As aventuras do Capitão Rumão e a Caranha do Tocantins (Piaractus brachypomus)

  • 20/Out/2021 09h12
    Atualizado em: 20/Out/2021 às 09h14).

*Por Roberto Jorge Sahium

Apruma o barco minha gente!

Vamos lá barqueiros de meias tigelas, coloquem os balaios das rapaduras no meio do porão. Os couros! Este monte de carniça, leva pra trazeira, sem afogar toda a popa.

- Ei Diva do Mén! Levanta o peito (proa) desta belezura e vê se nivela esta porcaria de carena e não deixa este barco comer água.

- Ei Zarói! Apruma um pouco a quilha pra riba e trava o acelerador na alta deste velho casco, porque daqui pra frente o rio é todo nosso e pra baixo todos santos ajudam.

Toda esta furupa de cantinela vinha das vozes dos barqueiros de convés e da estrondosa e rouca fala do Véio Rumão, comandante da Sereia do Tocantins.

O Sereia do Tocantins, dizem os antigos pescadores de Porto Nacional, foi quase todo construido em Landi, Cedro e Loro no assoalho do convés. Falam também que era um barco esquisitão, era um barco bojudo, com porão avantajado e tinha um motor muito barulhento e carregava até 2.000 arrobas de cargas. Descia quase sempre com rapadura, couro de boi-pé-duro, borracha de mangabeira e até ouro.

Na subida os velhos motores Deutz a óleo cru roncavam alto para vencer as corredeiras, vinham com os buchos cheios de mercadorias extraordinárias como tecidas, pólvora-negra, espoleta de espingarda por fora, chumbo, sal, soda, querosene Jacaré, ferramentas gerais, inclusive lampiões, máquinas de costura Singer e medicamentos, sendo o AMBRA-SINTO*T o mais solicitado.

Bom, meus amigos, isso acontecia no tempo que o Rio Tocantins era navegável.

O Capitão Rumão foi o mais afamado piloto de barcos comerciais que faziam águas no Rio Tocantins no Século passado. A descida do rio demorava os seis meses. Pra subir a demora era de um ano. A Sereia do Tocantins, barcão de azucrinar os cornos de muitos viventes ribeirinhos, formoso com Iara engarupada na proa, sempre indicando pra frente. Nos pedrais, em especiais os que se encontram frontalmente a Itaguatins e Lajeado, todas as embarcações subindo ou descendo o Rio Tocantins eram obrigadas a parar a viagem, retirarem parte das mercadorias constante das cargas transportadas.

Os transbordos eram realizados por meios carroções e em lombo de tropa até a ultrapassagem do trecho ocupado pelos pedrais.

Nesta oportunidade os barqueiros aproveitavam para reabastecerem as dispensas dos barcos. Pescavam e secavam os peixes ao sol e sal. Caçavam e preparavam carnes de latas, quase sempre porções de chichas de anta, jucus, patos selvagens. Tudo fritado na banha de porco, os únicos bichos embarcados vivos. Nem todos lavavam roupas.

Daí surgiu a história de que a melhor localidade para e pescar caranhas é logo abaixo das pedreiras, usando como atrativo o sangue.
Isto em parte é devera, ao tratar dos animais sobre as pedras, os sangues, as vísceras desciam corredeiras abaixo que atraiam piabas, piranhas e outras espécies forrageiras que consequentemente seduziam as caranhas.

Assim dito e bem dito, com poço farto, só dava as caranhas brutas nos anzóis.

Quanto ao Capitão Rumão, além das qualitudes aludidas, o Véio também tinha um apetite agudo, sozinho comia uma Caranha do Tocantins das boas, destas boas de brincar no anzol, pesando por aí uns três quilos. Geralmente assadas sobre uma trempe improvisada com varas de goiabinha de praia ou embrulhadas e cozinhadas com braseiro por cima, isto, quando tinham folhas de bananeiras disponíveis nas paradas.

O Mestre, como ele gostava de ser chamado, numa sentada devorava brincando uma caranha com farinha branca ou de puba, com adjutório de pimenta vermelha fermentada no vinho do limão, assim dizia Seu Adalgiso, velho pescador de Porto Nacional.

A Diva, diziam, foi a única mulher embarcada que viram por estas bandas, braba que nem formigão, não dava trela e nem farinha pra barqueiro de convés, agia como comandante ajudante de controle da carena e nas horas vagas preparava a caranha, prato preferido do Véio Rumão.

Daí que surge, a “Caranha Assada” como prato típico tocantinense, muito consumido no Natal e festividades nas épocas de 1940/1950, nas cidades barranqueiras do Rio Tocantins.

A propósito, a Caranha do Tocantins que estamos falando é aquela cujas escamas são cinza arroxeadas uniforme nos adultos e dorso escuro, cinza com manchas avermelhadas nos jovens. Estas caranhas são facilmente encontradas nas pirambeiras aflorantes no barranco direito do Rio Tocantins, entre as cidades de Pedro Afonso a Lajeado.

Batizado em Tupi é Ka´rãna e cientificamente de Piaractus brachypomus. Seu parente mais próximo é o Pacu (Piaractus mesopotamicus) da bacia do Rio Prata.

Trata-se de peixe pronto para a piscicultura industrial, aceitam bem a inseminação artificial (por meio da hipofização), come ração extruzada com facilidade, além de serem bem acolhidos comercialmente, e pode alcançar até 80 cm de comprimento e 20 kg de peso, e o mais importante desta espécie é que ela tem identidade e endereço fixo da Amazonia. Por estas qualificações esta espécie está sendo mais cultivado na China do que no Brasil (foto abaixo), segundo DIÁRIO DA MANHÃ 12 de outubro de 2018 21:45 | Atualizado há 3 anos.

Entretanto os peixes forasteiros vêm com os cadernos de anotações e com certidões de negativas de bons antecedentes e serviços prontos. Aliás, estes documentos vieram na frente, coisa que até hoje não reunimos as peças em um único caderno, tudo esparramado. Mas o que fazer? Se a sapiência e ciência, ainda não conseguia reunir a simplicidade e empatia com nossos peixes nativos.

Ameaçando a sua perpetuação da Ka´rãna, temos a pesca excessiva, poluição e destruição de seu habitat.

Inté pra nóis.

Nota

-Uma parte desta história do Capitão Rumão encontra-se lavrado escritura do livro “Pium” de Eli Brasiliense.

-AMBRA-SINTO*T popularmente conhecido por Ambracinto era muito usado para tratamento de gonorreia, tétano, infecções bucais e etc. Contém tetraciclina, um antibiótico indicado no tratamento das infecções causadas por germes sensíveis à tetraciclina.

-O óleo cru, que algumas vezes refere-se ao óleo diesel e outras ao petróleo bruto, podiam ser obtidos diretamente em plataformas marítimas ou continentais, sem um processamento prévio. O óleo cru não tem nenhuma aplicação em engenharia, mas é muito usado como combustível em fundições.


*Roberto Jorge Sahium é engenheiro agrônomo raiz, membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira.