Carlesse dá chibatadas em deputados contrários à “venda” do Jalapão

  • 13/Set/2021 08h54
    Atualizado em: 13/Set/2021 às 08h57).

*Por Goianyr Barbosa

As chibatadas desferidas pelo autoritário governador Mauro Carlesse, na semana que transcorreu a votação e aprovação do Projeto de Lei nº 5, de 7 de junho de 2021, que permite a concessão à iniciativa privada dos parques estaduais do Jalapão, do Cantão, do Lajeado e do Monumento Natural das Árvores Fossilizadas veio, de imediato, por meio de demissões em massa de funcionários ligados aos deputados Zé Roberto, Elenil da Penha e Valdemar Júnior, os quais votaram contra o famigerado projeto. O deputado Júnior Géo, por sua vez, votou contrário, mas não é detentor de cargos no governo estadual. Todavia, como noticiado pelos veículos de imprensa, a caçada foi dura e impiedosa até com deputados que não compareceram no dia da dita votação do projeto, como foi o caso do deputado Nilton Franco que teve seus cargos extintos numa só canetada. Afinal, a punição em forma de mandar às ruas funcionários indicados pelos parlamentares revoltosos, deixou os que acompanham os acontecimentos da política tocantinense, usando uma expressão bem nossa, de queixo caído, perplexos. Porquanto, medidas dessa natureza já aconteceram nesse solo em passado longínquo e já estavam sendo deletadas da nossa memória. Quem acompanha a política por aqui sabe perfeitamente que há muito não se via um governante ser tão truculento e surdo para com os anseios e vontades de um povo.

Tão logo o projeto deu entrada no Legislativo, um deputado da base carlessiana, num momento de puro reflexo e lucidez, disse alto e bom som para que todos ouvissem: “Eu não aprovo um projeto desse naipe. Prefiro ser enxotado para fora da base a me submeter a prejudicar o bom povo do Jalapão”. Pois bem, não demorou muito para a fala do parlamentar aterrissar no gabinete do governador e derreter-se. Segundo uma fonte, em poucos minutos o governador convoca o parlamentar ao seu gabinete, localizado no último piso do Palácio. Lá chegando, o governador mal o cumprimentou e já foi para a ofensiva: “Nobre deputado, soube que você já se posicionou contra o projeto que acabei de enviar ao Legislativo. Caso sua posição seja mantida, devolva-me os cerca de quatrocentos cargos que possui no meu governo”. Quem presenciou as reprimendas, conta que o pavor tomou conta do parlamentar, o qual, com voz trêmula, pediu licença ao governador e foi segurando as calças ao banheiro, em razão do intenso desarranjo intestinal provocado pelo ralho.

Governador chantageia e faz teatro

A canetada raivosa do governador Carlesse pondo no olho da rua até mulheres na fase de gestação, diretores de escolas com anos de experiência no processo administrativo escolar, revela uma face selvagem até então desconhecida do mandatário do Palácio Araguaia, ou seja, o jogo bruto, frontal, acima da linha da cintura contra parlamentares que, mesmo não tendo o apoiado na sua eleição, votam sempre as proposituras emanadas do Palácio. Como é sabido, medidas assim têm como finalidade amedrontar vozes dissonantes, deixar o parlamento de “quatro”, servindo apenas para bater continência e rezar as missas do amém às determinações palacianas. Por outro lado, o tocantinense, não duvidem, vai cobrar duro nessas próximas eleições de parlamentares que silenciaram suas vozes ou omitiram-se, não sendo dignos do voto e da confiança depositada. Nesse sentido, é grande a aposta na renovação tanto no Legislativo estadual quanto nas oito vagas que o eleitor tocantinense vai enviar à Câmara Federal. Certamente, será uma encarniçada batalha.

