Discurso de Filipe Martins é o retrato de uma sociedade preconceituosa e intolerante com as diferenças

  • 30/Ago/2021 09h00
    Atualizado em: 30/Ago/2021 às 09h02).

O discurso feito pelo vereador Filipe Martins (PSDB), na última terça-feira, 24, se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais e desde então, tem dado o que falar. O parlamentar, que se declara conservador, resolveu mais uma vez, utilizar a tribuna da Câmara de Vereadores para expressar sua opinião sobre temas polêmicos. Martins criticou a ideologia de gênero nas escolas, que segundo ele limita o poder dos pais na educação dos filhos, aborto, união homoafetiva, lei da palmada, entre outros. Por ser um representante da sociedade e um formador de opinião, ao tratar de temas como estes, o parlamentar não deveria negligenciar jamais os estudos, dados e embasamentos sobre o assunto, assim como adotá-los em sua fala, ao invés de guiar-se por achismos, como foi claramente demonstrado.

Independente da opinião pessoal do nobre parlamentar, a narrativa de pouco mais de dez minutos me levou à reflexão e alguns questionamentos. A intolerância é uma obra humana, mas qual o limite entre liberdade de expressão e ofensa? Quando ponderar sobre o que dizer ou como dizer? Entenda, não questiono aqui o pensamento do vereador, mas sua postura enquanto pessoa pública, em expressar tal opinião. Representante de uma sociedade plural, composta por indivíduos diferentes, Filipe Martins não considerou a influência do seu discurso para a opinião pública e na formação destas opiniões. Por que é tão difícil aceitar, reconhecer e respeitar as diferenças? Usar a fé, princípios ou valores como justificativas para alimentar o ódio é um contrassenso, pois independente do Deus, a essência das religiões são atitudes opostas. Uma sucessão de frases preconceituosas, homofóbicas, que demonstraram claramente o desconhecimento, ignorância e total falta de empatia.

O vereador mencionou as pautas comparando as perspectivas do atual e ex-governo na defesa de cada uma delas. Filipe Martins ressaltou que os temas são “uma afronta diretamente àquilo que defendo e acredito”, disse. O parlamentar foi além ao afirmar que “a livre orientação sexual é a porta para abertura da pedofilia” e insinuou que mulheres trans usariam os banheiros unissex para estuprar outras mulheres. Tais declarações levaram o coletivo Somos a registrar um boletim de ocorrência contra o parlamentar pela prática de homofobia.

É lamentável a postura do vereador. É lamentável que ainda no século XXI existam pessoas tão intolerantes. É lamentável que as comunidades homoafetivas, assim como negros, mulheres e tantos outros grupos ainda precisem lutar por direitos já conquistados. É inaceitável quando esta postura surge daqueles que deveriam representar e lutar por estas minorias.