Carro-de-bois

  • 22/Set/2021 09h38
    Atualizado em: 22/Set/2021 às 09h42).

*Por Roberto Jorge Sahium

Hoje quero enveredar a prosa para o lado do carro de bois, veículo primitivo e ao mesmo tempo moderno ao meu ver. Estes veículos motorizados por bois, carregaram Reis e Rainhas, serviram nas guerras transportando canhões e até generais.

Na roça brasileira os carros de bois foram de fundamental importância: abreviou distâncias; puxou mandioca para ser transformada em tapioca; carreou canas-de-açúcar que adoçou a vida de muitos e café que deu à aristocracia riqueza e fé; transportou milho para produção de comida à bicharada e à nação; puxou muito outros mantimentos e animais domésticos para completar os provimentos; e ajudou a erguer cidades inteiras, transportando materiais de construções, água, esgoto e outras circunlocuções.

Este utilitário unia o transporte de pesos e pessoas sem a necessidade de auxílio do compartimento externo, diferente de uma carruagem.

A plataforma de construção dos carros de bois fora passada de geração a geração, vem de montadoras que existiam a mais 5.000 anos passados. O termo “plataforma” talvez não estava em uso naquele andamento, entretanto quando dizemos que este utilitário é primitivo e ao mesmo tempo moderno, esta asseveração é fácil de averbar.

Sim! Modernos! Pois a maioria dos carros de passeio de hoje usa uma plataforma de chassi/ monobloco semelhantes aos usados pelos ditos primitivos carros de boi. O chassi/monobloco do carro de boi é formado pelo cabeçalho, cheda e três travessas.

Vamos aos veículos de hoje: comecemos pelo o túnel central, com a função de criar espaço para passar o eixo cardã, responsável pela força de tração, cuja resultante tem formato de Y. O túnel central é aquele murundum que fica entre os bancos dos carros de passeio, especialmente nos veículos de tração traseira, tem a obrigação também de prenderem as travas às longarinas e dar maior rigidez ao chassi.

A propósito das longarinas dos veículos atuais, é parte do chassi/monobloco, geralmente em formato de U é a estrutura de sustentação de todo o veículo, onde é montado a carroceria, assoalho e o reforço para colocar o macacos.

Ligeiro pulamos o assunto para os carros de bois, começando pelo madeirame central, designado de cabeçalho, responsável pela força de tração, cuja resultante tem formato de Y, peça que se estende da última travessa da mesa denominada de cadião ao pigarro, peça que prende a dianteira do utilitário ao primeiro cambão da junta de bois às cangas. Nos veículos de hoje o cabeçalho foi substituído pelo túnel central, por onde passa o cardão.

As longarinas, digo a cheda dos carros de bois a principal peça do chassi/monobloco do carro de boi e nela as peças do sistema de suspensão, mobilidade e sustentação de peso do carro de boi são fixadas, como, também modela a mesa do carro, prende os fueiros, que são os suporte para esteira geralmente artesanatadas com ripas de bambus ou por couro de gado zebu cru. A rigidez da cheda é garantida pelo seu formato U e por três travessas e transversais ao cabeçalho. A travessa final recebe o nome de cadião e as outras de arreia.

Quanto as estaturas de um bom carro de boi padrão tem que ter 142 cm de altura da mesa nivelada, 180 cm de largura e 559 cm de comprimento, e que tem envergadura para carregar 4.800 espigas de milho, que antigamente correspondia a 960 quilos de peso.

E Assim dizendo, não sei se a semelhança é mera coincidência, ou vice versa, essa plataforma de construção do chassi/monobloco dos carros de bois, por não ter uma rigidez torcional muito elevada, vem a ser uma tecnologia aplicada, principalmente em automóveis de passeio de luxo, embora alguns utilitários médios também tenham feito uso dessa estrutura.

Agora quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?

Diante desta história, lembrei-me de Brasil e Brasileiro, uma junta de bois comprada pelo meu Vô Gaspar. Junta quase parelha, mascarados, bois curraleiros do meio, castrados e pesavam em torno de 250 quilos.

