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E a Escola Inclusiva onde fica?

23/03/2016 13h52 | Atualizado em: 23/03/2016 13h56

Foto: Reprodução
Uma simples atividade proposta em um livro de didático serviu para mostrar quão dissociado da realidade está o discurso da proposta da educação inclusiva.


Este mês de março foi marcado por calorosos debates em torno da questão da “ideologia de gênero” nas escolas. A polêmica foi levantada em primeira mão pelo deputado e pastor Eli Borges, na sessão do dia 1º .

Munido da Constituição Federal, da Bíblia e de um livro da Coleção Porta Aberta, adotado por algumas escolas de Palmas, para embasar seu ponto de vista, o deputado deixou claro que é contra a discussão sobre sexualidade no ambiente escolar, bem como a abordagem do tema nos livros didáticos. Eli Borges defende que essa discussão só deva existir no ambiente familiar, onde, segundo o deputado “os responsáveis poderão ter oportunidade para fazer as orientações adequadas”.

Exibindo um exemplar do livro de Ciências Humanas e da Natureza da coleção Porta Aberta dirigido para o 1º ano do ensino fundamental e distribuído pelo Ministério da Educação. O parlamentar disse que iria apurar a veracidade da notícia de que o referido livro está mesmo sendo utilizado nas escolas do estado e prometeu verificar se o tema está sendo trabalhado nas escolas. “A informação que temos é a de que esteja, teremos que recolher as assinaturas necessárias para proibir sua utilização”, disse Eli.

E o assunto ganhou ressonância também na Câmara de Vereadores de Palmas, onde numa agitada sessão ocorrida no dia 10 de março, e acompanhada por pastores, líderes católicos e populares que lotaram a galeria da Casa, vereadores proferiram discursos eloquentes sobre o tema.

Assusta-me o discurso odioso daqueles que deveriam ser exemplo de tolerância e amor ao próximo como ensina o Livro Sagrado.

A meu ver, essa é uma discussão desnecessária, uma vez que a proibição da inclusão do tema Ideologia de Gênero foi rejeitada pelo Congresso Nacional ainda no ano passado, no que foi seguido por diversos estados e municípios. E os professores são sabedores disso.

Para encerrar a polêmica, o prefeito de Palmas, Carlos Amastha publicou no Diário Oficial do Município no último dia 14 de março, a Medida Provisória Nº 06, proibindo que o tema seja trabalhado nas escolas da rede municipal.

Estava eu a serviço de O Jornal na Assembleia Legislativa na manhã do dia 1º e assisti ao vivo o discurso do deputado Eli Borges. Fiquei preocupada, pois pelo tom da sua fala, no meu entender haveria algo grave naquele livro que ele mostrava, até porque sou professora da rede municipal e a escola onde trabalho adotara a coleção Porta Aberta.

À tarde, ao chegar na escola fui correndo à biblioteca para ver o que de tão grave havia no livro. Folhei-o de frete para trás e vice-versa e deparei-me com uma atividade sugerida para SE trabalhar o tema FAMÍLIA, com gravuras mostrando diversos tipos de famílias, seguida da pergunta: qual dessas famílias se parece com a sua?

Confesso que fiquei desapontada pois não vi errado ali. As gravuras mostram uma realidade vivida pelos alunos. Nas escolas existem crianças que vivem numa família tradicional (pai, mãe e filhos), família composta de mãe e filhos, de pai e filhos, família de avó e netos, famílias com dois pais, com duas mães. Ignorar ou mascarar essa realidade é hipocrisia.

Já há algum tempo nas escolas se comemora a Semana da diversidade, mas se proíbe falar das famílias diversas; fala-se tanto na Escola Inclusiva, mas sugere-se em palavras e gestos ocultar as que vivem .