Artistas e intelectuais relatam bastidores e curiosidades da construção e experiências vividas nesses anos

  • 24/Set/2021 16h55
    Atualizado em: 24/Set/2021 às 17h09).

O complexo cultural, construído entre 1994 e 1996, completa 25 anos no dia 26 de setembro

O ano era 1994, Palmas ainda em construção, carente de equipamentos públicos já respirava cultura e começou a construir um grande complexo, o Espaço Cultural de Palmas, inaugurado em 26 de setembro de 1996 e que no próximo domingo completa 25 anos. Uma grande obra no centro da Cidade gerava muita expectativa e curiosidade por parte da população e artistas locais, algumas dessas testemunhas da história relatam um pouco daquele período.

“Partimos do princípio de que não podemos esperar sermos uma região desenvolvida para investirmos em cultura, ao contrário, precisamos investir agora em cultura, para que possamos alcançar, mais rapidamente, novos patamares de desenvolvimento”, assim, o então prefeito, Eduardo Siqueira Campos, explicou a construção do Espaço Cultural no encarte de apresentação da obra.

Diretora de Cultura da Secretaria de Educação, Cultura e Desportos à época, Luara Aquino Ramos conta que o Espaço Cultural surgiu da demanda dos artistas locais e assim foi apresentado: “um projeto de um espaço de Arte e Cultura, pautado nas necessidades levantadas por artistas, que buscou abarcar as reivindicações para a construção de um equipamento para suprir a carência da sociedade em atividades de cunho artístico e cultural, entretenimento, de formação, de convivência e de desenvolvimento cultural”.

A pedra fundamental da obra foi lançada em 13 de setembro de 1994, com o plantio simbólico da ‘semente da cultura’, em uma pirâmide de vidro que continha uma oração com as expectativas sobre a conclusão da obra.

Dançando na lama

Uma das pessoas que acompanhou a construção, a 1ª bailarina de Palmas, Meire Maria, conta que para a conclusão da obra foi preciso buscar recursos no exterior. Para isso foi gravado um videoclipe que seria enviado para embaixadas de diversos países. “Eu fui chamada, junto com a Cia de Dança Contágius, para nos apresentarmos na construção do Espaço Cultural, e nós dançamos onde seria a fundação do palco do Theatro Fernanda Montenegro, literalmente na lama, isso eu nunca vi em nenhum outro local”, conta Meire Maria.

Já o ator, diretor e atualmente professor de teatro no Centro de Ensino e Treinamento Artístico do Espaço Cultural José Gomes Sobrinho, Cícero Belém, falou da expectativa que havia sobre a obra, que era mantida um pouco em segredo. “Não nos era permitido visitar a obra, quem apresentava era o prefeito em ocasiões específicas. Uma dessas ocasiões foi quando a Cia. Chama Viva trouxe a atriz Cristina Pereira para a peça 'O Desejado', que a princípio seria uma apresentação na abertura do teatro, mas não foi possível pois o teatro ainda não estava pronto. Então a atriz foi convidada a conhecer a obra, e nós do Chama Viva fomos junto. Assim, temos fotos da Cristina Pereira olhando o palco do teatro, que era um grande buraco”.

A obra e a inauguração

O projeto do prédio do Espaço Cultural de Palmas foi concebido em 1994 pelo arquiteto Paulo Henrique Paranhos, e segue linhas modernas. A Obra, de 9.440 m², foi construída entre 1995 e 1996 e inaugurada em 26 de setembro de 96. O complexo recebeu o ‘Destaque em Obra Construída’ no 3º Prêmio Jovens Arquitetos de São Paulo e também foi escolhido na Alemanha como ‘Architect of Awa’.

O complexo do Espaço Cultural José Gomes Sobrinho comporta a Grande Praça, o Theatro Fernanda Montenegro, O Cine Cultura – Sala Sinhozinho, a Biblioteca Jornalista Jaime Câmara, Galeria Municipal de Artes, as salas administrativas da Fundação Cultural de Palmas e o Centro de Treinamento e Ensino Artístico.

Uma vasta programação foi realizada para a inauguração do Espaço Cultural, com shows regionais, nacionais, palestras, oficinas e exibição de filmes. Do cenário nacional houve apresentações do maestro Arthur Moreira Lima, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo, palestra com Ziraldo, entre outros. O cinema exibiu a trilogia de Glauber Rocha, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, ‘Terra em Transe’ e ‘Dragão da Maldade’.

O Theatro Fernanda Montenegro recebeu os espetáculos de Tom Jobim, apresentação da Cia. Quasar de Dança e Dona Doida, com Fernanda Montenegro; a Galeria recebeu a exposição coletiva de artes visuais com Cláudio Tozzi, Carlos Vergara, Rubens Gerchman e Siron Franco e de fotografia com obras dos fotógrafos Benhur, Edson Lopes, Elson Caldas, José de Arimatéia, Luciano Ribeiro, Luiz Bala, Márcio de Pietro, Mitt, Roberto Carlos e Thenes Pinto.

