Os primeiros anos de Palmas

  • 20/Mai/2020 07h32
    Atualizado em: 20/Mai/2020 às 07h37).

*Por Júnio Batista

A formação de um lugar se faz com o registro e a presença de pessoas. São elas que, ao longo dos anos vão repassando para as novas gerações.
No caso de Palmas, a última capital, cidade planejada, construída em pleno cerrado, registrar esse período marcado por poeira ou lama, é de suma importância para evitar que tenhamos um “apagão da história” e as futuras gerações fiquem seriamente comprometidas.

Palmas é uma cidade que vai muito além dos seus inventores e construtores. Em cada quadra ou nos bairros, todos desenhados com traços milimétricos, escondem-se histórias que só os pioneiros contam. Muitas delas já esquecidas, outras ainda depositadas apenas no coração. Esse sentimento de lembrança garante a alguns o título “honores” de pioneiro. São migrantes que vieram de cada canto desse Brasil e se encantaram com suas belezas e testemunharam nascer em meio às dificuldades e à descrença de tanta gente que desmerecia o futuro da nova capital um olhar diferenciado. Assim é Palmas: um encontro de Brasis, de cores, raças e culturas.

Nos dois primeiros anos, o que se via na paisagem urbana eram prédios e casas brotando num solo virgem, era comum animais passear entre os homens que apressados trabalhavam, enfrentando ruas sem asfalto, sol, chuvas e ventanias, principalmente nos meses de junho a setembro, que chegavam a levar os telhados. Tudo era difícil e muitas coisas eram improvisos.

Os jornais carregavam as manchetes que criavam a imagem de um eldorado, influenciando a migração acelerada. As pessoas chegavam ansiosas, muitos resistiram e permaneceram, acreditam em uma nova oportunidade, outros vieram e voltaram. Aqueles que ficaram viram, viveram e venceram.

As primeiras empresas chegaram quase junto com o governo, em janeiro de 1990, alguns atendiam de forma improvisada, antes mesmo de abrir os loteamentos, é o caso do restaurante Los Pampa (Sônia Miranda), começou a funcionar em 1º de maio de 1989 para atender os funcionários das construtoras (EMSA, CR Almeida, CCO, Warre) que abriam ruas e construíam os primeiros prédios.

No mesmo ano veio o primeiro Supermercado “O Girassol”, de Ruy Adriano. Em 06 de outubro de 1989 foi inaugurado o sistema telefônico, sendo o primeiro número 851-2766 – que ficou no palacinho.

Em Março de 1990, começa a funcionar a primeira estação de Televisão, a TV Palmas que inicialmente retransmitia a programação da TV Bandeirantes, depois passou TV Manchete e por último TV Cultura, no mesmo mês, o comerciante Makotinho Sato, inaugurou o primeiro hotel, Hotel São Paulo - uma homenagem ao estado aonde morava, por ironia do destino, ele foi a primeira pessoa a ser enterrada, em julho de 1990, no cemitério Jardim das Acácias.

No mesmo período veio o Banco Bandeirantes, responsável pelo pagamento dos servidores do estado e do município, chegou a funcionar primeiramente num trailer instalado no centro da cidade, ao lado do canteiro de obras da Secretaria de Infraestrutura e da galeria Bela Palmas. O segundo banco foi o Basa e Banco do Brasil, mas já com os prédios prontos, nos indos de 1991.

As lojas de material de construção não demoraram a chegar. Primeiro instalou a Valadares Comercial em maio de 1990, mês depois a Alvorada Center, se estruturou na ARSE 51. Ainda em maio de 1990, a cidade recebe o presidente Fernando Collor de Mello para inaugurar o primeiro prédio público construído definitivamente – o Paço Municipal, também a cidade passou a ter panificadora, do gaúcho Luiz Zanini.

Em junho, mais precisamente em 24 de junho de 1990, tivemos a primeira criança a nascer na nova Capital, Palmério Campos. O nome é uma homenagem à cidade, no mesmo mês começa a funcionar a primeira farmácia, conhecida como farmácia Araguaia de Amilson Alvares.

