Em Natividade, Martinha é abatida quando voava para um segundo mandato

  • 22/Mar/2021 09h57
    Atualizado em: 22/Mar/2021 às 10h00).

*Por Goianyr Barbosa

Erigida na encosta de uma exuberante montanha, em grande parte por mãos escravas africanas, por volta do século XVII, Natividade ocupa, hoje, lugar de proeminência entre os 139 municípios tocantinenses, em razão da sua relevância histórica, cultural e religiosa. Em 2008, através de um concurso nacional, a cidade foi escolhida, numa acirrada disputa, a figurar entre as Sete Maravilhas do Brasil. Em face deste feito, Natividade, que já seduzia visitantes de várias partes do país, passou a ser um importante polo turístico, gerando expressivas divisas ao município. Por outro lado, quem se aventurar numa excursão pela história política de Natividade, a partir dos anos 70, constatará que os governantes, na sua quase totalidade, originam-se de famílias tradicionais, de troncos brotados do solo nativitano, e quem não descende dessa ancestralidade teve que juntar-se a ela, como exemplo, os prefeitos Chico da Natividade e Joaquim do Posto. Entretanto, nas eleições municipais de 2008, uma humilde professora, Martinha Rodrigues, intransigente na defesa dos problemas sociais, tenta quebrar toda uma mística de que, para alçar ao Executivo nativitano seria preciso passar pelo endosso das castas políticas do município. Resultado: disputou, porém não obteve êxito, perfazendo menos de uma centena de votos. No pleito seguinte, em 2012, começa a mostrar força eleitoral, apesar de não se eleger, sai da disputa ancorada por 16.42% dos votos válidos. Já em 2016, obstinada e resiliente, concorre e deixa para trás nomes consagrados da política local. No governo, as primeiras medidas decretadas por Martinha frustraram as expectativas populares, conforme pesquisa acerca de seu governo.

Na primeira sondagem do Ipepe, em setembro de 2019, a um ano e dois meses do pleito, com sete prováveis candidatos, o ex- prefeito Tiquim pontua com 18.01%, seguido do também ex-prefeito Joaquim do Posto, com 16.15%, e o Dr. Thiago, debutando na política, aparece com 13.04%. Pela margem de erro da pesquisa, tanto o Dr. Thiago como Joaquim estão empatados tecnicamente com Tiquim, dentro da margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. Na referida pesquisa, Justino Camelo apareceu com 11.80%; Artur Ribeiro, 8.71%; Martinha, com 8.7% e Jimmy Mikail, com 7.45%. O número de indecisos e dos que não sabem em quem votar é de 4%, enquanto o percentual de votos em nenhum e nulo é de 12.42%. O Ipepe procurou saber, naquela ocasião, o grau de satisfação do nativitano com a gestão da prefeita Martinha. De acordo com o estudo, 8.02% disseram estar satisfeitos com a administração da prefeita, ao passo que 62.96% disseram estar insatisfeitos e 19.75% achavam a conduta do governo municipal mais ou menos. Já 8% declararam estar satisfeitos em partes e 1.23% não opinaram. Noutro questionamento, foi perguntado ao eleitor o seu grau de conhecimento para com o advogado Thiago Jayme. Os dados apurados revelam que, entre conhece bem, conhece pouco e mais ou menos o percentual chega a 49.4%. Em contrapartida, 49.38% disseram não conhecer o jovem advogado. Ora, naquela altura do jogo ficou bem nítido que, se metade dos entrevistados que afirmavam conhecer o Dr. Thiago já o faria situado junto com os primeiros, logo uma estratégia de fazê-lo conhecido na outra faixa do eleitorado, sem dúvida alguma o colocaria à frente dos concorrentes, o que de fato sucedeu.

Quem é de e de onde descende o jovem prefeito

Natural de Natividade, Thiago Jayme Rodrigues de Cerqueira graduou-se em Direito pela Universo Goiânia, com apenas 19 anos. De posse do diploma e da carteira da OAB, regressou para Natividade onde assentou banca e foi servir ao seu povo. Filho de renomada família, pelo lado materno é sobrinho do ex-deputado Frederico Jayme, que já foi secretário de Estado, deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, governador interino e duas vezes presidente do Tribunal de Contas de Goiás (TCE). Já do lado paterno, é filho do advogado Heraldo Rodrigues de Cerqueira, cujo irmão, Wilton Cerqueira, teve uma passagem brilhante como deputado por Goiás, nos idos de 70. Além de destacado jurista, Wilton aposentou-se como conselheiro do Tribunal de Contas de Goiás (TCE). Retornando às pesquisas, a segunda sondagem para saber como andava o quadro político em Natividade, aconteceu em março de 2020, portanto já no ano eleitoral. Pela estimulada, com 10 nomes à escolha do eleitorado, o Dr. Thiago encontra-se na dianteira, com 22.52%, seguido de Joaquim do Posto, com 16.22% e Ivanzinho, com 13.96%. Diante dos dados, a vantagem de Dr. Thiago para Joaquim do Posto é de 6.3 pontos percentuais e para Ivanzinho 8.56 pontos. A prefeita Martinha cravou 8.11% e Neto Brasil Rural 4.05%. Outros nomes que não participaram do pleito não serão aqui mencionados. Pela pesquisa, o candidato mais rejeitado, nesta rodada, foi a prefeita Martinha, com 43.69% dizendo não votar nela em nenhuma hipótese. Por fim, a prefeita Martinha tem a sua gestão aprovada por 16.22% e reprovada por 74.77%. Sem dúvida, a gestão municipal perdia a governabilidade e o Dr. Thiago assume a ponta para não ser mais ultrapassado em nenhuma fase do processo.

