Guerra do Pequi!

  • 02/Nov/2021 18h30
    Atualizado em: 03/Nov/2021 às 08h46).

*Por Roberto Jorge Sahium

Assim é o título de uma matéria escrita por Fransciny Alves em 10/02/21 para “O Tempo”, um jornal diário de Minas Gerais, sediado em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

O mexerico feito pelo diário de Contagem ajudou acalorar e ascender o estopim de uma bomba deixada por um deputado mineiro na Câmara Federal, que visa oficializar Montes Claros-MG como Capital Nacional do Pequi.

A Bomba espocou no DF e seus estilhaços caíram em Goiás e respingaram no Tocantins. Goiás estrilou na hora e seu governador entrou na testa nesta afronta, inclusive justificando que o pequi está no sangue, no DNA e na alma do goiano. Sobre os respingos que caíram no Tocantins causaram baixo impacto, pois aqui há tempos vive uma cidade que em razão do grande número de pequis produzidos na localidade recebeu o nome de Pequizeiro do Tocantins.

Assim, a Guerra do Pequi, para chegar ao campo de batalha vai ter que quebrar capoeiras e queimar as quiçaças encoivaradas, não aqui pra nossas bandas.
Isto está sucedendo pelas virtudes do pequi de mistura de sustentação do matuto no sertão, bateu no portão da cidade, transformado em pequi com arroz ou com frango e até macarrão, além de pastel, licores, sorvetes e picolés, pequi com peixe e farinha d´água, calderadas de pacu, caranha com pequi e pirão de farinha d´água com escarniçado de filhote e pequi, em alta culinária sem ser propalada como vilão da inflação por rádio e televisão.

Mas na verdade, a iguaria virou celebridade sem fazer nenhuma novela, participar de esquemas da Lei Rouanet ou passar por algum Reality Show. Alcançou brilho pelas suas qualidades excêntricas e nas mãos dos grandes Chef´s dos fogões turbinados das cozinhas do Centro Oeste brasileiro, navegou contra a marolinha da gravidade, desaguou nos restaurantes bacanas do Distrito Federal. Daí, os pratos tradicionais se juntaram aos pratos contemporâneos, como maionese de pequi, risotos com carne seca ou ainda bacalhau com caldo de pequi, petit gateau de pequi, pizza e até hambúrguer de pequi, daí não deu outra, viraram boias de grifes, apoiadas pelos movimentos focolares das santidades das Basílicas da Praça dos Três Poderes, motivados em desvelos de saciarem os anseios de roerem pequis misturados numa prosa recheada de politiqueiragem, deixando os arranca-rabos para o teatro federal e se aparecer alguém querendo fazer implante de cabelo em ovo, terá sem dúvida instabilidade na estratosfera, e daí vai para uma CPI, cujas narrativas em movimentos horizontais vai cutucar a Guerra do Pequi.

Por tempo, nesta latumia em que os auto-declarados guardiões do pequi ficam futricando para o imaginário, acolá na outra beirada onde fica o barranco da ciência, do mercado e do desenvolvimento sustentavel, o pequi entrou no catálago de frutos potencialmente produtores de biocombustíveis, com gabarito para superar outras oleoginosas. Uma plataforma de pesquisa mostra que o óleo de pequi rende quase duas vezes mais biocombustível por hectare do que a soja, e de lambuja reduz em 30% as emissões de poluentes, bem como sem nenhuma perda no rendimento do motor.

Outras linhas de pesquisas vêm trazendo retornos animadores:

- uma, trata de usar o óleo do pequi pra untar os motores, onde testes com motores com cabeçotes totalmente originais, girando mais de 10.000 rotações por minuto, com zero indício de fadiga ou quebra; e,

- outra descoberta, tem haver com uma propriedade incrível do óleo de pequi que foi batizada de Chemical Strengthener Layer-CSL, cuja receita consiste em adicionar 50 ml de óleo de pequi para 4 litros de óleo mineral, para que se consiga o efeito da superdureza em qualquer material metálico. Porém esta descoberta antes de poder ser explorada pelo Brasil, já foi patenteada pelos japoneses (povo que tem o olho mais aberto do mundo).

O que intrigam as ideias é que o Ministério do Meio Ambiente - MMA tem portaria com intuito de zerar o corte de pequizeiro no bioma do cerrado, que é correto, o que não é certo! É não enxergar este ministério um programa de fomento que contemplam plantações de Pequizeiros nas terras de cerrados, mormente onde os passivos ambientais em áreas de reservas florestais e pastagens degradadas sobram nos cenários dos cerrados adentro. Medida que viria ajudar em muito o Brasil conseguir honrar o compromisso de reduzir em 50% das emissões atmosféricas até 2030, firmado no decorrer de entre 31 de outubro e 12 de novembro de 2021, na COP26 em Glasgow, Escócia, Reino Unido.