Os bois pertenciam ao Seu Zé Pereira que morava no dobrado da Serra Feia na região do município de Varjão. Mestre Zé Pereira, como era conhecido, tinha como sina a arte de castrar, mochar e amansar bezerrotes, que consistia em adestrar os animais para dupla aptidão: bois de cabeçalhos e de guias e assim os bois ficavam bem qualificados para puxar carro de bois e também para serviços de tração animal, como: a carpideira usada para limpar um terreno de mato e ervas daninhas; e o arado de aiveca com formato em V, com tombador de terra.

Seu Zé aprendeu também o ofício de artífices de carros-de-bois e carretões, seu passatempo favorito. Os nomes de Brasil e Brasileiro correm por conta da patriotada do Mestre Zé e não adianta querer mudar os nomes dos bois, eles não atendem.

Seu Gaspar corria léguas de bois chifrudos, grandes e pesadões, porque davam muito trabalho nos serviços de arações, atrapalhando as manobras de pegar a outra linha para o arado aiveca virar a leiva. Nesse tempo o grosso dos serviços de roça eram tocados a tração animal. Os meninos – lerdões, preguiçosos carregavam água e comida para os trabalhadores. Os meninos espertos eram candeeiros, puxadores de juntas de bois, ora nas arações, ora nos carros-de-bois. Agora vejo que os espertos não puxavam bois.

Ô vida cruel era aquela! Baixa produção, lucro! Tinha que trabalhar muito. Contudo tenho boas lembranças desta época, mas moer café às quatro horas da manhã não tenho um pingo de saudade.

Lembro também de serviço de aração a ser feito num terreno de duas quartas arrendado, terra boa, culturão, chão de baixada, a tempo destocado e precisava de aração para cortar umas moitas de capim Jaraguá. Chegando lá com os bois ainda no turvo do amanhecer e aquela chuvinha de molhar bobo sobre o lombo, nada de enxurrada, era água que vinha do céu para amaciar o solo. Brasil e Brasileiro encangados, cabeçalho preso na corrente, a pareia assumiram suas funções à testa. No primeiro arranque espocaram a canga. Nova canga de garapa nos cangotes foi acertada. Tudo pronto, com meu avô agarrado na rabiça do arado-de-aiveca e eu na frente candeando os bois, daí descobrimos que o Brasileiro se esforçava, porém o Brasil não queria nada com a dureza, e nisso começa os gritos de comando: hô Brasil, hô Brasil, tudo que era de psicologia para bovinos foi usada e o boi firme nos cascos e, vez por outra, queria me acertar com a cabeça.

Lá pras tantas, ainda no começo do dia, Brasil puxado pelo Brasileiro também enleirou o passo. Gastamos três dias de seis horas cada dia para deixar as duas quartas de chão com o primeiro ferro de aiveca, pronta para receber o calcário. Velho Gaspar já usava jogar calcário no solo para corrigir a acidez.

Duas quartas de terra é igual a 16 quadros, que é igual a 12.100 m2, terra suficiente para produzir, na ocasião, cinco carros de milho, quantidade para encher nosso paiol e ainda espaço para guardar umas 100 arrobas de abóboras comuns maduras, mantimentos para a porcada. Um litro de plantio é igual a 605 m2, o que corresponde a 1/10 de uma quarta de terra. Um quadro de terra mede a 756,25 m2 ou 12 braças e meia por 12 braças e meia. Uma braça são 2,20 m.

Agora! Só precisa que nossas divindades do Congresso e que as forças ocultas escondidas de pique esconde nos labirintos da Praça dos Três Poderes, que já causaram muitas baixas no desenvolvimento deste país, deixem a Ordem e Progresso remarcar o treeiro da Bandeira Nacional da República Federativa do Brasil.

Inté pra nóis.

*Roberto Jorge Sahium é Engenheiro Agrônomo raiz e Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira.