresso Jeduca: "precisamos colocar a Educação em outras editorias jornalísticas"

03/07/2017 15h17 | Atualizado em: 03/07/2017 15h26

Nos dias 28 e 29 de junho ocorreu, na cidade de São Paulo, o I Congresso da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), organização fundada em 2016, com o objetivo de qualificar a cobertura jornalística na área. O evento, que contou com 18 mesas de debates e 20 especialistas, proporcionou aos participantes (jornalistas, profissionais que trabalham com a temática e estudantes de jornalismo) um mergulho intenso em dados, políticas públicas e diretrizes sobre as especificidades do sistema educacional brasileiro. Além disso, palestrantes internacionais abordaram, em uma perspectiva comparativa, os índices educacionais de diferentes países.

Para Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, e uma das principais fontes especialistas na área, a cobertura jornalística de Educação brasileira teve um salto de qualificação ao longo dos últimos 5 anos, mas ainda há patamares a serem galgados, como “ganhar as outras editorias para a causa da Educação”, conforme apontou durante o evento. “Tudo está relacionado à Educação, os jornalistas precisam lutar para que as matérias de economia, desenvolvimento, saúde e tantas outras também passem a incluir um olhar para o ensino”, defendeu.

A Educação em tempos de incerteza

O quadro político e econômico brasileiro tem sido, desde 2015, um dos mais desafiadores para o País ao longo de sua história. Para agravar a complicada conjuntura, a Emenda Constitucional 95, de 2016, conhecida como PEC do Teto dos Gastos, colocou um limite para as despesas do Governo Federal nos próximos 20 anos.

Esse cenário preocupa especialmente a área da Educação, um setor que para atingir equidade e qualidade requer boa gestão e recursos crescentes, conforme defendeu Priscila Cruz durante a mesa “A Educação em tempos de incerteza”.

Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, uma das instituições que apoiaram e participaram da elaboração do Plano Nacional de Educação (PNE), também destacou a importância da sociedade civil – os jornais como atores importantes nesse grupo – para defender a prioridade da Educação em qualquer gestão, independentemente do partido político.

A mesa recebeu ainda Alessio Costa Lima, presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), e Idilvan Alencar, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed). Os representantes das gestões municipais e estaduais abordaram a temática do financiamento e orçamento na área da Educação, conhecimento essencial para uma cobertura jornalística de qualidade. Eles ressaltaram a necessidade de os profissionais de jornalismo terem conhecimento da legislação que determina a divisão de recursos entre os entes federados e das responsabilidades administrativa de cada um deles.

Priscila concordou com os gestores. Para ela, apesar do avanço na cobertura, falta ainda um olhar mais qualificado para as políticas públicas, considerando-as como medidas de longo prazo. “Os jornalistas precisam questionar mais as fontes do governo sobre o porquê de cancelar uma política de sucesso. Essa política foi avaliada, ela não poderia ser ajustada? ”, exemplificou.

Base Nacional: desafio de abordagem e próximos passos

Ao lado da turbulência política e econômica, as políticas públicas de escala, que impactam todas as redes de ensino, também são fonte de ansiedade para a sociedade civil, dentre elas a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). É nesse espaço de insegurança que reside o papel fundamental dos profissionais de jornalismo, que devem elucidar os assuntos técnicos relacionados à BNCC e colocar na agenda pública o currículo escolar. Essa foi a temática da mesa da “Base Nacional: desafio de abordagem e próximos passos”, no dia 28.

O debate contou com a presença de Cesar Callegari, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), a ex-secretária municipal de Educação de São Bernardo do Campo, e Paulo Carrano, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador no Observatório Jovem do Rio de Janeiro e membro da diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped).

Callegari criticou a falta de articulação entre o documento que servirá de base para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental e aquele que determinará os conteúdos básicos do Ensino Médio. Apesar disso, ele destacou a importância dos documentos. “Embora a BNCC não seja perfeita, ela é um passo fundamental para a Educação Básica; essencial para a formação de professores, sistemas de avaliação e produção de livros didáticos”, afirmou.

Essa também foi a visão apresentada por Cleuza. Os profissionais da mídia, defendeu ela, devem compreender a importância histórica do documento e produzir conteúdos que esclareçam os desafios que vêm pela frente. “Se foi difícil construir a Base, mais complicado será implantá-la. O papel do jornalismo nesse processo é abordar as dificuldades da implementação da BNCC”, disse.

Contrário à base, Carrano criticou o perigo da generalização que se esconde sob uma base curricular e colocou à classe jornalística a importância de uma abordagem que ouça atores de diferentes espectros político-ideológicos. O pesquisador também destacou a premência de se abordar a interface entre juventude e Educação. “Na mídia, a representação é muito importante, é uma disputa de poder e imagem. O jornalista é um produtor de representações e ele deve dar espaço ao jovem e sua relação com a escola”, defendeu.

Editores e a Educação como notícia

O evento também contou uma uma mesa para discutir os caminhos que o jornalista deve seguir para valorizar e ampliar a cobertura do tema da Educação nos veículos de comunicação, uma vez que ele disputa, de forma contínua, espaço com uma variedade de notícias factuais. Sob a mediação de Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do Todos Pela Educação e jornalista com uma carreira de mais de 15 anos de atuação na área de Educação, a mesa “Editores e a Educação como notícia” foi composta por Eduardo Scolese, da Folha de S. Paulo, Paula Miraglia, do Portal Nexo, e Nélio Horta, da Rede Globo.

Para Eduardo Scolese, repórteres que cobrem o tema devem questionar as políticas públicas; buscar dados, confrontá-los, e também conhecer de perto a realidade das escolas, vivenciá-la. Na sua visão de antropóloga, Paula Miraglia aproveitou a ocasião para fazer uma reflexão sobre o papel do especialista como fonte. É preciso “deixar o especialista surpreender o jornalista”, entender que sua função não se resume a corroborar o que um dado supostamente mostra, ele precisa de espaço para pontuar suas análises. Scolese acrescentou à reflexão que é de suma importância sempre apurar a reputação dos institutos e entidades que divulgam pesquisas e a metodologia utilizada por eles.

Miraglia enfatizou que a Educação não pode ser tratada apenas como escudo contra a violência, trata-se de um direito constitucional. Para ela, a contextualização do tema não pode se limitar a este aspecto, pois a Educação nunca é uma narrativa isolada.

Já Nélio Horta, ponderou que a temática precisa ser bem desenvolvida pelos profissionais de comunicação, é preciso levar em conta que quando se trabalham temas paralelos é necessário ter cautela para não parecer que aquele “recorte” deve ou não ser um exemplo a ser seguido. Utilizou um bom exemplo para resumir sua observação: quando se está produzindo uma reportagem sobre uma determinada escola em São Paulo é preciso contextualizar, de maneira que quem está no interior do Piauí, por exemplo, entenda que se trata de uma realidade distinta e que aquilo não é uma sugestão de como deve ou não deve ser o espaço escolar. (Fonte: Todos Pela Educação)