Igualmente a zero também são os incentivos do plantio do pequizeiro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária - MAPA, órgão responsável pelas políticas públicas agropecuárias para o Brasil. Mesmo que Zoneamento de Aptidão Climática seja favorável ao plantio do pequizeiro, se não tiver o Zoneamento Agrícola de Risco Climático a exploração não tem asilo legal.

Do mesmo modo não se vê iniciativas na Câmara Federal por parte dos deputados com projetos de promoções de pesquisas em melhoramento genético, manejo da cultura, silvicultura e demais aspectos direcionados à melhoria de produtividade do pequizeiro para produção de frutos, madeira, fitofármacos, indústria química, ornamental e etc. Seja lá o que for que aparecesse viria a acertar certas injustiças cometidas contra os pequizeiros.

Para tornar pior, mesmo existindo o enquadramento de aptidão edafoclimáticas para o pequizeiro, sem um Zoneamento Agrícola para a cultura, a exploração por parte de produtores rurais não vai ter pai e nem padrinho. Os bancos oficiais e privados não vão financiar e nem desejam saber de Pequizeiros. Por outro lado, plantas estrangeiras têm dominando grandes porções de savanas brasileiras e encontrado asilo de política pública de incentivo, tanto dos bancos oficiais e quanto dos privados.

Enquanto isso, plantios com pequizeiros praticados por produtores rurais Brasil adentro, bem como pesquisas por instituições isoladas vêm sendo realizadas, tudo acontecendo sem apoio de políticas públicas, num país onde tudo vira política. Vai entender este país!

Ainda por baixo, as plantas forasteiras têm exigências abstrusas de agradarem: quer calagem superdimensionada, adubação de fundação e de cobertura conforme as exigências das plantas, tratos culturais específicos e cuidados de manejo diferenciado.

Por riba o Pequizeiro é uma planta que gosta de viver anexo a outros pequizeiros, sua vida é simples, rústica e resistente a solos de baixas fertilidades, pH ácidos, aguenta 6 meses de sequidão, buscando água aquém a 10 metros de profundidade, suportando temperaturas entre 25 a 40ºC e totalmente dedicado à produção de madeira, frutos, refrigério e etc., ainda que preferindo muita luminosidade, solos de media fertilidade, de boa capacidade de retenção de água, de textural média, com composição argiloso-arenosos e material orgânico na ordem de 2%, pH em torno de 6, não dificulta as coisas.

O Pequizeiro (Caryocar brasiliense Cambess), da família da Caryocaraceae, aqui no Tocantins tem dois representantes: o Caryocar brasiliense sp. brasiliense, de porte arbóreo, cresce em torno de 10 metros e sua copa sombreia uma área de também 10 metros de diâmetro; e o Caryocar brasiliense sp. intermedium, o pequi-anão, tem porte arbustivo, geralmente chega a 2 metros de altura, é uma cópia autenticada do brasiliense brasiliense, de ocorrência restrita a alguns ecossistemas do cerrado, por exemplo, o pequi do Jalapão.

Mas, de todas as descobertas, a mais importante, segundo delação do povo do cerrado, consta da parte comestível do pequi, apontado como principal responsável pelo nascimento de muitas crianças nas regiões onde os pequizeiros abundam. O danado pegou cartaz e esta narrativa se transformou em veridicidade.

Mas outros explicam que esta fama começa na catação do pequi, onde os sertanejos nestas conjunturas afeiçoam facilmente para as incidências amorosas, surgidas nos andamento da cata.

Pela confissão de um sertanejo e sua companheira que disse que o trem sobrevém da seguinte forma: o sujeito abre as capas-dos-olhos, limpa as vistas, um abrasamento do corpo de riba para baixo e vice-versa advém, a palpitação aumenta sungando forte mais oxigênios pros pulmões, donde ao lado do sangue ergue o ferrolho da porta do coração, destramela a inconsciência, desmantela a consciência e termina num enchergamento da amada numa formosura antes despercebida, e daí, aquele pedaço da poesia, que diz, “na terra que dá piqui não tem homi froxu e ném muié sem pari”, vira berçário.

Inté pra nóis.

*Roberto Jorge Sahium é engenheiro agrônomo raiz, membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira.

Obs: A Portaria nº 32, de 23 de janeiro de 2019, do MMA, proíbe o corte de Pequizeiro (Caryocar spp.) em áreas situadas fora dos limites do bioma Amazônia, exceto nos casos de exemplares plantados.