Eleições 2020. Polarizar ou pluralizar?

  • 02/Set/2020 09h16
    Atualizado em: 02/Set/2020 às 09h19).

*Por Ricardo Abalém Jr

Os processos eleitorais no Brasil têm por tradição polarizar as disputas majoritárias. É uma questão cultural, amparada inclusive no âmbito legal pela imposição de um segundo turno em colégios com mais 200.000 eleitores e desde que não se alcance mais de 50% dos votos válidos.

A polarização é fruto de diversas situações momentâneas que levam a sociedade a dividir opiniões, inclusive os indicadores econômicos. As últimas eleições nacionais foram claras nesse sentido ao estampar uma polarização entre os brasileiros que disseram sim e os que disseram não às práticas das últimas gestões no Planalto.

De um lado os satisfeitos com o Bolsa Família e do outro os que aplaudiam a Lava Jato. As figuras de Fernando Haddad e de Jair Bolsonaro pouco influenciaram os eleitores. O que decidiu mesmo as eleições foi o contexto de polarização de dois pensamentos: sim ao assistencialismo e o não à corrupção.

No Tocantins vivenciamos o mesmo, inclusive em outras escalas ao longo de nossa curta história. A polarização sempre ocorreu por aqui entre as forças políticas tradicionais, até as últimas eleições estaduais. 2018 trouxe um cenário novo, onde as figuras políticas tradicionais não tiveram mais o peso decisivo no processo. Siqueiristas, Avelinistas ou Mirandistas já se entrelaçavam nas diversas correntes políticas e o mote então passa a ser também o sentimento coletivo e, claro, divergente.

As eleições de 2020 vão ocorrer no mais atípico dos cenários e se apresentam como uma grande incógnita, especialmente em Palmas. Em plena pandemia, numa projeção de abstenção que pode superar à casa dos 35%, conseguimos reunir 16 pré-candidaturas ao Paço municipal. Inacreditável! Deu a louca nos políticos, ou nem a Prefeitura nem o Palácio Araguaia moveram uma palha sequer para aglutinar os grupos políticos na capital tocantinense.

Estamos a poucos dias do prazo final para as convenções partidárias e para quem olha à distância, Palmas faz jus ao título de ‘‘terra de ninguém’’. E não venha dizer que essa pluralidade de candidaturas é inerente ao regime democrático, porque é conversa. Haverá desistências, sim. Alguns estão de olho na vice dos outros, sim. Muitos jogam no “se colar, colou”, também. Mas o que parece faltar mesmo é comando político.

Perdemos a polarização entre as lideranças tradicionais, mas avançamos no raciocínio lógico dos cidadãos eleitores. Mesmo sem saber qual será o sentimento indutor dos eleitores palmenses, uma coisa é certa, a cidade vai bem e essa condição não é resultado de uma gestão específica.

Podemos dizer que existem dois caminhos para o afunilamento do processo eleitoral esse ano. Um que mantenha essa pluralidade de candidaturas (cerca de 10) e outra onde alguns pré-candidatos farão um discurso apaixonado de união em torno de três ou quatro candidaturas.

A receita que tradicionalmente se vende para quem está no poder é aquela de fomentar a pluralidade de candidaturas. A perspectiva de quanto mais dividir, melhor para quem tem o comando da máquina administrativa. Porém é preciso lembrar que pesquisa tem duas leituras básicas, quantitativa e qualitativa. Na equalização das informações é que está o ‘pulo do gato’.

Essa ‘receita da vovó’ é realmente muito boa, desde que o índice de rejeição não seja alto demais. No caso da prefeita Cinthia Ribeiro é preciso avaliar bem, pois as pesquisas publicadas até agora revelam uma rejeição superior a 30%. Nessa projeção, contando com a possibilidade de pouco mais de 65% das intenções de votos para serem divididos entre ela e todos os outros candidatos, talvez a polarização seja o caminho mais confortável para a disputa.

Já a oposição, que dá sinais claros da tentativa de aglutinar diversas correntes em torno de uma candidatura única, é melhor rever os números e considerar que a pluralidade de candidaturas pode ser na verdade o caminho mais curto para o Paço Municipal.

Ricardo Abalém Jr.
Editor Responsável do O Jornal