Os artistas locais inauguraram o teatro um dia antes da atriz Fernanda Montenegro, com o show ‘Palmas para a Canção’. A cantora Mara Rita foi uma das responsáveis pela produção. “Eu fiquei com a produção do show e então sugeri para o pessoal que a gente cantasse as nossas músicas. Eu disse: gente, nós vamos cantar para os convidados do prefeito, é a oportunidade que a gente tem de mostrar o nosso trabalho. Então de 32 músicas, 28 foram autorais, e eu acho que aquele foi o momento que a gente deixou de ser músico de boteco para virar artistas do Tocantins”, contou.

No espetáculo ‘Palmas para a Canção’, se apresentaram Abrãozinho, Betinho Naves, Braguinha Barroso, Lúcia Quilombo, Clésio, Diomar Naves, Everton dos Andes, Gerê, Laercio, Marcos Ruas, Márcio Belo, Mara Rita, Miriam, Mônica Calassa, Chiquinho Chocolate, Nando Cruz, Solé e Willian BornJazz.

Escritores contam sobre sua experiência nesses 25 anos

Com suas proporções grandiosas e arquitetura audaciosa, o Espaço Cultural José Gomes Sobrinho já impressionava quando estava sendo construído. É o que relembra dois escritores e frequentadores assíduos do complexo cultural, que falam de suas primeiras lembranças desse grande monumento da Capital e como impactou suas carreiras na literatura. Edson Cabral e Tião Pinheiro contam que acompanham o Espaço Cultural desde a sua obra, que já apontava sua grandiosidade.

“Visitei o canteiro de obras do Espaço Cultural e fiquei emocionado, pois era muito grandioso. Lembro que o complexo, ainda em construção, recebeu um show do músico Oswaldo Montenegro”, recorda Tião Pinheiro, jornalista, escritor e poeta. Ele detalha que tomou posse na Academia Tocantinense de Letras (ATL) em 1999 e destaca dois grandes momentos para ele no local, que foram os lançamentos dos seus livros ‘De sonhos e de construção’, em 2008, e ‘Alma Leve’, em 2015. “O primeiro lançamento fez parte do projeto Tião Cidadão, quando recebi o Título de Cidadão Tocantinense, lancei o livro e um CD com as poesias musicadas, no Theatro Fernanda Montenegro e com telão na grande praça”, narra.

Cultura

Meu pai, que era uma artista, tocador de violão, dizia que a arte é o espelho da alma. “E foi a arte e a produção cultural, inclusive no formato virtual, que impediu que a tragédia da pandemia da Covid-19 fosse ainda maior, que garantiu uma válvula de escape nos momentos de isolamento. A cultura nos cutuca para a cidadania, a busca da dignidade e para a espiritualidade, é fundamental na construção de uma cidade e de uma sociedade”, pontua Tião Pinheiro.

Ele ressalta que participou de muitos eventos no local, a exemplo de debates como jornalista e como escritor, e frisa que além do espaço físico, é fundamental a elaboração de uma política cultural permanente e nesse sentido o Espaço Cultural de Palmas já teve momentos maravilhosos, com grandes projetos.

Divisor de águas

“Eu acompanho o Espaço Cultural desde sua construção e estive presente na sua inauguração em 1996. Participei muito como público, sempre presente nas apresentações, como organizador de atividades e dirigindo espetáculos. Lembro que a minha primeira participação foi fazendo um texto de espetáculo de dança e dando suporte na organização da apresentação”, detalha Edson Cabral, administrador, escritor e servidor público. Cabral é um dos membros da Academia Palmense de Letras (APL) e um dos organizadores do Terça Literária, evento com objetivo de difundir a produção literária de escritores tocantinenses.

“O Espaço Cultural foi um divisor de águas na construção de Palmas, deu contorno para a cidade. O complexo fica em uma área central, preservando uma grande área verde, às margens do córrego Brejo Comprido, deixando um amplo espaço urbano livre e aberto. Além do fomento à cultura, integrando o local com periferia através dos projetos com as escolas, é um grande disseminador da cultura local, nacional e internacional”, explica Cabral. Cronista, Cabral recorda-se de uma coletânea de crônicas lançada no 25º Aniversário de Palmas, ‘Crônica de uma nova cidade’, com a participação dos membros da APL escrevendo sobre a Capital.

Os dois escritores frisaram que a cultura é fundamental nesses novos tempos que estamos vivendo, passando por uma pandemia, por novos contornos políticos e um Brasil transbordando problemas e desafios. Ambos avaliam que nesses momentos de turbulência e desafios, a cultura será essencial para a compreensão e reconstrução do novo viver.

José Gomes Sobrinho


O nome Espaço Cultural José Gomes Sobrinho foi adotado por Lei em 2004, em homenagem ao poeta, escritor, ativista cultural, José Gomes Sobrinho, que foi figura marcante tanto no processo de criação do Espaço, como em outros momentos importantes da cultura de Palmas.