Espíritos das trevas querem destruir o Jalapão; agora com hidrelétricas

  • 18/Out/2021 14h22
    Atualizado em: 18/Out/2021 às 14h26).

*Por Goianyr Barbosa

Um dos mais galantes suntuários naturais do planeta, o Jalapão, aformoseado por Deus, denominado por mim de o Éden tocantinense, cujo paredão da Serra da Catedral reproduz fielmente a imagem translúcida de uma catedral romana, passou, ultimamente, a ser atacado de maneira sistemática por grupos econômicos inescrupulosos, com o aval de muitas autoridades, que, sob o pretexto de infundir o desenvolvimento na localidade, desejam instalar projetos que vão na contramão dos interesses coletivos e da sua vocação natural. Pois bem, informações sigilosas, partidas de funcionários de dentro do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), traz o alerta de que tramita nos setores competentes do órgão, pedidos de licenciamento ambiental visando à implantação de Usinas Hidrelétricas (UHE’s) e de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH’s) na bacia hidrográfica do Rio do Sono e seus afluentes, na região do Jalapão. De pronto, o destemido presidente da Associação das Comunidades Quilombolas das Margens do Rio Novo, Rio Preto e Riachão, Joaquim Neto, protocolou no Naturatins, no último dia 13, uma solicitação para que o órgão forneça cópias dos processos de licenciamento ambientais que tramitam naquele Instituto acerca dos empreendimentos citados acima.

Por sinal, uma investida desta mesma monta já ocorreu em 2017, e só não prosperou ainda graças ao levante ousado e organizado dos moradores de Novo Acordo e região, que promoveram protestos, fecharam a TO-020 por diversas vezes, uma das principais vias de acesso ao Jalapão. Por sua vez, a Energias Complementares do Brasil, empresa que pretende executar a obra, está passando por cima de uma Resolução, a 101, do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, a qual suspende a realização de estudos no Rio Sono com a finalidade de exploração de energia elétrica até o ano de 2025. A título de esclarecimento, o Rio Sono é maior em matas ciliares da Bacia Araguaia-Tocantins, o segundo maior canal de desova de peixes dessa bacia, abrigo de muitas espécies em extinção, como, por exemplo, o Pato-mergulhão. Com a barragem, os impactos ambientais, sociais e econômicos serão irreparáveis para as comunidades indígenas da região de Tocantínia e Pedro Afonso, assim como nas regiões em que o empreendimento estiver instalado.

Peixes grandes da política estão por trás

Segundo uma fonte idônea, dois grandes tubarões da política tocantinense estão por trás dos novos investimentos energéticos que podem ser instalados no Jalapão. No entanto, os seus nomes, a fonte promete divulgar no momento certo e na hora certa. Para Joaquim Neto, presidente da Associação das Comunidades Quilombolas das margens do Rio Novo, Rio Preto e Riachão, além da rica biodiversidade, a região da bacia do Rio Sono abriga inúmeras populações tradicionais de quilombos, as quais estão distribuídas pelos municípios de Mateiros, São Félix e Santa Tereza, onde estão os quilombos da Barra da Aroeira. “Todas essas comunidades poderão ser impactadas pela implantação de novas centrais hidrelétricas, seja pelo barramento dos rios ou pelos novos modos de ocupação e uso do solo na região. Portanto, o potencial turístico poderá ser afetado, o ecoturismo e o turismo de aventura têm se destacado como importante fonte de renda para as populações do Jalapão, que têm nas suas serras, praias fluviais e cachoeiras importantes atrativos”, alerta.

Instado a opinar neste artigo sobre o tema em exposição, o conceituado professor e doutor em Ecologia, Renato Torres, da Universidade Federal do Tocantins UFT, pondera que a região do Jalapão é de grande importância socioambiental e muito sensível a alterações antrópicas, devido à fragilidade do seu solo e a qualidade dos recursos hídricos. “Poucas regiões do país possuem rios com a qualidade de água dos rios do Jalapão, tão importantes para as comunidades que dependem direta e indiretamente deles como da fauna singular que habita aquela região”, enfatiza. Segundo explica o professor Renato, uma das três populações remanescentes do Pato-mergulhão, espécie criticamente ameaçada de extinção, habitam a região, inclusive a população desta espécie no Jalapão é a mais ameaçada de todas. De modo que, nas palavras do professor, “qualquer intervenção nos rios do Jalapão poderá extinguir localmente o Pato-mergulhão, impactar o meio ambiente, além dos prejuízos sociais e econômicos aos habitantes dos locais atingidos”, prevê.

A propósito, os jalapoeiros atravessam um momento coberto de incertezas e riscos. As melhorias das suas condições de vida são fruto de seus esforços, graças ao implemento do turismo comunitário. No entanto, de uma hora para outra tudo se transmuta, pelo que se percebe, para o mais horripilante dos tempos, ou seja, contrariando desejos já expressos em pesquisas, ameaçam repassar o Parque de preservação ambiental a terceiros. De fato, a construção de um majestoso curral turístico, onde no seu interior venha abrigar modernos hotéis, parques de diversão, campos de várias modalidades esportivas, etc, vai encurralar o turista por ali, e Mateiros, São Félix sumirão do mapa turístico, retrocedendo aos penosos tempos do século passado. Como se não bastasse, brota neste instante, também, a gula de grupos ambiciosos, na solércia tentativa de matar os rios e seus encantos, evacuando habitantes de áreas próximas, caso se efetive a construção de tais hidrelétricas. Por fim, dias 21( Mateiros) e 22 (Palmas) de outubro ocorrerão as audiências públicas ao projeto de concessão do Parque. Nesse sentido, diga não à concessão do Parque do Jalapão aos que querem assaltar um patrimônio outorgado por Deus a cada um de vocês, jalapoeiros!

*Goianyr Barbosa é jornalista e consultor político