Em mais uma rodada de pesquisa, agora em julho de 2020, o advogado Thiago tem 23.81% das intenções de voto, vindo em seguida a prefeita Martinha, com 19.44% e, na terceira colocação, Joaquim do Posto, com 13.89%. Naquele momento as convenções ainda não haviam sido realizadas, apenas as eleições prorrogadas de outubro para novembro. Com base nesses dados, a novidade foi o crescimento notável da prefeita Martinha, que distava apenas 4.37 pontos do Dr. Tiago, o que configurava um empate técnico. Dos nomes, o professor Hélio atingia 11.11% e Ivanzinho 10.32%. A prefeita segue como a mais rejeitada, ou seja, 28.57% afirmando não votar nela. Contudo, caiu em 15 pontos a rejeição ao seu nome. E mais: na aprovação de seu governo, 51.19% rejeitam sua linha administrativa, contra 32.54% de aprovação. Note-se que desta pesquisa para a anterior, houve uma queda paulatina de quase 25 pontos no fator reprovação da gestão da prefeita, bem como aumenta em 16 pontos a sua aprovação. Em outras palavras, o governo Martinha dava sinais de que estava saindo do coma político-administrativo e que poderia até reverter o quadro. Na presente rodada, o governo Mauro Carlesse começa a ser medido e pesado. Segundo os dados, 51.98% disseram que o governador não tem sido bom para Natividade, ante 32.54% de satisfação ao seu governo e 16.27% que não se manifestaram.

Martinha volta ao coma e Carlesse em alta reprovação

A rodada do final de agosto, efetuada pelo Ipepe deixa evidente que Thiago acelera com mais rapidez, pilota em pista mais livre e resoluto a caminho do pódio. Na colheita dos dados, Dr. Tiago aparece com 26.15% das intenções de voto, vindo a seguir Martinha, com 16.54% e Joaquim do Posto, que não concorreu, com 12.69%. O distanciamento de Dr. Tiago para o segundo e terceiro é de 9.61 e 13.46 pontos, respectivamente. O nome mais rejeitado pelos eleitores, segundo o estudo, é o da prefeita Martinha, com 35.38% recusando, terminantemente, presenteá-la com o voto. Na medição administrativa, Martinha tem seu governo reprovado por 48.46% dos entrevistados e aprovação de 37.31%, ao passo que 14.23% não querem opinar. Convém ressaltar, que a baixa nos índices de reprovação da prefeita, assim como a taxa de aumento na aprovação, em relação às pesquisas anteriores, se dá no momento aguçado da pandemia da Covid-19, cuja chuva de recursos federais foram despejados nos municípios brasileiros, com a chancela de compras até de cestas básicas à população. Em resumo, a medição do governo Carlesse, àquela altura, contava com 53.85% de reprovação do povo nativitano e aprovação de 25%, com 21.15% não se manifestando.

A penúltima rodada do Ipepe, a um mês da caminhada às urnas, portanto, em 15 de outubro, traz Dr. Thiago à frente, pontuando com 36.09% de preferência popular e, Martinha, na segunda colocação, com 25.%; professor Hélio, com 10.6%; o vice-prefeito Ivanzinho, com 9.27% e o empresário Neto Brasil Rural, com 3.97%. Nesta aferição, o percentual de indecisos e dos que não sabem em quem votar é de 14%. O resultado desta rodada, no entanto, revela o favoritismo do jovem Thiago, ao situar com 10.59 pontos de vantagem para Martinha, sua adversária mais próxima na corrida eleitoral. Na rejeição ao voto, a prefeita aparece novamente à frente, com 36.09% dos respondentes garantindo não ceder o voto à mandatária. Na avaliação da sua gestão, 55.96% dizem estar insatisfeitos, enquanto 36,75% afirmam estar satisfeitos e 7.26% não opinam. Quanto ao governo estadual, 50.66% dos nativitanos se dizem insatisfeitos com a forma de Carlesse governar, porém 32.45% expressam satisfação pelo governo e 16.89% não responderam. Finalmente, a última rodada do Ipepe, a três dias da bandeirada de chegada, ou melhor das eleições, aponta que a prefeita Martinha não possui mais combustível na volta final. Sendo assim, Dr. Thiago tem 46% de preferência popular, assume definitivamente a dianteira, acompanhado à distância por Martinha, com 26%; professor Hélio sustentado em 13.33%; o vice-prefeito Ivanzinho, com 5.33% e Romeu, com 0.67%. A pesquisa assinalou 7% de indecisos. Com as urnas abertas e os votos totalizados, assim ficaram os resultados: Dr. Tiago (40.47%); Martinha (27.52%); Hélio (17.55%); Ivanzinho (8.33); Neto (3.57%) e Dr. Romeu (2.57%). Por fim, o trabalho de pesquisa iniciado desde um ano antes das eleições, sob a responsabilidade deste jornalista, sempre deixou claro, sob a ótica dos diagnósticos, que o favoritismo caminhou na direção do advogado Thiago Jayme, visto que os números obtidos pelo instituto de cada candidato, na reta final, estão todos dentro da margem de erro da pesquisa e dos números lançados pelo TRE.

*Goianyr Barbosa é jornalista, radialista e consultor político.