Para agilizar a construção da cidade, o governo do Estado usou três frentes.

Na primeira, distribui lotes a servidores e empresários, em forma de comodato ou em regime de pagamento (dação). Comodato era um sistema de venda, com carência de dez anos para começar a pagar. Já Dação – era pagamento de serviços prestados por empresas ao estado.

Na segunda frente incentivou a migração dos servidores públicos para a nova Capital, dando condições mínimas para construção, no caso dos servidores por meio das “cestas-básicas” compostas por uma quantidade de tijolos, telhas, areia e alguns sacos de cimento, bem como um auxílio financeiro que chamou de “Abono Palmas”, criado por meio da Lei nº 153, de 28 de junho de 1990, concedendo 30% sobre o respectivo vencimento, livre de qualquer desconto previdenciário para os que aventuraram a fixar moradia na nova capital.

Na terceira frente, teve a aceleração de obras básicas, como serviço de topografia, abertura de ruas, rede elétrica, prédios públicos, alguns provisórios, outros definitivos, como: Palácio do Governo – conhecido como Palácio Araguaia – e alguns prédios para abrigar as secretarias do estado.

As primeiras quadras abertas foram do setor sudeste: ARSE 14, 51, 61, 71, 72, 81, 82, 91 e 101, a água era abastecida por caminhões pipas, e em muitas quadras a energia era tocada a motor.

A primeira invasão ocorreu no final de 1990 nas margens do córrego Sussuapara – ficou conhecida como Golfo Pérsico – era justamente no período da guerra do golfo, era única zona boêmia da cidade, pois nesse período não era permitido a venda de bebidas alcoólicas – imperava a lei seca.

Entretanto, na transição de governos em 1991 desabou-se uma avalanche de invasões, o então governador Moisés Avelino (1991 a 1994) aproveitou para tentar mudar o nome de algumas quadras e bairros – numa nítida tentativa de reescrever a história e criar uma nova identidade palmense.

Arno 31, 32 e 33 invadidas, em 1990 foi rebatizada de Vila União; anos depois invadiram as Arno 71 e 72 que foi chamada de Vila Independência – devido a invasão ter iniciado no dia 07 de setembro - apesar de ter o apelido pejorativo de Sapolândia.

A ARSE 14, por ter sido dado aos primeiros deputados e secretários – foi apelidada de Vila dos Deputados.

Os Jardim Aureny´s, tentou-se mudar a lei, na proposta deixaria apenas o Aureny I com o nome da ex primeira dama, dona Aureny Siqueira Campos. Já Aureny II rebatizaria para Setor Nova Esperança, Aureny III para Setor Liberdade, chegou até construir um colégio com esse nome lá, Aureny IV para Setor Novo Horizonte, construiu colégio e posto de saúde com esse nome.

Onde tem o Palacinho, na ARNE 15, teve uma invasão, que anos depois, em 1996 os moradores foram transferidos para ARNE 51, queriam rebatizar de Jardim Palacinho, na ARSE 24 para Jardim Natal – em virtude de ter ocorrido uma invasão no dia 24 de dezembro de 1991. ARSE 122 para Jardim Virgínia - o nome seria homenagem à primeira dama, esposa do então Governador Moisés Avelino.

Em 1º de janeiro de 1991, com apenas um ano, já estava com o eixo urbano totalmente demarcado, o Palácio Araguaia, o Paço Municipal e 4 prédios de secretarias prontos, algumas quadras quase totalmente habitadas, a população era estimada pelo IBGE em 24.334 habitantes, no ano seguinte 31.342, até 1996 teve um crescimento de 28% ao ano, percentual recorde - o que transformou Palmas na cidade que mais crescia no país.

E, aos poucos a cidade, foi ganhando corpo e maturidade, em meio a um sol escaldante e da poeira, formando uma geração de aventureiros, para uns pode até ter sido maluquice, para outros foi a concretização de um sonho tão antigo, quando a criação do Estado, olhando para trás faz lembrar esse período histórico recheado de fatos pitorescos e até parece que foi ontem, tão viva estas as lembranças.

*Júnio Batista do Nascimento, pioneiro, professor e pesquisador.