Queimadas é fogo.

  • 09/Set/2021 10h35
    Atualizado em: 09/Set/2021 às 10h40).

Valei-me São Floriano - que quentura doszinfernos! Expressão dita dia desses pelo Seu Antonio, morador rural acolá na cabeceira do Córrego Brejo Comprido em Palmas.

São Floriano é o santo da Igreja Católica considerado padroeiro dos bombeiros e dos limpadores de chaminés e protetor das pessoas envolvidas em incêndios. Sua festa é comemorada no dia 4 de maio.

Quanto ao Seu Antonio, este tá seguro de razão para vozear quanto esta quentura dos zinfernos, na sua indignação fala que o fogo tem presença garantida todos os anos, de onde desce o espinhaço da Serra do Lajeado lambeando tudo. Acrescenta na prosa, que acolá praquelas bandas, o Saci Pererê anda solto e dando muita dor de cabeça no Caipora, primo primeiro do Curupira, o danado possui instinto desatinado, não pode ver pasto sujo, roça de coivara, lixo em quintal alheio, vai logo atiçando o pito-de-paia e colocando fogo em tudo pela frente.

Falando no Saci, notícia que ele recentemente ganhou uma prótese perfeita e tira onda de moto 150 cilindrada, dessas comuns por aí, comprada com recurso do PRONAF.

Deixando os costumes de lado, na prosa acertada o que acontece de verdade é a rosa dos ventos batendo malho sobre a atmosfera, avivando a ventania no trieiro costumeiro que vem do além derriçando tudo que depara pelo caminho, aborda à cacunda da Serra do Taquaruçu arando tudo, e chega rebuçando o Vale do Córrego Agua Fria, sinalizando que a estiagem chegou trazendo na garupa muita segura, poeira e fulingem. Em si, trata-se de um fenômeno natural, acontecem todos os anos, a seca não pode ser evitada.

No entanto tal situação azucrina o juízo pela ideia da repetição das queimadas, também coisa de todos os anos, como diz Seu Antonio. O fogo galopa no mesmo aceiro e na rabeira dos sopros dos ventos, quando não queima tudo a sapecagem da pastagem nativa e do pasto manso é coisa corriqueira. Nesta empreitada as chamas por onde passam chicoteie e esturrica o chão, mata os bichos do mato e os bichos de criatórios. E, na maldade pura deriva a fuligem.

A fuligem, conhecida como negro-de-fumo, uma das variedades mais puras de carvão apresentando-se na forma amorfa, constituindo uma dispersão coloidal de migalhas muito finas, em coincidência com a baixa umidade do ar, aqui nos nossos terreiros, contribui para complicações várias, segundo profissionais da saúde, assalta o sistema respiratório, lotando os centros de atendimentos médicos, tornando-se cantinelas de rádio e televisão do nosso verão, das causas preocupantes e principalmente prejuízo na saúde como um todo.

Com relação aos profissionais da área agronômica, a preocupação deriva de como os campos abrasados vitrificam e intensificam a degradação dos solos. Daí o diabo dita o pacote da miséria na sequência infernal: “fogo, erosão e abaixamento do lençol freático”, que na realidade isso tem nome, sobrenome, trem-ruim da roça. A erosão é mãe da voçoroca. No sertão é dizer popular – “coisa ruim chega sempre acompanhada”.

Assim, se imaginarmos os problemas gástricos, esfolamentos e feridas no estomago da terra, com seus princípios nos períodos chuvosos, medir com rigor a quantidade de terra fértil enrijecida pelas queimadas, como também estimar a quantidade de solo levado pela chuva aos córregos e rios, originando os assoreamento, inundações e a seca dos mananciais no período de estiagem é graúdo o engano. Calcula-se uma fortuna este prejuízo, para todos e todas de nós, na socioeconomia poderíamos debitar milhares de empregos e rendas de prejuízo ao ano. No meio ambiente, os prejuízos são incontáveis.

Na mesma ribanceira e descendo na mesma correnteza, a preocupação com relação a estas maldições na sustentabilidade, atinamos apoiado no bem, lembrar que existe muitas práticas agrícolas recomendadas pela assistência técnica e extensão rural à disposição do homem do campo e do agricultor urbano, como: preparo mínimo, calagem, fosfatagem, plantio em nível, rotação de culturas, plantio direto na palhada, fixação do nitrogênio biológico e uso de bioadubos, etc.. Na pecuária aconselhamos como alternativas ao uso do fogo: uso da ureia no sal, banco de proteína, integração lavoura pecuária, silagem e feno em pé. Todas estas tecnologias aconselhadas você encontra na internet, ou poderão obtê-las diretamente com técnicos que prestam serviços de extensão rural privado ou público, neste caso a Secretaria de Desenvolvimento Rural de Palmas e o Ruraltins.

Só pra terminar, e agradecendo pela sua paciência, lembrando que a obrigação de combater à seca é todos e todas.

*Roberto Jorge Sahium é Engenheiro Agrônomo raiz e Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira.