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Especialistas em educação sugerem medidas ao novo ministro

10/04/2015 15h28 | Atualizado em: 10/04/2015 15h38

Foto: Reprodução
Posse do ministro Renato Janine
Posse do ministro Renato Janine
Em meio às crises instaladas no Governo Federal, com péssimas notícias no cenário econômico, escândalos de corrupção, aumentos de impostos e cortes no orçamento de todas as pastas, a nomeação do professor de Ética da Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro, (sem filiação partidária), provocou otimismo entre os analistas políticos e entusiasmo no meio acadêmico.

Para César Callegari, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada, o novo ministro da Educação reúne as melhores condições de liderar um debate nacional. “São raros os brasileiros que, além de capacidade intelectual, dispõem de tanta valentia para tratar de temas espinhosos”, afirma.

Em matéria publicada no Jornal Zero Hora (RS) e repercutida pelo Movimento Todos pela Educação, pensadores e especialistas em educação sugerem cinco medidas para que o ministro possa virar o jogo e dar o salto de qualidade que todos anseiam. Vejam a seguir:

1 - Formação de Professores

Fazendo uma analogia entre um médico um professor, Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna e professor da Universidade Federal de Pernambuco sugere: “um médico recém-formado que queira ser cardiologista terá que fazer residência em um hospital certificado pelo governo — teoricamente uma instituição apta a lhe oferecer infraestrutura e orientação profissional qualificada, e, após alguns semestres, sairá de lá dominando a especialidade na prática. Agora troque o médico por um professor, a cardiologia pela Matemática, e o hospital por uma boa escola. Teremos a residência docente”.

É muita teoria e pouca prática na formação dos professores, diz Mozart. Ele sugere que a residência docente ocupe o lugar do atual estágio curricular, disciplina do último semestre das faculdades de licenciatura em Pedagogia, e tenha o dobro da duração: um ano inteiro. Hoje, o estágio pode ser feito em qualquer escola. Na residência docente, como ocorre no aclamado sistema de ensino da Finlândia, não. Escolas com bons laboratórios e professores de Química, por exemplo, seriam certificadas pelo Ministério da Educação para oferecerem residência em Química. Colégios cujo forte é a linguística, claro, receberiam aspirantes a lecionar Português e Literatura. “As escolas vão lutar para atingir essa certificação, que lhe renderá benefícios do governo federal. E nós daríamos um salto na formação de professores, que hoje, na prática, não saem das faculdades sabendo ensinar — avalia Mozart.

2. Reforma do Ensino Médio

O psicólogo João Batista Olivera, PhD em Educação e presidente do Instituto Alfa e Beto, afirma que Ensino Médio no Brasil é preconceituoso, pois tudo gira em torno do Enem, tudo mira a universidade, todos os alunos cursam as mesmas disciplinas, não há alternativas. Jovens propensos a trocar o estudo pelo trabalho dificilmente mudam de ideia, porque, nas palavras de João Batista, "não há nenhum estímulo à qualificação técnica, aos trabalhos manuais ou a qualquer atividade longe da faculdade".

João Batista lembra que em países desenvolvidos, como Inglaterra, Alemanha, Itália, França e Suíça, o nível médio é profissionalizante, como já foi no Brasil há 40 anos. E, se o estudante quiser ingressar na universidade, prestará vestibular com provas relacionadas à área que estudou nos últimos anos do colégio.
“O que não pode é o Enem ditar os rumos do Ensino Médio”. É o rabo puxando o cachorro, protesta o especialista. — Em nome desse preconceito, de que a vida sem curso superior não tem salvação, perdemos a mão de obra qualificada no Brasil.

3. Alfabetização no primeiro ano

O Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa estabelece “Que todas as crianças estejam alfabetizadas até os oito anos de idade, ao final do 3º ano do Ensino Fundamental", lembra o sociólogo Simon Schwartzman, pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho em Sociedade do Rio de Janeiro. Em qualquer país com ensino básico razoável, diz ele, a criança conclui a primeira série lendo e escrevendo. Ou, no mínimo, é essa a meta do governo.
Ele defende a meta de alfabetização aos seis anos, porque as crianças sentem-se incapazes e burras ao verem coleguinhas aprendendo enquanto elas fracassam — e uma verdadeira política que ensine professores a ensinar.

4. Currículo comum nas escolas

Há 19 anos a legislação manda que o governo federal elabore um currículo comum para as escolas do país inteiro, tanto as públicas quanto as privadas. Essa resolução ganhou força no ano passado, com a aprovação do Plano Nacional de Educação. O que falta alta é o MEC agilizar o cumprimento da lei.
Hoje, não há qualquer referência no país sobre o que os alunos devem aprender a cada ano escolar. Não há clareza sobre o que um estudante deve saber em cada série, explica a coordenadora do movimento Todos pela Educação, Alejandra Velasco.

Em que momento a criança deve dominar frações? E qual deve ser seu nível de interpretação de texto no quinto ano?

A Constituição diz que toda criança tem direito a uma educação de qualidade. Mas todo o direito, para ser um direito, precisa ser enunciado. Quais são os direitos de uma criança no primeiro, no terceiro, no sexto ano? Os pais precisam saber. E que diretrizes definem uma "educação de qualidade?”, questiona o sociólogo Cesar Callegari. Hoje, cada rede ou escola tem seus próprios critérios. Mas ano a ano seus alunos são submetidos a avaliações nacionais, como a Prova Brasil ou o Enem, que cobram de todos os mesmos conhecimentos. O Plano Nacional de Educação exige que o Ministério defina o currículo até junho de 2016.

5. Tecnologia no aprendizado

Precisamos dessa nova linguagem. A sala de aula perdeu o monopólio da aprendizagem, que hoje tem força descomunal na internet. O Brasil tem plenas condições de desenvolver portais com gráficos supermodernos, videoaulas, interatividades e simulações tridimensionais para os alunos estudarem na hora em que quiserem, com quem quiserem e onde quiserem, defende Ronaldo Mota, ex-secretário de Inovação Tecnológica do Ministério da Ciência e Tecnologia, hoje reitor da Universidade Estácio de Sá. Para ele, o orçamento do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que compra e distribui apostilas para escolas públicas, deveria ser redirecionado às inovações. “Ou atualizamos nossa visão, ou fracassaremos. Não adianta os deputados brigarem pela escola de tempo integral se o colégio é desmotivador: vira uma dupla tortura”, afirma.