Segundo informações obtidas por pessoas com trânsito dentro do núcleo palaciano, é provável que o governador Carlesse revogue, nos próximos dias, as demissões dos servidores ligados aos deputados que contrariaram a sua orientação na votação da concessão dos parques estaduais. Ao que tudo indica, o ato retaliatório foi simplesmente uma advertência, um recado curto e grosso à sua base e aos que nutrem simpatia no Legislativo ao seu lema de governo. Em resumo, é aquela velha máxima vampirista do morde e assopra. Para o deputado petista Zé Roberto, que conversou demoradamente com a nossa reportagem, o motivo de haver se colocado ao lado dos jalapoeiros fundamentou-se na premissa de que o projeto não possui transparência, não oferece espaço para o campo das discussões, além de ameaçar todo o ecossistema da região, a sobrevivência das comunidades que vivem do artesanato e do capim dourado, além dos pequenos empresários que são sustentados pelas atividades turísticas de pequeno porte.

Um Paraíso sob ameaça

Quem vem acompanhando as reiteradas justificativas do governo estadual para a entrega dos parques estaduais a terceiros, fica impressionado com o discurso ilusionista, falho, além de um viés ambíguo, visto que, na fala governamental nunca é mencionado o parágrafo único do projeto, que já se transformou em Lei e que estabelece: “As parcerias previstas neste artigo poderão abranger em seu objetivo a concessão de áreas adjacentes às suas respectivas unidades de conservação, de titularidade estadual, desde que haja cessão de posse formalizada e que permita a subcessão”. Ora, qual é o interesse do governo de não explicitar essa parte do projeto? Por que escondê-lo das comunidades envolvidas e do povo tocantinense? No caso do Jalapão, os 150.000 (cento e cinquenta mil) hectares do Parque não são suficientes? Portanto, extrapolar a área dos parques e açambarcar as circunvizinhanças, conforme revelado no projeto, torna-se um negócio inconcebível, lesivo ao povo e à autonomia de cada município abrangido. Quanto aos técnicos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDS), que cooperam na feitura econômica do projeto, é salutar dizer que os mesmos não conhecem a realidade desse povo obscurecido durante séculos. Além do mais, está fresca em nossa memória que foram os mesmos técnicos, em passado não muito distante, que aprovaram empréstimos farsantes da aludida instituição para países como Cuba, Venezuela, Nicarágua, Bolívia, dinheiro esse, é bom frisar, que não retorna nunca mais. Portanto, a presença do BNDS nesse negócio não assegura legitimidade alguma, de que não há serpentes enganosas já infiltradas dentro do Éden tocantinense – o Jalapão.

Por fim, a Lei 1.172, de 31 de julho de 2000, que criou o Parque Estadual do Jalapão, teve como premissa embasamentos visionários, ou seja, de prevenção e preservação para com o meio ambiente, visto que ali encontra-se um bioma diferenciado, raro dos demais existentes. Foi nessa perspectiva que a justificativa floresceu: “A área do Parque é um dos conjuntos naturais mais exuberantes do Estado do Tocantins. A diversidade de sua vegetação é altíssima. Sua fauna é representativa e abriga espécies raras e ameaçadas de extinção como o pato-mergulhão, uma das aves mais ameaçadas das Américas, o lobo-guará, a arara-azul-grande, e a águia-cinzenta. A vegetação de cerrado ralo combina com a areia, dunas, serras, vales, veredas e cachoeiras de águas azuis deixa no visitante a sensação de estar vendo algo surreal. Portanto, o objetivo de criação do Parque do Jalapão figura-se na proteção do ecossistema frágil, coberto por uma extensa área de cerrado ralo e campo limpo com veredas, bem como a fauna a ele associado”.

Finalmente, aguarda-se com muita expectativa que autoridades e sociedade organizada pertencentes a outros parques, como o do Lajeado e Cantão saiam das suas zonas de conforto e defendam seus patrimônios, a exemplo do que vêm fazendo patrioticamente os povos jalapoeiros, os quais, com as armas da coragem ensinam a todos como deve se portar quando o inimigo bate à porta do seu terreiro para o agredir e ameaçar.

*Goianyr Barbosa é jornalista e consultor político.